Tuesday, July 10, 2018

uma luz brilhou no céu

Uma luz brilhou no céu e não era o sol. Uma luz brilhou no céu e não era estrela. Uma luz brilhou no céu e não era a lua. Uma luz brilhou no céu, mas não era balão de São João, foguete de festa junina ou farol de aviso. Uma luz brilhou no céu e não era vaga-lume, não era avião, disco voador nem espaço nave. Eles estavam pela primeira vez a sós, tímidos, apaixonados um pelo outro, com receio de que o amor de um pelo outro não fosse correspondido. Quando suas mãos finalmente se tocaram, uma luz brilhou no céu e se beijaram.

Friday, June 29, 2018

beleza

A beleza é um sopro. É o calor que traz equilíbrio ao mundo. É o luar correndo de mãos dadas com o pôr do sol. É a cachoeira se lançando no abismo para nutrir a terra. É o pássaro azul cantando na colina. É chuva, o arco-íris, uma voz de silêncios. A beleza é a moça simples do interior que se descobre, de repente, no espelho. Ela acaricia o próprio rosto, sorri e se aceita na plenitude do momento. A beleza jamais foi, não é e nunca será o que alguém pensa de você: ela é o oposto, ela é o que você pensa de você. A beleza não está nos olhos que observam, a beleza está no olhar que aceita. Você, beleza, você. Você é a beleza no mundo.

Monday, June 11, 2018

acreditar


Sorrir sem sorrir. Dizer palavras animadas, enquanto o coração pulsa apertado. Viver em dois mundos: por fora firme divertido, por dentro amargo desequilibrado. De noite, quando a cabeça encontra o travesseiro, a verdade vem à tona. Primeiro algumas lágrimas, depois a esperança. Há esperança. Sempre há. Sorri sorrindo. Acreditar.

Thursday, June 07, 2018

chove cá dentro


Chove lá fora e cá dentro também. Dentro de mim. Ouço os trovões e sinto relampear. É uma tempestade daquelas. Amigos e parentes não fazem ideia do vendaval que sacode minha alma. Nem queiram fazer: meu veleiro está além de seus horizontes, em águas que devoram tudo o que é comum. Meu peito grita. Lá fora já não chove mais, cá dentro sim.

Saturday, December 16, 2017

A razão do universo

Há quem conte piadas, há quem conte mentiras, há quem conte causos, há quem conte vantagem, há quem conte histórias. Ela, por sua vez, contava os peixinhos nos aquários e as pipocas no chão do cinema. Contava os olhares, os minutos, os beijos, contava flores e folhas, sorrisos e abraços. O que se conta revela a natureza dos indivíduos: alguns contam para se exibir; outros, para entreter. Ela conta, pois, acima de tudo, busca a razão do universo.

Monday, October 23, 2017

Saudades

Tenho excesso de saudades. Tenho saudade de dividir a banheira com meus irmãos na infância. Saudade do cobertor quentinho nos dias de chuva na casa da vovó. Tenho saudade do cheiro do mar. Tenho saudade do beijo na porta da escola. Saudade de campos verdes e de estradas de terra. Saudade de todas as idades que já vivi, das cidades que já cruzei, dos amigos que vieram e se foram nas encruzilhadas da vida. Tenho tantas saudades, que tenho saudade até de coisas que nunca conheci: tipo, saudade dos tempos em que a Bahia era como nos livros de Jorge Amado. Saudade de um abraço quente, razão do universo. Mãe.

Friday, September 08, 2017

força e coragem

Desde pequena lhe ensinaram a buscar abrigo quando chovesse. A fugir do vento. A evitar arbustos espinhosos. Um dia ela se cansou. Correu por chuva de vento e deixou que os espinhos da vida lhe marcassem com ensinamentos. Tropeçou, levantou-se, tropeçou de novo, ergueu-se outra vez. Algumas rugas surgiram com o tempo, e deixou de ter aquela pele sedosa que os meninos da escola admiravam. Hoje ela não é boneca, não é imagem, tampouco conquistou o mundo e não se diz emancipada. Ela é somente ela, força e coragem. 

Thursday, August 17, 2017

beijo roubado

Ilhas são portos seguros. Estrelas são desejos inconscientes. Pássaros, a liberdade. Palavras confundem mais que explicam. Um formigar sobe o peito e acaricia o pescoço. O rosto se aquece. Lembranças se iluminam. Um cavalo galopeia pelo vasto infinito, o dia se põe por trás de um monte, uma pena voa pelo transparente. Árvores são o pai, os galhos abraçam. O sol é a mãe: luz e calor. O arco-íris é a beleza da trilha impossível. Quando chove, quero correr de braços abertos por ruas e por becos e bater, encharcado, à sua porta. Ver o seu rosto surpreso ao me ver entregue à tempestade. Talvez lhe roubar um beijo e correr de novo chuva a dentro para longe, sem que nós dois jamais entenderemos o que de fato aconteceu.

Tuesday, August 08, 2017

para nunca mais voltar

Ela costumava dizer tudo o que pensava. Sempre teve muitas opiniões. As pessoas a ouviam com atenção e, na maioria das vezes, concordavam. Ela sentia-se importante. Até que um dia descobriu as suas opiniões equivocadas. Acordou, certa manhã, e pensou todas as ideias ao avesso. Ficou envergonhada por um instante, então sentiu um esquisito estranhar: se ela esteve equivocada, todos que com ela concordavam também se equivocavam. Pensou em conversar com os amigos e explicar que o mundo não era bem assim, mas se reteve na possibilidade de estar novamente enganada. Descobriu que as opiniões são como os passarinhos, que nascem, se desenvolvem e depois batem asa, para nunca mais voltar. 

Friday, July 21, 2017

ajudar é um caminho espinhoso

Ela nunca se esquecerá daquele sonho estranho com um avião. Viajava num imenso jato particular. O avião, de tão gigante, poderia transportar milhões de pessoas, mas ela era passageira única. Certa hora, ela olhou pela janela e viu uma multidão de pessoas famintas, pedindo uma carona, implorando por salvação. Então ela mesma se transformou no avião. Querendo ajudar os milhares de famintos, ela tentou aterrissar, mas uma violenta turbulência impediu que pousasse, e a multidão inteira começou a chorar. Despertou do sonho de coração partido. Caminhou até a janela e observou a rua calada na madrugada chuvosa. Havia um mendigo passando frio em baixo de uma marquise. Quis lhe levar um cobertor, mas teve receio de descer para a rua, sozinha, no escuro. Sentiu-se impotente; havia tanto a fazer pelos outros, sem que ela, de fato, conseguisse fazer. Naquela noite ela descobriu que ajudar os menos favorecidos não é uma simples questão de ter um bom coração: ajudar é um caminho espinhoso.

Saturday, July 15, 2017

a felicidade é uma casa sem paredes

Quando criança, ela sonhava em ser cantora. Fazia apresentações para os adultos, imitando a estrela do momento. Depois, no início da adolescência, sonhou em ser modelo. Era um sonho um pouco mais sério que o de ser cantora. Reclusa em seu quarto, longe de olhares estranhos, desfilava na frente do espelho e se imaginava nas passarelas do mundo. Finalmente, já quase adulta, sonhou em ser atriz. Repetia os diálogos das telenovelas e se entregava ofegante nas cenas de beijo. Os anos correram, a vida enveredou por caminhos inesperados; dos sonhos de fama fez-se a realidade do sustento diário. Hoje, quando ela pensa para trás, um sorriso sincero quebra a dureza rotineira. Ela se dá conta de que foi primeiro cantora, depois modelo, então atriz. Ninguém, jamais, há de nos tirar os sonhos, ela percebe. E, às vezes, de noite após uma longa jornada de trabalho, ela fecha os olhos e se enxerga nos mesmos palcos em que foi estrela quando na idade dos sonhos. Os holofotes imaginários ofuscam qualquer frustração. Livre ela se sente, pois livre ela é: a felicidade é uma casa sem paredes.

Thursday, July 06, 2017

ela é simples e simples encanta

Ser complexo é buscar metáforas indecifráveis; é dificultar o fácil; é fazer curvas sobre retas. Ser simples é dizer bom dia; é sorrir, é dar um abraço; é tomar banho de chuva. Ser complexo é analisar cada sentimento. Ser simples é sentir o sentimento, sem analisá-lo. Ser complexo é conhecer receitas sofisticadas. Ser simples é fechar os olhos e buscar o sabor de tangerina na esquecida infância. Ser complexo é a tentativa de explicar a existência: ser simples é existir. Ela dança ao vento, e suas pegadas se espalham pela areia. Ela mexe os lábios quando pensa. Ela é simples e simples encanta.

Friday, June 30, 2017

experimentar a grandeza do universo

Em que você realmente acredita? Digo, lá na honestidade profunda, onde os olhares estranhos não alcançam. Pense na sua alma como um livro secreto que só pode ser decifrado com uma lanterna a pilha debaixo do cobertor. O que estará escrito nesse livro? Teria alguma relação com aquilo que você tenta, desesperadamente, mostrar de si ao mundo? Você desconfia ser uma fraude: o mundo não gosta de verdades. O mundo é um grande teatro e vive de atores que desempenham, com perfeição, seus respectivos papéis. Ser verdadeiro é pôr o equilíbrio em risco. Em que você realmente acredita? Às vezes, é fundamental se fazer essa pergunta. Não para contar ao mundo; mas para experimentar a grandeza do universo.

