Monday, March 06, 2017

o amor e as lágrimas

Ouço a palavra amor, e a imagem que vem a mente é de um rosto coberto por lágrimas. Não sei relacionar o amor a um casal feliz correndo pela grama verdejante. O amor, na minha concepção, é tão absoluto que a felicidade não o alcança. É um pássaro no invisível. É o beijo prisioneiro dos próprios lábios. É a luz da caixa de som no quarto escuro. É o vento que se espreme pela fresta da janela. É o barulho da chuva no vidro. É a árvore que suporta a tempestade. É o senhor com dificuldade de se erguer do banco da praça. É a chamada perdida no telefone. O amor é a corrida contra todos, inclusive contra nós mesmos. É a grandeza do impossível. É a lembrança daquilo que não aconteceu. É o abismo da razão. Na solidão da alma, as lágrimas são verdadeiras, e o sorriso engana. Ouço o galope dum cavalo numa estrada de terra batida. Abro os olhos, está escuro: à noite, eu me pertenço.

Saturday, February 18, 2017

apenas ser e nada mais

Ser feliz, ser persistente, ser independente, ser diferente, ser amável, ser gentil, ser forte, ser tolerante. Há tantas regras, conselhos e ditados de como se deve ser, que esse “ter de ser” esgota a alma. Que tal apenas e simplesmente ser? Sem adjetivo: ser. E nada mais.

Saturday, February 11, 2017

quero me perder de novo

Hoje eu me perdi e não me reencontrei. Para ser sincero, não quis me reencontrar. Desejei somente vagar por meu mundo paralelo em que o dia a dia não sabe me importunar. Onde as flores nascem de cabeça para baixo e os pássaros se calam curiosos. Aqui a noite é eterna, desde que eu não vá dormir. Fecho os olhos e sinto que não sinto. Abro a geladeira e nada retiro. Releio alguns trechos de textos que me agradam e finjo que as palavras são minhas. Imagino o sol nascendo e o despertador quebrado. Imagino alguém entrando no meu quarto e encontrando a cama vazia. O sono se aproxima, eu reluto, mesmo sabendo que terei de acordar cedo. Penso em algo que me foge. Por fim, adormeço. Desperto de manhã no reencontro com o compromisso. Estou com muito sono, mas sem arrependimentos. À noite, quero me perder de novo. 

Thursday, February 02, 2017

o milagre e a eternidade

As vezes enxergo o milagre por um fugaz instante. De repente, reconheço a impossibilidade lógica de tudo que existe. Como assim, uma carta de amor? Como explicar que da poeira do universo evoluiu um sistema de vida que acabou por permitir a existência de uma carta de amor? Quando percebo a grandeza desse processo de criação, tudo de negativo perde o significado e só o que permanece é o milagre: singelo, delicado e absoluto. É um palácio de cristal brilhando na imensidão de uma planície azul. Tão improvável como o ato de eu estar escrevendo essas linhas. Tão fascinante como o fato de você estar se identificando com as minhas palavras. Pense nisso: da poeira do universo evoluiu essa comunicação que gera um instante de verdade entre nós. Nuvens que se transformam. Caminhos; eternidade.

Tuesday, January 24, 2017

o cercadinho verde-enferrujado

No limite da cidade havia um parquinho para as crianças. Era um cercadinho verde-enferrujado, que ocupava o centro de um terreno baldio de terra batida. Dentro do cercadinho, o escorrega, o balanço e o trepa-trepa. Um grupo de crianças se alternava nos brinquedos, enquanto os adultos responsáveis se ocupavam com smartphones. Tempo nublado. Uma das crianças andou às grades do cercadinho para observar uma poça de água que se formara durante a última chuva, no terreno baldio. A poça parecia tão mais divertida que o parquinho. Percebeu a porta do cercadinho destrancada e os adultos distraídos. Escapuliu. Tirou os sapatos e pisou no iniciozinho da poça. Sentiu a lama se espremer por entre os dedos dos pés. Riu alto. Curiosas, uma por uma as demais crianças fugiram do cercadinho e foram se lambuzar na poça d’água, sem que os adultos notassem. Brincaram por divertidos minutos até que retornaram despercebidos. Mais tarde, ao chegar em suas respectivas casas, os adultos notaram, com estranhamento, que os pés das crianças estavam sujos de lama. Não notaram, porém, que as crianças sorriam como nunca antes. Não perceberam o brilho da aventura nos olhos dos pequeninos. Deixaram de ver a magia, apenas a lama nos pés. Um dos adultos pensou que o parquinho deveria ser reformado com urgência, talvez precisasse de grama sintética. Outro decidiu comprar sapatos melhores, para manter os pés de seu filho limpos. Outro ainda pensou em perguntar ao filho como foi que sujara os pés, mas havia cinco novas notificações no smartphone, e esqueceu o assunto.