Monday, June 11, 2018

acreditar


Sorrir sem sorrir. Dizer palavras animadas, enquanto o coração pulsa apertado. Viver em dois mundos: por fora firme divertido, por dentro amargo desequilibrado. De noite, quando a cabeça encontra o travesseiro, a verdade vem à tona. Primeiro algumas lágrimas, depois a esperança. Há esperança. Sempre há. Sorri sorrindo. Acreditar.

Thursday, June 07, 2018

chove cá dentro


Chove lá fora e cá dentro também. Dentro de mim. Ouço os trovões e sinto relampear. É uma tempestade daquelas. Amigos e parentes não fazem ideia do vendaval que sacode minha alma. Nem queiram fazer: meu veleiro está além de seus horizontes, em águas que devoram tudo o que é comum. Meu peito grita. Lá fora já não chove mais, cá dentro sim.

Saturday, December 16, 2017

A razão do universo

Há quem conte piadas, há quem conte mentiras, há quem conte causos, há quem conte vantagem, há quem conte histórias. Ela, por sua vez, contava os peixinhos nos aquários e as pipocas no chão do cinema. Contava os olhares, os minutos, os beijos, contava flores e folhas, sorrisos e abraços. O que se conta revela a natureza dos indivíduos: alguns contam para se exibir; outros, para entreter. Ela conta, pois, acima de tudo, busca a razão do universo.

Monday, October 23, 2017

Saudades

Tenho excesso de saudades. Tenho saudade de dividir a banheira com meus irmãos na infância. Saudade do cobertor quentinho nos dias de chuva na casa da vovó. Tenho saudade do cheiro do mar. Tenho saudade do beijo na porta da escola. Saudade de campos verdes e de estradas de terra. Saudade de todas as idades que já vivi, das cidades que já cruzei, dos amigos que vieram e se foram nas encruzilhadas da vida. Tenho tantas saudades, que tenho saudade até de coisas que nunca conheci: tipo, saudade dos tempos em que a Bahia era como nos livros de Jorge Amado. Saudade de um abraço quente, razão do universo. Mãe.

Friday, September 08, 2017

força e coragem

Desde pequena lhe ensinaram a buscar abrigo quando chovesse. A fugir do vento. A evitar arbustos espinhosos. Um dia ela se cansou. Correu por chuva de vento e deixou que os espinhos da vida lhe marcassem com ensinamentos. Tropeçou, levantou-se, tropeçou de novo, ergueu-se outra vez. Algumas rugas surgiram com o tempo, e deixou de ter aquela pele sedosa que os meninos da escola admiravam. Hoje ela não é boneca, não é imagem, tampouco conquistou o mundo e não se diz emancipada. Ela é somente ela, força e coragem. 

Thursday, August 17, 2017

beijo roubado

Ilhas são portos seguros. Estrelas são desejos inconscientes. Pássaros, a liberdade. Palavras confundem mais que explicam. Um formigar sobe o peito e acaricia o pescoço. O rosto se aquece. Lembranças se iluminam. Um cavalo galopeia pelo vasto infinito, o dia se põe por trás de um monte, uma pena voa pelo transparente. Árvores são o pai, os galhos abraçam. O sol é a mãe: luz e calor. O arco-íris é a beleza da trilha impossível. Quando chove, quero correr de braços abertos por ruas e por becos e bater, encharcado, à sua porta. Ver o seu rosto surpreso ao me ver entregue à tempestade. Talvez lhe roubar um beijo e correr de novo chuva a dentro para longe, sem que nós dois jamais entenderemos o que de fato aconteceu.

Tuesday, August 08, 2017

para nunca mais voltar

Ela costumava dizer tudo o que pensava. Sempre teve muitas opiniões. As pessoas a ouviam com atenção e, na maioria das vezes, concordavam. Ela sentia-se importante. Até que um dia descobriu as suas opiniões equivocadas. Acordou, certa manhã, e pensou todas as ideias ao avesso. Ficou envergonhada por um instante, então sentiu um esquisito estranhar: se ela esteve equivocada, todos que com ela concordavam também se equivocavam. Pensou em conversar com os amigos e explicar que o mundo não era bem assim, mas se reteve na possibilidade de estar novamente enganada. Descobriu que as opiniões são como os passarinhos, que nascem, se desenvolvem e depois batem asa, para nunca mais voltar.