Tuesday, June 27, 2017

quando vejo meu amor passar

Quero dizer verdades. Sugá-las de cada labirinto de minha alma e despejá-las sobre a humanidade. Deixar minha voz ecoar por ruas e por esquinas e deixar o mundo saber de seus equívocos e de suas belezas. Pintar algumas paredes de cinza e outras de azul. Explicar que o nascer da lua é gratuito e que é de beleza igual, visto do hotel de luxo ou do casebre no morro. A humanidade embrulha as belezas em clichês. Pensa que tomar champanhe numa beira de piscina é viver mais intensamente que beber água de riacho na floresta. Quero convidar a humanidade a sorrir; a deixar os olhos brilharem; a sussurrar sonhos; a respirar esperanças; a sentir o mundo girar na ponta do coração. Quando vejo meu amor passar, quero dizer verdades.

Wednesday, June 21, 2017

a menina e a montanha

Alguns rapazes, sempre implicantes, inventaram para a menina que havia um mestre no topo da montanha, com respostas para todas as dúvidas do universo. Ela, mergulhada em questões existenciais, subiu a trilha ardilosa até o cume do monte. Chegando lá, percebeu que fora enganada e que não havia mestre algum. Chateada, sentou-se sobre uma pedra e espiou os horizontes distantes. Permaneceu lá por longas horas, e o olhar amadureceu. Como se, de repente, compreendesse cada uma das palavras que lhe roubavam o sono de madrugada. Quando retornou, os rapazes perguntaram, em tom de ironia, como fora o encontro com o mestre. Ela sorriu e respondeu que eles estavam enganados, não havia mestre algum no alto do monte. Os rapazes ameaçaram rir, quando a menina completou “na verdade é uma mestra, uma mulher; e ela me mostrou que vocês e eu, apesar das implicâncias, um dia seremos as melhores memórias uns dos outros.” Os rapazes, atônitos, disfarçaram a incompreensão e dispersaram. No dia seguinte, subiram até o alto da montanha, na esperança de encontrar a mulher sábia, mas apenas se depararam com uma pedra vazia.

Friday, June 16, 2017

medo de dizer bom-dia

Eu sempre tive muitos medos. Ainda tenho. Há quem afirme que são inseguranças, mas eu gosto de dizer que são medos. Inseguranças me parecem descrições de livros de ciência; medos são a vivência do dia a dia. As vezes, tenho medo de ter os medos errados. Tipo, ter medo da lua, quando, na verdade, eu deveria ter medo da escuridão. Correndo contra o tempo, tenho medo de que meu tempo já se tenha passado há muito tempo. Como a nuvem que vem para trazer uma sombra inútil à noite. E quando minha alma gêmea passa por mim, tenho medo de dizer bom-dia.

Thursday, June 15, 2017

a flor no deserto

Lá vou eu levar minhas pilhas coletadas para jogar fora, como sempre, no ponto de coleta do supermercado da esquina. Chego lá para descobrir que o estabelecimento não recolhe mais as pilhas.
Na mídia brasileira corre a indignação com o fato de que Trump deixou o acordo climático de Paris. Olho ao redor e penso que o acordo climático é o de menos perto do descaso generalizado com o meio ambiente no Brasil.
Nossos rios urbanos são valas de esgoto ao céu aberto. As baías perto de cidades são bacias de poluição. As pilhas e lâmpadas não tem descarte adequado. Nas praias, o lixo fica na areia. Nos mercados, as sacolas de plástico se multiplicam e multiplicam. A reciclagem é iniciativa de poucos. Tenho amigos, formados e estudados, que até hoje não separam o lixo reciclável, sob a desculpa de que "no meu prédio não tem coleta seletiva". Eu penso que reciclagem não é conforto, é consciência e dá trabalho.
Enquanto penso sobre tudo isso, três tiros são disparados na subida de uma favela perto de casa. Algumas pessoas se jogam no chão, assustadas, outras seguem como se tiro fosse parte inevitável da rotina. Eu, confesso, fiquei no grupo dos que se acostumaram, apenas apressei os passos, carregando minha sacola de pilhas ainda sem destino.
Pode haver conscientização ecológica enquanto não há paz? Seria a crônica agressão ao meio ambiente apenas outra face de nossa natureza violenta?
Lembro do desastre da Samarco e percebo minúscula minha iniciativa de preservar a natureza, ao descartar as pilhas de forma adequada. De noite, quando olho para o céu, percebo o quão minúsculo somos todos nós. Então, se for para comparar minhas ações com escalas de grandeza, é melhor sentar de baixo de uma árvore e esperar a vida passar. Do ponto de vista universal, tudo que se faz, por maior que seja na concepção humana, é um pingo no infinito.
Vou procurar por outro lugar para descartar as pilhas. Que a humanidade não desista perante as dificuldades de tentar fazer o que simplesmente é certo. O milagre está nos detalhes: na singela flor que sobrevive no deserto.
Encoraja pensar que, quanto maior for o deserto, maior é o milagre da flor solitária.

Monday, June 05, 2017

velejar pelas verdades do mundo

Corro na beira do mar e sinto o universo grunhindo sob os meus pés. A terna espuma branca me guia pela noite. Alguns casais namoram longe dos postes da calçada, e sentem-se invadidos quando passo por eles. Finjo ignorá-los, para que possam se eternizar nos braços um do outro. A cidade ilude, a maresia alerta. Sigo correndo. Percebo uma luz na escuridão do mar e imagino um navegante perdido no horizonte negro. Paro e respiro. Sinto o coração se acelerar no céu da boca. De um lado, as milhares de luzes da cidade, do outro, a luz do navegante solitário. Quem corre risco de se perder? Nós na cidade ou ele em alto-mar? Penso que já me perdi há muito tempo e que preciso ter meu próprio barco, para me encontrar. Velejar pelas verdades do mundo, longe dos holofotes da vaidade.

Tuesday, May 30, 2017

ser livre

O que vou dizer hoje é que você não deve prestar tanta atenção nas coisas que lhe acontecem. Ao invés disso, perceba o que você sente quando algo lhe acontece. Muitos acontecimentos são influenciados por fatores que, em princípio, não podem ser controlados. Mas o que você sente quando algo acontece, esse sim é um fenômeno que cabe unicamente a você. É a história da menina que ficava triste, pois um menino que ela idolatrava viva lhe debochando. Até que a menina deixou de idolatrá-lo e, no mesmo instante, ela parou de se entristecer com os deboches. O menino, quando percebeu que ela não mais se entristecia, parou de debochar, pois a implicância perdera o sentido. E a menina, agora livre, interessou-se por outra pessoa, que lhe correspondeu de coração.ser livre

Monday, May 15, 2017

o amor é a pedra fundamental do universo

Hoje um ladrão furtou o celular de uma senhora. O ladrão estava acompanhado de um pivetinho, de, no máximo, 5 anos. O ladrão fugiu e a população pegou apenas o pivetinho. A notícia boa é que a maior parte do grupo que pegou a criança viu que se tratava apenas de uma criança. Seguraram ele e esperaram a policia chegar. A notícia triste é que havia pessoas querendo espancar o menino. Adultos de 40, 50 anos, querendo machucar um criança de cinco anos, que sequer fora autor principal do roubo. Então percebo o que a violência faz ao brasileiro: estamos perdendo a essência humana. A face silenciosa da violência é que ela recruta nossas almas. Compaixão vira ódio, e o mundo passa a girar em torno da necessidade imediata por segurança. Precisamos de segurança, e quem ameaçá-la é considerado inimigo passível da pena de morte. As vezes, o ódio me alcança também, e temo por minha individualidade: tenho medo de virar mais um desalmado nesse mar de zumbis, pregando a mesma ideia intransigente de combater a violência através da violência. Como se picada de cobra se curasse com picada de cobra. O amor é a pedra fundamental do universo.

Friday, May 12, 2017

somos seres passageiros

A certeza de hoje é a dúvida do amanhã. O azul, que hoje fascina, amanhã é rosa. A música preferida cai no esquecimento, e outra melodia invade a mente. Alguns amigos de ontem agora já não o são mais. Amores vão, amores vem, inverno, primavera. Ídolos evaporam, outros se firmam, invertemos a opinião. Trocamos os quadros nas paredes, trocamos de paredes, corremos na imensidão. Somos seres passageiros; em vida.

Tuesday, May 09, 2017

coragem

La longe vi o sol brilhar. As montanhas distantes se agigantaram. A luz das nuvens trouxe cheiros de ventos espalhados. Pássaros cantarolavam poemas de navegantes eufóricos. A grama alta dançava. Abelhas. Vi-lhes as asas douradas, e o sabor de mel encheu de favas meu coração. A esperança é uma melodia sussurrada de trás para frente. Deixei meus lábios sonharem. Fiz um ramo de flores imaginário e o entreguei à saudade. A vida me sorriu numa paz há muito esquecida. Felicidade é assunto da coragem: você se pertence.

Tuesday, May 02, 2017

estrelas na imensidão do céu

Amor, ódio, amizade, desprezo, admiração, intolerância, raiva. Nossas emoções são essencialmente ligadas a outros seres humanos. Quando sentimos, na regra, sentimos algo por alguém. Amor pelo filho, raiva do vizinho, desprezo pelo marginal, admiração pelo ídolo. Mas o que sentimos por alguém nos diz absolutamente nada sobre esse alguém; diz-nos apenas algo sobre nós mesmos. Quando temos raiva do amigo, essa raiva não pertence ao amigo, ela é nossa. Essa raiva não nos conta uma história sobre o amigo, mas uma história sobre nós. Assim, as emoções são o espelho da própria alma. Nossos sentimentos por outros são a revelação de quem somos. Tolerar o próximo é viver em paz consigo. Perdoar é compreender as próprias limitações. Estrelas na imensidão do céu; vasto é meu coração.

Monday, March 06, 2017

o amor e as lágrimas

Ouço a palavra amor, e a imagem que vem a mente é de um rosto coberto por lágrimas. Não sei relacionar o amor a um casal feliz correndo pela grama verdejante. O amor, na minha concepção, é tão absoluto que a felicidade não o alcança. É um pássaro no invisível. É o beijo prisioneiro dos próprios lábios. É a luz da caixa de som no quarto escuro. É o vento que se espreme pela fresta da janela. É o barulho da chuva no vidro. É a árvore que suporta a tempestade. É o senhor com dificuldade de se erguer do banco da praça. É a chamada perdida no telefone. O amor é a corrida contra todos, inclusive contra nós mesmos. É a grandeza do impossível. É a lembrança daquilo que não aconteceu. É o abismo da razão. Na solidão da alma, as lágrimas são verdadeiras, e o sorriso engana. Ouço o galope dum cavalo numa estrada de terra batida. Abro os olhos, está escuro: à noite, eu me pertenço.

Saturday, February 18, 2017

apenas ser e nada mais

Ser feliz, ser persistente, ser independente, ser diferente, ser amável, ser gentil, ser forte, ser tolerante. Há tantas regras, conselhos e ditados de como se deve ser, que esse “ter de ser” esgota a alma. Que tal apenas e simplesmente ser? Sem adjetivo: ser. E nada mais.

Saturday, February 11, 2017

quero me perder de novo

Hoje eu me perdi e não me reencontrei. Para ser sincero, não quis me reencontrar. Desejei somente vagar por meu mundo paralelo em que o dia a dia não sabe me importunar. Onde as flores nascem de cabeça para baixo e os pássaros se calam curiosos. Aqui a noite é eterna, desde que eu não vá dormir. Fecho os olhos e sinto que não sinto. Abro a geladeira e nada retiro. Releio alguns trechos de textos que me agradam e finjo que as palavras são minhas. Imagino o sol nascendo e o despertador quebrado. Imagino alguém entrando no meu quarto e encontrando a cama vazia. O sono se aproxima, eu reluto, mesmo sabendo que terei de acordar cedo. Penso em algo que me foge. Por fim, adormeço. Desperto de manhã no reencontro com o compromisso. Estou com muito sono, mas sem arrependimentos. À noite, quero me perder de novo. 

Thursday, February 02, 2017

o milagre e a eternidade

As vezes enxergo o milagre por um fugaz instante. De repente, reconheço a impossibilidade lógica de tudo que existe. Como assim, uma carta de amor? Como explicar que da poeira do universo evoluiu um sistema de vida que acabou por permitir a existência de uma carta de amor? Quando percebo a grandeza desse processo de criação, tudo de negativo perde o significado e só o que permanece é o milagre: singelo, delicado e absoluto. É um palácio de cristal brilhando na imensidão de uma planície azul. Tão improvável como o ato de eu estar escrevendo essas linhas. Tão fascinante como o fato de você estar se identificando com as minhas palavras. Pense nisso: da poeira do universo evoluiu essa comunicação que gera um instante de verdade entre nós. Nuvens que se transformam. Caminhos; eternidade.

Tuesday, January 24, 2017

o cercadinho verde-enferrujado

No limite da cidade havia um parquinho para as crianças. Era um cercadinho verde-enferrujado, que ocupava o centro de um terreno baldio de terra batida. Dentro do cercadinho, o escorrega, o balanço e o trepa-trepa. Um grupo de crianças se alternava nos brinquedos, enquanto os adultos responsáveis se ocupavam com smartphones. Tempo nublado. Uma das crianças andou às grades do cercadinho para observar uma poça de água que se formara durante a última chuva, no terreno baldio. A poça parecia tão mais divertida que o parquinho. Percebeu a porta do cercadinho destrancada e os adultos distraídos. Escapuliu. Tirou os sapatos e pisou no iniciozinho da poça. Sentiu a lama se espremer por entre os dedos dos pés. Riu alto. Curiosas, uma por uma as demais crianças fugiram do cercadinho e foram se lambuzar na poça d’água, sem que os adultos notassem. Brincaram por divertidos minutos até que retornaram despercebidos. Mais tarde, ao chegar em suas respectivas casas, os adultos notaram, com estranhamento, que os pés das crianças estavam sujos de lama. Não notaram, porém, que as crianças sorriam como nunca antes. Não perceberam o brilho da aventura nos olhos dos pequeninos. Deixaram de ver a magia, apenas a lama nos pés. Um dos adultos pensou que o parquinho deveria ser reformado com urgência, talvez precisasse de grama sintética. Outro decidiu comprar sapatos melhores, para manter os pés de seu filho limpos. Outro ainda pensou em perguntar ao filho como foi que sujara os pés, mas havia cinco novas notificações no smartphone, e esqueceu o assunto.

Sunday, December 11, 2016

o tempo e a idade

Então vem aquela sensação de que o mundo escapole pelas mãos. De que tudo acontece para todo mundo, menos para mim. Nas redes sociais, há sorrisos e viagens deslumbrantes para todos os lados. E eu, preso a minha tentativa frustrada de seguir adiante, batendo todos os dias à mesma porta trancada. Começo a apavorar-me de que o tempo possa ser mais rápido que o meu esforço. De que meus objetivos, quando conquistados, sejam incompatíveis com minha idade que avança. Algo como um adulto que recebe um brinquedo que desejou por toda infância, mas que não faz mas qualquer sentido, agora, na vida adulta.

Thursday, December 08, 2016

cores no cinza

Então, o que fazer? Qual será a solução para o turbilhão que se passa na sua cabeça? Correr? Parar? Correr e parar?  A vida permite uma pausa? Você tem certeza de que não. Você tem certeza, ou ao menos acredita ter certeza, de que continuar é a única possibilidade. De noite, na cama, você respira pausado, fica de olhos abertos no quarto escuro, e algo indefinido parece indicar uma solução. O tempo passa e os dias voam como as folhas de outono, sem que o inverno chegue e sem que o verão se afaste. A solução não se apresenta, tudo parece estagnado e está. A estagnação é parte da natureza humana. A mudança é exceção. O segredo, acredito, é encontrar novos horizontes dentro da estagnação; é olhar a rua com novos olhos; é ver cores no cinza.

Tuesday, November 29, 2016

solidão - a moça que chora na janela

Na penumbra da janela, uma moça chora. Desfocados, os olhos molhados buscam algum conforto na rua e só encontram espaços cinzentos. Ela está só, e a solidão causa uma crescente angústia vazia. Mas o que realmente incomoda a moça não é a solidão em si; o que entristece é que ela não consegue pensar em ninguém com quem ela gostaria de dividir aquele vazio. É como se toda alma do mundo vibrasse numa frequência diferente. Por mais doloroso que seja o vazio no peito, a moça o considera demais precioso para dividi-lo com qualquer um. E assim o vazio só aumenta. É um ciclo sem fim aparente: quanto mais o vazio cresce, mais precioso se torna. A boa notícia é que chegará o dia em que o vazio se tornará tão precioso que deixará de ser um vazio, para ser um forte abraço quente no corpo e na alma. E, nesse dia, flores vão brotar nos canteiros das esquinas. A solidão será uma lembrança terna, dum tempo em que a moça não compreendia a própria essência. E haverá espaços para novos mundos, novas conquistas e novos amores.

Friday, November 18, 2016

você sabe a verdade

Você sabe a verdade, mas chama o mundo de injusto. Você diz que a causa das suas angústias é um mistério que devora suas forças. As vezes você chora algumas lágrimas azedas. Quando a chuva escorre pelo vidro da janela tarde à noite, você se entrega ao vazio imenso que persegue a sua alma. Então, de repente, por um breve instante, você encontra a verdade. Ela é cristalina e absoluta, sem margem para qualquer dúvida: a verdade é um grande desafio. Você sabe que precisa escalar a montanha e você sabe que, depois de trilhar esse caminho, nada será como antes. Um calafrio corre todo seu corpo e você se assusta. A verdade quer lhe escapar, e você permite. Você apaga as luzes, deita-se na cama e dorme uma noite mal dormida. Na manhã seguinte, você finge que nada aconteceu. Você retorna para a sua rotina vazia e se convence de que há graça na monotonia. Mas, lá no fundo, você sabe a verdade e sempre soube: a montanha está a sua espera; o universo lhe reserva uma caminhada inesquecível.

Tuesday, November 01, 2016

cavalinhos imaginários

Você deseja ser considerado, mas ninguém se importa. O mundo gira rápido de mais para compreender seus pensamentos longos. Você se percebe só e sem amparo. Veja bem: o motivo da sua angústia é que a humanidade gira num imenso carrossel. Tenha determinação, solte do cavalinho e observe o carrossel de fora. Você verá pessoas rindo, outras chorando, todas completamente anestesiadas pelo girar da roda. Então você entenderá por que ninguém se importa; as pessoas estão apenas preocupadas em não cair dos cavalinhos imaginários.

Sunday, October 23, 2016

dois patos selvagens

Dois patos selvagens, macho e fêmea, pousam na mesma lagoa. É um final de tarde ensolarado na imensidão da Amazônia. A luz quente deixa as cores fortes e faz o verde intenso contrastar com o azul do céu. Imensidão. A pata olha o pato com encanto. Admira-lhe o peito empinado e sente um calor em torno do coração. O pato a ignora; pesca alguns peixinhos e parte voando, deixando-a sozinha na lagoa. A pata se entristece, sem saber ao certo o que é tristeza. Observa o horizonte e, pela primeira vez, percebe que há beleza na selva. O pato, a essa hora, voa longe, e continua sendo o mesmo pato selvagem do início desse relato; a pata deixou de ser selvagem. Assim são os sentimentos; quando amamos alguém, expandimos o ser, mesmo que o outro não nos ame de volta.

Tuesday, August 30, 2016

menina no topo da montanha

O cenário é uma menina sentada no topo de uma montanha, à noite. A imagem se assemelha aos desenhos de livros infantis. No céu preto azul escuro, a meia lua brilha amarela ao lado de cinco estrelas exageradas. Os olhos grandes da menina lutam para se encaixar no rosto ligeiramente desproporcional. Ela expressa tristeza. Não uma tristeza adulta certa qualificada, como a perda de um emprego. A tristeza da menina é maior que as certezas fatos. É um beliscar na alma que ninguém compreenderia. É um vento dentro da tempestade. É um segredo que a menina gostaria de contar ao mundo, mas não há como, pois sua tristeza não existe nas palavras.

Thursday, August 18, 2016

O que você sabe da noite?

O que você sabe da noite? Ela é escura, as vezes triste. Que ela abraça as lágrimas com carinho confidente. Que ela é honesta com a dor. Você percebe que, quando as luzes da casa se apagam, seu quarto finalmente é verdadeiro? Que o espelho reflete, não a pessoa que você quer mostrar pro mundo, mas a pessoa que o mundo não sabe encontrar? A cama macia, a escrivaninha bagunçada, um cheiro de eternidade, a mochila entreaberta e um abraço que só você mesmo sabe se dar.

Tuesday, August 09, 2016

arte x sociedade

concluo que o artista tem uma importância muito menor para a sociedade que ele imagina ter, e muito maior que a sociedade imagina que ele tenha.

Thursday, July 28, 2016

viver no agora

Por que há tanto desrespeito pelos idosos? Porque ninguém mais respeita o passado. Por que há tanta violência contra crianças? Porque se perdeu o encanto pelo futuro. O ser humano está preso num imediatismo doente, em que só o agora importa. A humanidade caiu numa armadilha. Fomos bombardeados com dizeres de filosofias orientais que pregam o viver no agora, sem entender que por trás dessas filosofias existem culturas e tradições milenares, incompatíveis com a nossa interpretação do agora. O nosso agora não é o mesmo agora do sábio da montanha. O nosso agora é somente um descompromisso leviano e nada a mais.

Tuesday, July 19, 2016

dor preciosa

calada, abraçou os joelhos e escondeu o rosto entre as pernas. que dor era aquela que lhe roubava o apetite e oprimia a respiração? sentia-se fraca incapaz; o estudo era uma missão impossível. lá longe, sabia, as amigas conversavam animadas. talvez estivessem no cinema? sentia-se tão distante de tudo, como se estivesse num outro universo, num lugar em que as cores se pintam de dentro pra fora. tudo era descolorido e, ao mesmo tempo, intenso. chorou lágrimas que não molhavam. talvez estivesse doente e apenas precisava dum médico. existiria um remédio contra o que sentia? difícil, concluiu. o único remédio contra a paixão é esquecer a pessoa que se ama. e isso ela se recusaria a fazer. por mais dolorosa que fosse a paixão, era a coisa mais preciosa que possuía.

Monday, July 04, 2016

recomeço

O vento arenoso arranhava a espinha. Maresia trazia o sabor da liberdade. A gravata já não sufocava esquecida ninguém sabe onde. O terno cinza, a camiseta branca, meias e sapatos, até mesmo a cueca, jaziam nas areias de Copacabana. Alguns curiosos estranhavam de longe o jovem empresário despido; associaram a nudez a algum distúrbio mental, loucos é que não faltavam no bairro. Uma senhora, indignada, pediu ao policial que tomasse providências, mas esse espiou o ponteiro do relógio indicando o fim do plantão e desconversou. O importado conversível, largado pelo empresário na beira da calçada, deslumbrava o segurança do pedaço: era o resumo de milhares de sonhos. Uma criança desentendida apontou para homem nu à beira-mar, a mãe fez-se de boba e partiu. A criança sentia e não entendia, enquanto a mãe entendia sem querer sentir.

            O jovem empresário estava livre disso tudo, desse mundo estranho. Há poucos minutos era a maior fortuna da cidade, mas, agora, decidido, não tinha mais pertences e por isso mesmo percebeu-se rico como nunca antes. Queria virar golfinho, queria não, o seria. Saturado duma vida ausente de sentidos, jogar-se-ia nas águas de Copacabana para ser golfinho. Loucura? Não. Louco é o prisioneiro de si mesmo. E foi ser feliz, e foi ser golfinho.

amor adolescente

Existe história mais linda de que um amor adolescente? Aquele frio na barriga na espera pelo toque do telefone; a magia de uma simples conversa no pátio escolar; a expectativa do primeiro beijo; o impulso de se trancar no quarto e ouvir aquela música que não sai da cabeça. O amor adulto constrói um futuro a dois; já o amor adolescente é infinito, é eterno, é imenso, é atemporal... enfim, é a magia da existência.

Thursday, June 30, 2016

você equivocado, eu robô

talvez, um dia desses, compreenderei o que você está afirmando. enquanto isso, continuarei repetindo, maquinalmente, que você está equivocado.

Monday, June 06, 2016

Tunga

Tunga é um daqueles artistas que só será compreendido daqui para frente. impossível decifrá-lo enquanto vivo. a complexidade do conjunto da obra que produziu está hoje além das nossas palavras. analisar uma obra de Tunga é um exercício de constrangimento; é se dar conta de que existem objetos que enxergam a nossa imaturidade.

Sunday, June 05, 2016

Meu querido irmão

Meu querido irmão era diferente. Comia com os dedos, cantava em idioma desconhecido, brincava com besouros, tomava banho de confetes, falava com as fadas, vestia a roupa ao contrário e fazia chá de grama. Meu querido irmão era um encanto de pessoa. Sempre sorridente, consolava a tristeza.

Certo dia uma junta médica decidiu por sua internação. Encheram-no de remédios, disseram que era para combater a doença. Meu querido irmão passou a comer de talheres e parou de cantar. Deixou os besouros de lado, esqueceu-se dos confetes e das fadas. Passou a vestir-se como a gente, que gente é essa, e nunca mais bebeu do chá de grama. Perdeu o sorriso; do consolo fez-se o silêncio.

Não demorou muito e meu querido irmão morreu. Disseram que foi da doença, mas eu sei, que os doentes somos nós.

Friday, June 03, 2016

amor adolescente

O amor costuma ser assunto adulto. Na contramão, eu penso: existe história mais linda de que um amor adolescente? Aquele frio na barriga na espera pelo toque do telefone; a magia de uma simples conversa no pátio escolar; a expectativa do primeiro beijo; se trancar no quarto e ouvir aquela música que não sai da cabeça. O amor adulto constrói um futuro a dois; o amor adolescente é a colorida essência do tudo: é imenso, infinito e atemporal.

Wednesday, June 01, 2016

a menina e o sapo

A menina solitária encontrou um livro colorido na rua. Era a história a Princesa e o Sapo. Depois de ler o livro, sonhou em encontrar um sapo para beijá-lo. Não que quisesse um príncipe, queria alguém especial. Alguém para dividir a vida. Não tinha amigos. A menina queria beijar um sapo, para que ele se transformasse num amigo. Alguém para fazer bolinhos de terra; alguém para rir e para abraçar. Onde a menina morava, não havia lagos nem riachos. Somente bueiros e valas. Durante algumas horas, procurou inutilmente por um sapo, desistiu. Já de noite na cama, abraçou o travesseiro e perguntou ao papai do céu porque era preciso beijar um sapo para conhecer alguém especial.

Saturday, May 28, 2016

Idade dos Anjos

Uma vez, quando muito jovem, quis me apaixonar. Foi numa tarde de primavera na colônia de férias. Os demais garotos participavam animados de uma partida de futebol, quando, na beira do campo, vi uma borboleta azul e quis me apaixonar. Fui a procura das meninas que brincavam de fazer louças de barro e não achei quem merecesse minha paixão. Desiludido, caminhei até um riacho próximo, para refletir sobre a vida. Foi quando encontrei uma linda princesa, sentada à beira d’água, chorando. Perguntei pela razão das lágrimas, e ela não soube explicar. Disse apenas que estava muito triste. Então, levantou-se e saiu correndo. No dia seguinte, retornei para casa e nunca mais ouvi falar da menina da beira do rio. Mas me apaixonei. E durante quatro anos pensei nela todas as noites antes de dormir. Hoje ainda lembro dela, consciente de tamanha ilusão. Queria vê-la novamente, na idade dos anjos.

Wednesday, May 25, 2016

Arte e o Governo

aos poucos, a Arte está retomando o lugar que lhe é destinado: o de questionar o sistema. a lua de mel entre Arte e Governo havia-se tornado tediosa. remetia aos tempos medievais, em que os artistas eram marionetes da Igreja e dos poderosos senhores.

a grandeza da Arte está em tirar a sociedade da inércia. a Arte deve sugerir incoerências onde o senso comum enxerga a perfeição. no Brasil dos últimos anos, a classe artística havia, paradoxalmente, escolhido o caminho oposto: apontava perfeição onde o senso comum percebia erros. ao invés de propor o movimento, a Arte estava propondo a estagnação.


assim, a gritaria de “é golpe” me agrada. mostra que os artistas estão retornando ao lugar que nunca deveriam ter deixado, à margem do sistema. espero que a atual angústia dos artistas se reflita em obras intrigantes, que possam nos levar a enxergar o mudo além das nossas convicções.

Sunday, May 15, 2016

a polêmica em torno da extinção do MinC

em meio ao alvoroço em torno da extinção do MinC, surge a importante pergunta sobre qual foi o rumo da cultura, no Brasil, na última década. afinal, o MinC foi tão perfeito assim? vejo dois extremos na dinâmica cultural brasileira: de um lado, os projetos e os eventos executados a partir de leis de incentivo fiscal; do outro, a decadência do patrimônio cultural, como o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista e a Escola de Artes do Parque Lage. mesmo pertencendo o Parque Lage à administração estadual, não seria mais importante destinar verba pública federal à manutenção do espaço, ao invés de direcioná-la, através de leis de incentivo fiscal, a shows de cantores consagrados?

não existe, no Brasil, um projeto cultural; a manutenção do patrimônio histórico é esporádica. em todo Brasil, há construções coloniais caindo aos pedaços, e uma igreja precisa de sorte e de muitos pedidos de “por favor” para ser reformada. não se percebe uma agenda cultural. o MinC se tornou um grande carimbador de projetos de captação.

há cerca de dois anos, uma renomeada artista brasileira teve grande exposição cancelada no MAM. o motivo: embora ela constasse na agenda oficial das exposições, ela não conseguiu captar um patrocinador para a exposição. que política cultural é essa em que o espaço público obriga o artista a conseguir o patrocinador que, por sua vez, patrocinará a exposição com verba pública? não seria mais interessante o Governo recolher os impostos e direcioná-los ao Museu, para que o Museu tivesse total independência para montar exposições?

no Brasil, o repasse de verbas para importantes espaços culturais é abaixo do necessário. os museus federais, na maioria, sequer têm verba para a manutenção do prédio e do acervo permanente. assim, curadores, artistas e produtores culturais se estapeiam pelas verbas do incentivo fiscal, para a realização de exposições e de eventos. a disputa é grande, e quem vive das artes tem uma difícil rotina financeira. quando defendem o MinC, não o defendem por admiração. o defendem, pois temem que, sem o MinC, o cenário já difícil possa se tornar insustentável.

a discussão apropriada, no momento, não seria em torno da manutenção do MinC, mas em torno da reavaliação de toda a política cultural brasileira. é inconcebível que a Escola de Artes do Parque Lage e o Museu Nacional sofram com falta de verba, enquanto medalhões da música brasileira recebem verba pública para realização de shows. é imoral que igrejas coloniais caiam aos pedaços, enquanto livros e mais livros de importância cultural questionável são financiados através de leis de incentivo fiscal. por falar em livros, a Biblioteca Nacional é outra que vive a rotina da falta de verba. de que adianta um país fomentar novos livros, se esse mesmo país não disponibiliza verba para preservá-los na história? a gestão da cultura brasileira é um grande contrassenso.

Wednesday, May 11, 2016

o peixe e a flor

escrever sem saber onde chegar. uma trilha de lugar algum para o qualquerquês. palavras novas, pensamentos antigos. luz que ilumina os tornozelos e deixa os pés nas sombras. o que é uma ideia? o que são cinco peixinhos presos numa piscina natural? o fotógrafo quer registrá-los, o pescador pescá-los. a criança primeiro se encanta, depois, torce pelo pescador. perdem-se os peixes, fica o fundo de areia amarelada com cinco conchas vazias. alguém avisa que os peixes não são comestíveis, o pescador responde que isso não importa, o que importa é que pescou os peixes. que tal soltá-los, então? nem pensar, vou levá-los prá turma do bar, sempre dizem que eu não sei pescar. no canteiro brota uma florzinha desajeitada. torço para que nenhum rapaz enamorado a encontre, pelo menos, por enquanto. desejo que antes possa perfumar o mundo.

Tuesday, April 26, 2016

Quadrilha*

Dilma amava Cunha que amava Jean Wyllys que amava Bolsonaro que amava Maria do Rosário que não amava ninguém. Dilma foi para Cuba, Cunha para o convento, Jean Wyllys morreu de vergonha, Bolsonaro ficou para tio sukita, Maria do Rosário suicidou-se politicamente, e Temer, que não tinha entrado na história, virou presidente do Brasil.


(*seguindo poema de Carlos Drummond de Andrade)

Wednesday, March 30, 2016

o tempo é atemporal

o tempo é atemporal. essa aparente contradição é a razão da inverdade que impregna as relações humanas.

Tuesday, March 29, 2016

chego a conclusão que é fácil querer ser eterno; difícil é querer ser passageiro...

Thursday, January 07, 2016

mova o seu mundo

ainda há quem mova o mundo para devolver uma carteira perdida. há carros que dão a preferência aos pedestres. as vezes a lua brilha de dia. há mendigos que são apenas mendigos e ricos que são somente ricos. há quem faça um elogio sincero e há quem segure a crítica. existem praias despoluídas. há flores nas calçadas. há casais de idosos que andam de mãos dadas, e pessoas que dedicam a vida a ajudar animais desamparados. no youtube, ouço uma música que emociona; qual a música? tanto faz. encontre a sua. mova o seu mundo.

Wednesday, December 30, 2015

fotografia e o Museu do Amanhã

sempre que surge uma nova atração numa cidade turística, estabelece-se um tipo de estudo coletivo que definirá qual será o ângulo fotográfico padrão daquela atração. esse ângulo, então, será exaustivamente repetido em guias e em livros sobre a cidade, sites de turismo e em cartões postais. antigamente, tal processo era lento, mas, agora, que tudo é instantâneo, promete-se um resultado a curto prazo.

um exemplo de ângulo padrão é o Pão de Açúcar visto a partir do Mirante Dona Marta. agora, acompanho, com curiosidade, as milhares de fotos que são postadas por profissionais e amadores apaixonados do Museu do Amanhã. qual será o ângulo padrão do museu?


Sunday, December 20, 2015

aborto

o que é contraditório na proibição do aborto é que as mulheres ricas vão fazê-lo em países onde o aborto é legalizado, enquanto as pobres morrem na mão de um açougue. e mais contraditório ainda é que a mulher rica, muitas vezes, faz o aborto por simples opção, enquanto a pobre é obrigada, devido à precária situação financeira.

Sunday, December 06, 2015

a menina que roubava livros

estive pensando no romance “A menina que roubava livros”. com tanta corrupção, a história de uma menina que rouba livros faz pensar. algum brasileiro consideraria a menina uma ladra? dificilmente. mas ela roubava, roubava livros.

roubar um livro é um movimento oposto à tudo que se vive no Brasil: no Brasil, o conhecimento não tem valor. um livro representa o conhecimento, e roubar algo sem valor carrega um ar de romântica inocência.

escolas sucateadas, pesquisas sem verba, universidades desmoronando e professores com salários humilhantes são alguns dos indicadores de como o Brasil trata o conhecimento. na verdade não o trata, mas o destrata de todas as maneiras possíveis e imagináveis.

o que isso tem a ver com o impeachment da Dilma? nada. também não tem a ver com a figura de Cunha, com o lamaçal da Samarco ou com a operação Lava Jato. uma menina que rouba um livro cai num terreno indefinido, longe da fúria que nos divide, nem preto nem branco, nem Deus nem o diabo. é impossível condená-la, e não se pode absolvê-la. é dessa neutralidade que transluz o imensurável valor do conhecimento: ele é de todos, por isso, não pode ser roubado.

o conhecimento é o elemento objetivo que mais se aproxima do amor. assim como o amor, o conhecimento dobra quando dividido. assim como o amor, o conhecimento traz bem-estar por onde passa. assim como o amor, o conhecimento (e agora parafraseio Gandhi) cura, nutre, une, entusiasma, faz nascer, alivia, materializa, motiva... possibilita a vida.

Friday, December 04, 2015

precisamos, finalmente, ser realistas

ontem, oito viciados em crack brigavam frente à portaria de meu prédio. liguei para a Guarda Municipal, disseram que eu precisava registrar uma ocorrência pelo 1746, desisti. começou a chover, eles se foram, provavelmente, para incomodar outra pessoa num local mais protegido. os viciados em crack me incomodam, pois não vejo qualquer possibilidade de solução. estão condenados.

lembro dos tempos em que o crack era proibido pelos traficantes cariocas. dizia-se que protegiam os viciados duma droga absurdamente destruidora. foi um tempo em que os traficantes, donos dos morros, carregavam o título de protetor. a sociedade do asfalto via-lhes um benefício, pois, supostamente, impediam assaltos nas redondezas. já nas comunidades, o benefício era a manutenção da ordem, através de punições a estupradores e a ladrões de galinha.

a lua de mel entre a sociedade e os traficantes terminou com o filme Tropa de Elite. evidente que não foi o filme o responsável pela mudança do paradigma, mas tratou-se de um catalizador, para que se enxergasse um problema óbvio. o filme expôs a realidade dos morros dominados pelo tráfico: a relação corrupta com parte da polícia e com algumas ONG’s, a exposição dos moradores a humilhações e a tiroteios, o aliciamento de menores e a guerra sangrenta entre diversas facções.

oito anos se passaram desde o lançamento de Tropa de Elite, e muita coisa mudou nos morros cariocas. criou-se as UPP’s, que afugentaram os traficantes e, durante alguns anos, reduziram a criminalidade nos morros e nas adjacências. a figura do menino de oito anos ostentando um fuzil foi banida para os subúrbios distantes. muita coisa mudou, mas tudo está igual.

em 2007, viciados em crack também ocupavam a calçada da minha rua. sumiram com a chegada das UPP’s, mas reapareceram. os tiroteios ocasionais também retornaram, antes entre traficantes, agora, entre policias das UPP'S e traficantes que voltaram ou tentam voltar. o comércio das drogas retornou de forma oculta. os moradores, que antes se queixavam de abusos por parte dos traficantes, hoje, queixam-se de violência praticada por alguns policiais. a presença do estado continua frágil nas comunidades carentes; embora houvesse alguns avanços iniciais, a sonhada integração entre asfalto e morro jamais ocorreu.

2007, ano do lançamento do filme Tropa de Elite, foi um ano de promessas otimistas. o Brasil foi selecionado para sediar a Copa do Mundo. o Rio de Janeiro oficializou a candidatura para sediar as Olimpíadas. os índices econômicos decolavam, a taxa de juros recuava a patamares recordes, o valor dos imóveis se aproximou ao dos países do primeiro mundo, o crédito era farto, o bolsa família operava milagres, a Petrobrás se transformava em símbolo da competência nacional e o PAC prometia um futuro dourado – dourado como o Urso de Ouro conquistado pelo próprio filme Tropa de Elite em Berlim.

hoje, quando olho para trás, percebo que nada piorou nos últimos anos, pois nada havia melhorado. somente havíamos aplicado uma maquiagem na maneira como enxergamos o Brasil, e a maquiagem derreteu. a Copa do Mundo foi uma grande ilusão, os índices econômicos refletiam apenas o otimismo da época, o alto valor dos imóveis era especulativo, o PAC uma promessa, o bolsa família um tapa-buraco, a Petrobrás um devaneio e o cinema brasileiro não conquistou o mundo. ninguém mais espera absolutamente nada das Olimpíadas, pelo contrário, o evento é visto como um compromisso incômodo que precisará ser cumprido. em 2007, víamos um futuro azul, agora acreditamos num futuro barrento como o lamaçal da Barragem de Mariana.

éramos otimistas, agora somos pessimistas;

precisamos, finalmente, ser realistas.

Tuesday, November 24, 2015

noite de lua cheia

de repente sobressalta-me a vontade de escrever algo positivo. é tanta queixa de todos os lados que temo pela existência do universo. hoje é véspera de lua cheia. dá pra acreditar que há uma lua girando sobre o mundo? certa vez, no Pantanal, eu dirigia sozinho por estradas de terra, por campos e por areais, quando me perdi. tentei, a todo custo, encontrar o caminho de volta para a fazenda que me hospedava, mas apenas me perdia mais e mais. então encontrei um lago escondidinho, envolto pela mata densa, tomado por todas as aves possíveis e imagináveis, de todas as cores e de diversos tamanhos. observei aquele berço de absoluta beleza por alguns segundos e parti, com receio de que minha simples presença pudesse violá-lo. há uma senhora abandonada num asilo qualquer e para ela o milagre do universo se resumiria em ter companhia na hora da novela. no calçadão de Copacabana, a garota de programa encerra o expediente e joga conversa fora com o garçom do quiosque. ele lhe serve uma água de coco por conta da casa, ela sorri e retoma a fé na humanidade. trago um poema de Carlos Drummond de Andrade desde sempre no meu peito, como se fosse do próprio ar que respiro. confesso que nunca lhe desvendei o significado. a beleza tem dessas coisas; ao contrário das tragédias que nos atropelam com a insignificante transitoriedade de tudo que julgamos importante, a verdadeira beleza não traz qualquer impacto prático no cotidiano. é apenas um moleque descalço de sorriso branco. certa vez, também no Pantanal, eu encontrei a onça-pintada na beira do rio. a moça humilde está feliz, pois foi bem tratada no posto de saúde. duas meninas dividem um bombom e batem par ou impar para ver quem fica com a parte maior. e amanhã é noite de lua cheia. 

Wednesday, November 11, 2015

no bar da esquina, pede-se outra rodada de chope

20hs. do outro lado da rua, um hotel. na altura dos meus olhos, oitavo andar, um quarto se acende, e adentra um homem de terno azul escuro. ele deita o paletó com zelo sobre a primeira das duas camas gigantes. perde-se por alguns segundos num detalhe qualquer do quarto, caminha à janela. cerra os olhos, respira, afrouxa a gravata. está exausto. retorna de um longo dia de reuniões que, de repente, perdem sentido. os olhos buscam a rua e encontram a vida do bar da esquina. o pensamento ameaça voltar a assuntos de trabalho, o homem se recusa, desabotoa a camisa e massageia a própria nuca. ele fecha a persiana, mas eu sei o que ele faz longe de meu olhar. ele retorna para o meio do quarto, liga a televisão, senta-se sobre a cama próxima à janela, tira os sapatos, escorrega o corpo até a cabeceira, ajeita uma almofada, encosta-se na parede, agarra o controle remoto e pula de canal em canal até se perder no absoluto nada.


eu sinto inveja daquele homem. queria estar nesse vazio que segue a exaustão, cansado ao ponto de que nada mais tem relevância. meu cansaço não sabe me esgotar por completo. no bar da esquina, pede-se outra rodada de chope.

Wednesday, November 04, 2015

imensa pátria dos desenganados

eu gostaria de criar alguns países novos.

num deles, colocaria o Lula como presidente e Genuínios, Dirceus e Delúbios como ministros. nesse país, poderiam morar todos aqueles que ainda confiam nos caciques do PT e acham que tudo é mentira da oposição. seria uma país do estado total, com nenhuma empresa privada. haveria bolsas de tudo para todos, intercâmbios culturais com Cuba e um bloco econômico formado com os vizinhos Venezuela e Bolívia. o dinheiro sem fim viria não se sabe donde. investigar políticos por corrupção seria proibido.

no outro país, Cunha seria presidente e a bancada BBB (bala, boi, bíblia) lhe auxiliaria. seria um país para todos aqueles que são contra a liberdade excessiva das mulheres e os direitos civis dos homossexuais. nas escolas, o ensinamento seguiria o conhecimento da bíblia. o porte de armas seria liberado, e qualquer desavença se resolveria pessoalmente. não haveria florestas, toda terra seria destinada à agropecuária, e os transgênicos reinariam absolutos. políticos teriam direito a gratificações sobre a rentabilidade de estatais, depositadas em contas na Suíça.

no terceiro país, Jean Wyllys seria o presidente e Gregório Duvivier o pai da constituição. seria o país da liberdade dos oprimidos. policiais ficariam presos e os ladrões policiariam as ruas, para compensar o fato de que são vítimas duma sociedade hierárquica desigual com pressupostos humanitários invertidos pela ganância do capital inescrupuloso. a maioridade penal passaria dos 18 para os 81 anos. a profissão de babá seria extinta por decreto.

no quarto país, voltaríamos à ditadura. seria a pátria alegre daqueles que tanto pedem o retorno dos militares. pronto, uma ditadura só para chamar de sua. bandido bom seria bandido morto, e, talvez, o desenho do Bob Esponja fosse banido da televisão, pois o personagem do Lula Molusco poderia ser um risco à soberania nacional. nas escolas, nada de alunos desobedientes, solitária neles. baderna, nunca mais. o termo maioridade penal inexistira. um recém-nascido poderia ser responsabilizado por seus atos.

é claro, não me esqueci, haveria ainda o país governado por Aécio. seria o paraíso das empresas privadas, tudo padrão Fifa, a prova viva de que empresas privadas são de transparência exemplar. bicicletas seriam banidas das ruas, e os carros recuperariam os espaços que as ciclovias usurparam. um pool de cervejarias administraria escolas, universidades e empresas de jornalismo. ao contrário do país governado por Lula, investigar políticos seria sim permitido, desde que da oposição, é claro.


por fim, haveria um último país para todos aqueles que não se enquadrassem nos outros. seria o país das sobras. um país em que ninguém acreditasse que esse ou aquele discurso radical faz a mínima diferença. um país em que as pessoas se dessem conta de que a educação, a honestidade e o respeito ao próximo são os únicos pilares necessários a uma grande nação. acredito que esse último país já exista há muito tempo: é a nossa imensa pátria dos desenganados.

Saturday, October 31, 2015

a solidão é o verdadeiro espelho

pensei na importância de se passar um tempo sozinho. a física provou que todo observador interfere no objeto observado. assim, quando em grupo, sofremos a projeção das outras pessoas e deixamos de ser apenas nós mesmos. é um fenômeno do qual é impossível fugir, pois trata-se duma lei da física. somente quando sozinhos é que percebemos quem nós realmente somos. a solidão é o verdadeiro espelho.

Wednesday, October 14, 2015

Deus reside na ausência de Deus

tive pensando na natureza do milagre e percebi que o divino traz essa contradição; quanto mais nos afastamos do divino, mais nos aproximamos do milagre; a natureza do milagre reside no impossível. água no deserto é milagre, água na floresta não. o milagre exige, portanto, a existência da imperfeição, da tormenta, do sofrimento. o aleijado só volta a andar por ser aleijado. o doente precisa do milagre, o saudável não. é justamente aqui que resida a contradição; o milagre é a mais forte manifestação do divino, o que significada dizer que o divino se manifesta, com força absoluta, somente na falta do divino. com outras palavras, a grandeza de Deus reside na ausência de Deus. é um pensamento assustador e encorajador ao mesmo tempo; pois quanto mais o pensamento assusta, mais ele aproxima de Deus.

Thursday, October 08, 2015

um perigo chamado Uber

fazia tempo que eu não bebia leite. estava com sede. alcancei um pacote na geladeira e tomei um copo. havia-me esquecido de como nosso leite é ruim. quantos não foram os escândalos, nos últimos anos, de leite adulterado? meu celular tocou. atendi a ligação, que imediatamente caiu. o meu celular está fora da área de cobertura, nenhum sinal, nada. não deveria, estou na cozinha, no mesmo lugar em que já telefonei tantas vezes antes.

penso no meu carro, que custa o triplo dos carros de tantos outros países e tem a metade da qualidade. lembro que tenho um compromisso. desço para a rua e pego um táxi. dou azar; é um daqueles em que tudo está errado. penso no serviço Uber, que, aos poucos, está sendo proibido em todo Brasil. tivemos um serviço de qualidade durante alguns meses e agora teremos que abrir mão da qualidade, para voltar aos velhos problemas de sempre.

e, de repente, dou-me conta de que o problema não é o Uber. nunca foi. a questão central é a qualidade. as instituições brasileiras repudiam a qualidade. se o Uber fosse um serviço made in China, com todos os problemas possíveis e imagináveis, seria autorizado. afinal, por um acaso o governo se importa com a concorrência desleal que o mercado brasileiro sofre quando é inundado com falsificações? em toda esquina vendem-se produtos chineses. garanto que tiram mais empregos que supostamente o Uber tiraria dos taxistas.

as filas nas agências bancárias são intermináveis, nos correios nem se fala. nos ônibus é aquele desespero que todos nós conhecemos bem. as companhias áreas são um caos, e os aeroportos lembram rodoviárias do interior. as estradas são fábricas de acidentes. os hospitais são desumanos. o futebol virou chacota mundial. a segurança pública é um projeto sem projeto, resume-se a estatísticas de criminalidade.

então, imaginem o problema que é um serviço como o Uber para o Brasil. de repente, existe algo que funciona, algo impecável, moderno e respeitoso. um serviço assim faz o cidadão acostumar-se à qualidade, faz o sujeito pensar, torna-o exigente. comparações da ordem – se o Uber funciona, por que as operadoras de celular não funcionam? – serão inevitáveis. é uma bomba relógio esse Uber. hoje o cidadão quer um táxi perfeito, amanhã ele quer um hospital perfeito, finalmente ele exigirá políticos perfeitos... não, isso não, tudo menos isso, que perigo! melhor cortar o mal pela raiz. melhor proibir o Uber de uma vez por todas.

Tuesday, October 06, 2015

chuva em Copacabana

a chuva é um paradoxo, é ruído que traz silêncio. o sossego da chuva me fascina. ela rompe e a cidade respira, buzinas se calam, obras paralisam, o burburinho se abriga no boteco. aqui em Copacabana a chuva é única capaz de impor silêncio. sem autoritarismo; é o abraço da mãe que serena a histeria do bebê.

Friday, October 02, 2015

o PM e Harry Potter

Minha primeira reação ao ler sobre o policial militar e dublador de Harry Potter, morto quando patrulhava uma comunidade, foi: que raios o dublador de Harry Potter estava fazendo de PM num tiroteio com bandidos. Por que ele era policial? Por que ele não se dedicava à profissão de dublador integralmente? Que louco, pensei.

Então, aos poucos, dei-me conta de como os policiais militares são desumanizados. A sociedade esquece que, por trás de cada PM, existe uma alma que sonha e deseja, que faz planos, que se aventura por outros territórios, que gosta de cantar, cozinhar, jogar futebol e de pescar, que leva os filhos ao cinema, que se irrita com os rumos políticos do país e que tem paixão por bichos de estimação. Alguns são vegetarianos, outros militantes dos direitos da mulher, outros ainda praticam yoga e meditação. Há os chatos que discutem todo assunto com exagerada veemência e há os que aprenderam a valorizar o silêncio. Muitos têm problema de colesterol, muitos outros se gabam de excelente saúde. E aqueles que fazem regime e querem convencer os outros a emagrecer também? E quantos já sonharam em ser ator e receber um Oscar? O soldado Caio Cesar Ignácio Cardoso de Melo, dublador de Harry Potter, deve tê-lo sonhado, enquanto assistia no cinema, cercado de familiares, à estreia do famoso bruxinho. Fechou os olhos por um instante e se viu na famosa premiação, recebendo o Oscar fictício de melhor dublador. Imaginem qual foi sua emoção; imaginem o orgulho dos parentes. Qualquer um de nós teria se emocionado, de maneira igual, numa estreia tão importante.

Esse texto não fala da violência que os policias sofrem no dia a dia. Esse texto fala da violência que eles sofrem por ninguém lhes enxergar a alma humana. A opinião pública os isolou numa categoria de estatística, em que um certo número de uma sigla impessoal (PM) morre anualmente em confronto. É preciso entender que, por trás da sigla PM, existe um ser humano. E, quando morre um ser humano, morre um sonho e morre uma esperança.

Espero que, um dia, possamos olhar para nossos policias militares e entender que são somente pessoas perseguindo objetivos, assim como todos nós; que ser policial seja uma escolha como tantas outras, entre médicos, advogados, professores, garis e jornalistas; que possamos entender, sem estranhamento, que o dublador de Harry Potter tenha escolhido ser um PM.

Alguns vão dizer que meu texto faz uma abordagem poética dos policiais. Eu respondo que o soldado Caio Cesar Ignácio Cardoso de Melo me mostrou que há poesia na polícia. Que somos todos apenas seres humanos, inseridos nos mais variados contextos, que convergem para uma só realidade, essa insana loucura social chamada Brasil. (fotos: internet)

Tuesday, September 22, 2015

como pôr fim aos arrastões no Rio de Janeiro

em alguns países, como na Nova Zelândia, a participação de civis no combate ao crime é comum. são as “Community Patrols” – patrulhas comunitárias. ao contrário de justiceiros desvairados, elas atuam com o objetivo de auxiliar a polícia no combate ao crime. há diversas maneiras da sociedade civil agir contra os arrastões sem partir para a ignorância: fazer filmagens que identifiquem os infratores e convencer as vítimas a registrar ocorrência; estabelecer um canal direto de comunicação com a PM; observar os ônibus e chamar a PM em casos suspeitos. no pior dos cenários, caso seja preciso intervir fisicamente e um delinquente seja pego, a solução seria somente imobilizá-lo até a chegada da polícia.
além disso, é preciso investir pesado em cultura e em lazer nas áreas de origem dos jovens que cometem os arrastões. o que leva um jovem a cruzar a cidade de ônibus, numa longa viagem, para tocar o terror na Zona Sul? na minha opinião é, entre outros, a total falta do que fazer. praticamente todo domingo, há grandes eventos em Copacabana, que atraem, além dos frequentadores habituais, ainda mais pessoas à orla. por que não fazer esses eventos na Zona Norte? por que não promover shows musicais gratuitos no Engenhão nos finas de semana? Estado e Prefeitura deveriam investir em quadras esportivas nas regiões carentes, com espaços para churrasqueiras e com direito a chuveirões para espantar o calor.
há soluções pacificas possíveis para pôr fim à onda de arrastões, mas é preciso se mobilizar. sinto que muita coisa básica foi deixada de lado para que se realizasse primeiro a Copa do Mundo e depois o Projeto Olímpico. agora, é preciso recuperar o tempo perdido, com urgência.

Thursday, September 17, 2015

a arte e o artista

até pouco tempo, o artista era o meio para se criar uma obra de arte. hoje, cada vez mais, é a obra de arte que serve de meio para se criar um artista

Sunday, August 23, 2015

o medo e a pressa

corre quem tem medo, e corre quem tem pressa. seria a pressa o medo camuflado? ou seria o medo apenas uma simples pressa.

Thursday, August 20, 2015

Big Bang e o grande mistério

penso que o grande mistério do Big Bang é relativo àquilo que o antecedeu. qual foi o movimento que desencadeou a trajetória das partículas que iniciaram o Big Bang? quais eram as leis da física que regiam essas partículas? a atual experiência do acelerador de partículas feita pelo Cern parte, inevitavelmente, da condição de universo regido pelas regras pós Big Bang. por mais que se tente neutralizar o ambiente do experimento, nós, a humanidade, que fazemos o experimento, carregamos as leis pós Big Bang em cada átomo do corpo.

Tuesday, August 18, 2015

árvore na sombra

Na sombra dum morro havia um coqueiro que não crescia. Certo dia o coqueiro, ressentido, perguntou à mãe terra o motivo de não crescer. A mãe terra respondeu “o destino da árvore é prover o mundo de sombra, assim, uma árvore na sombra não faz qualquer sentido.” 

Monday, August 10, 2015

tropeço

lendo outro post que ridiculariza erros de português no facebook,
concluo:

só tropeça quem anda

só tropessa quem escreve

Monday, July 27, 2015

certezas

hoje, o que mais me desalenta são pessoas com certeza absoluta. certeza do PT, do PSDB, do Uber, dos táxis, da religião, da não religião, do regime, do vegetarianismo, da carne, das drogas, das proibições, dos menores, dos maiores, da política econômica, do consumo, do aquecimento global, do desmatamento, da poluição, da gravidade, da inimportância, das bicicletas, dos carros, da distância e do horizonte. há pessoas com certezas que ultrapassam a possibilidade da verdade, pois mesmo a verdade tem limites. o vento espalha sementes e chamas. a água nutre e afoga, afaga e congela. a noite é luz da coruja. crianças são crianças, algumas são adultos, adultos são crianças. e as certezas a quem pertencem, aos adultos ou às crianças?

Thursday, July 23, 2015

seu segredo

há algo que você nunca contou para ninguém. um segredo que você aperta, que você abraça, que você segura em cada suspiro, em cada palavra, gesto e mesmo em cada pensamento. um segredo tão secreto que você mesmo só o conhece pela metade. preste atenção, este segredo é quem você é. deixe-o ir pelo mundo e vá junto. descubra-se.

Thursday, July 09, 2015

maioridade penal: quem se beneficia?

o que as pessoas não conseguem entender, que, ao berrarem contra a redução da maioridade penal, de fato, levam milhares de adolescentes ao crime. é fato comprovado que organizações criminosas se aproveitam da imputabilidade dos jovens para atribuí-lhes funções bem renumeradas, em que há grande risco de prisão. então, antes de assumir posição contrária, a pessoa deveria refletir se está realmente defendendo a juventude ou se está apenas agarrada a uma ideologia de aparência nobre, mas de consequências graves para aqueles que o ideal supostamente favorece. a pergunta é: a luta é pelos jovens ou pela defesa de um ponto de vista, de uma verdade própria baseada num sistema de crenças?

Tuesday, July 07, 2015

ter coragem

tive pensando: os verdadeiros valentes não são os corajosos, mas os medrosos. é fácil superar obstáculos com coragem, difícil é fazê-lo com medo. assim, concluo, que o verdadeiro corajoso, por essência, precisa ser medroso, pois viver com medo requer um coragem que o corajoso destemido nunca experimentará.

Sunday, July 05, 2015

ler é escalar montanhas

Ler um livro é escalar uma montanha. Toda leitura é motivo de satisfação efetuada. Assim como no cimo do monte a alma encontra grandeza redonda, o livro que se finaliza abra a porta não letrada para um novo horizonte. Algumas escaladas são fáceis, mesmo quando a distância é muita, outros livros, fininhos, conduzem a uma inesperada exaustão. Trago nas memórias da infância o mesmo valor de orgulho dos primeiros livros que completei e das primeiras montanhas que subi. Há algo num livro que remete a alturas esticadas, olhar alongado de quem alcançou o cume do mundo.

Friday, April 24, 2015

eterno

chego a conclusão de que tudo é o oposto do que sempre acreditei, tudo é eterno. cresci ouvindo que tudo era passageiro, mas de repente me deparo com a eternidade na essência de cada gesto, de cada movimento e de cada conduta. minhas relações, experiências, expectativas, frustrações e verdades são frutos da eternidade. sou eterno e na eternidade encontro a paz.

Tuesday, March 24, 2015

o polêmico caso de Anglina Jolie

o polêmico caso de Angelina Jolie

Primeiro foram os seios, agora os ovários e as trompas. Numa suposta medida para evitar o câncer, Angelina retira seios e órgãos reprodutivos. Tudo respaldado em moderníssimos exames, que comprovariam que ela tinha 87% de chances de desenvolver câncer.

É curioso que esses exames existem para promover uma cirurgia. Pensem bem: se esse exame existisse para câncer de pulmão, qual seria a solução? Retirar o pulmão? E para o fígado, os ossos, a medula e o cérebro? O que se faria? Não é possível desossar uma pessoa por causa de uma probabilidade de câncer nos ossos. Não é possível retirar cérebro nem fígado. Aliás, se esse exame fosse realizado em homens, para detectar a possibilidade de câncer nos testículos ou na próstata, algum homem retiraria esses órgãos na certeza (ou no risco) de ficar impotente? Acho que mesmo se um exame desse 99% de probabilidade, um homem não retiraria os testículos em função de uma probabilidade. Então, por que a mulher deve retirar os seios e os ovários em função de uma suposta probabilidade?

É fundamental que a indústria da medicina tenha liberdade para pesquisar e para desenvolver metodologias, mas é tão fundamental quanto que se discuta os desdobramentos éticos das metodologias. Desenvolver um exame que induz à retirada de seios e de órgãos reprodutivos das mulheres me parece no mínimo polêmico. O câncer é, até hoje, um dos mistérios da medicina. Existem probabilidades e há estudos que ligam genes a essas probabilidades, mas também há estudos, de importância igual, que ligam o modo de vida ao surgimento de câncer. Quem mora numa cidade poluída, quem fuma, quem se alimenta com fast-food, quem come muito açúcar, quem usa drogas inibidoras do sistema imunológico, quem dorme pouco, quem se estressa no trabalho, quem tem muitos problemas pessoais, quem usa muitos cosméticos, cremes e outros produtos químicos, quem vai pouco ao sol e quem faz pouco exercício físico tem uma probabilidade absurdamente maior de desenvolver câncer que uma pessoa com hábitos considerados saudáveis. Não seria mais interessante usar as pesquisas genéticas nesse sentido? Dizer à mulher: olha, você tem, teoricamente, uma probabilidade maior de contrair câncer, assim, é muito importante que você tenha uma rotina saudável e faça exames de rotina.

O que mais me incomoda nessa questão específica é que se trata duma intervenção violenta, aplicada à mulher e justamente à sexualidade da mulher. Ataca-se a reprodução feminina. Vejo vestígios duma sociedade casta e moralista nesse procedimento, a crença de que a sexualidade feminina leva à degradação. Ninguém corta o saco dum homem por probabilidade de câncer, mas arranca-se os seios da mulher na maior naturalidade. A virilidade do homem é tão importante quanto o pulmão, porque a reprodução feminina não o seria? Conheço mulheres que tiveram câncer e retiraram os seios. A grande maioria está super bem e se livrou 100% do problema. O importante é que fizeram exames preventivos. Agora, antecipar-se ao câncer retirando seios, ovários e trompas, porque a indústria desenvolveu um suposto teste de probabilidade é insano. É um desrespeito à mulher. É dizer que os órgãos reprodutores e os seios são dispensáveis. É reduzir à mulher. É um desenvolvimento covarde da medicina.

observação (25/3/2015): respeito 100% a opção de Angelina. é um direito dela decidir sobre o próprio corpo. preocupa-me apenas que outras mulheres possam ser induzidas, por esses exames e pela divulgação na mídia, a tomar a mesma decisão extrema, quando existem outros caminhos e quando se trata apenas de probabilidade. probabilidade não é fato, e cálculo de probabilidade, quando se trata de doenças e de curas, é um dos campos mais polêmicos que existem na medicina. mas repito: cada mulher faz o que quer.

Sunday, March 15, 2015

manifestações de 15 de Março de 2015

o que não se pode, de maneira alguma, é reprimir as pessoas que hoje foram as ruas para protestar. a manifestação é um direito legítimo, absoluto e intocável numa democracia. negar esse direito, ao afirmar que os manifestantes incentivam um golpe, é viver a realidade do golpe, que se caracteriza, justamente, pela proibição da livre manifestação.

Friday, December 12, 2014

mentira e verdade

Penso que há dois opostos que nos dificultam o dia a dia: um é a mentira, o outro é a verdade.

Friday, November 28, 2014

arte e cachaça

cheguei a conclusão de que a arte é a cachaça dos fracos. a cachaça dos fortes é cachaça mesmo.

Tuesday, October 07, 2014

legalizar o aborto?

discussão polêmica: a defesa do aborto virou um must entre as pessoas supostamente instruídas. em defesa do aborto, pesa o direito de opção da mulher para encerrar uma gravidez e a preocupação com a saúde das mulheres (uma vez que abortos clandestinos causam muitas vítimas). na discussão, oculta-se, porém, uma bandeira importante: o direito à vida das crianças na barriga. evidentemente, as crianças não nascidas não dispõem de mecanismos para garantir a própria vida. deveria o estado abandoná-las à sorte? é preciso lembrar que os abortos, ao contrário de 30 anos atrás, tornam-se cada vez mais rotineiros. se entre as décadas de 1950 a 1990 o aborto fosse tão comum como é hoje, talvez 10% de nós, que estamos aqui discutindo, não teria nascido. é pra se pensar. hoje existem exames genéticos cada vez mais precisos, que adiantam a cor dos olhos, a provável altura e eventuais doenças genéticas da criança que está para nascer. conhecendo a loucura humana, é certo que haverá mães que optarão por fazer um aborto, pelo fato da futura criança ter olhos escuros e um pé torto. o caso da mulher que morreu recentemente em Niterói, após fazer um aborto clandestino, é um bom exemplo: ela tinha três filhos saudáveis e o marido queria ter o quarto filho, mas, mesmo assim, ela interrompeu uma gravidez no quinto mês, pois acreditava que um novo filho iria atrapalhar a vida profissional. quem já viu exames de ultrassom sabe que no quinto mês de gravidez a criança está formada. o estado não deveria proteger essa criança?

Thursday, September 18, 2014

momento Narcisa

após o vídeo hilário de Narcisa Tamborindeguy na ARTRIO, confesso que já tive um momento Narcisa. foi no início da década passada. eu passeava pelo Shopping Cassino Atlântico, quando me deparei com um vernissage na hoje extinta Galeria 21, dos queridos Afonso Costa e Valéria Braga. receberam-me com uma taça de champanhe, e quando dei por mim estava de pileque e admirava obras de arte que eu não fazia ideia de quem eram. a certa hora, deparei-me com uma gravura que imediatamente reconheci ser de Oswaldo Goeldi. perguntei à Valéria Braga pelo preço da gravura. ela, para minha surpresa, puxou um homem na casa dos quarenta pelo braço e disse: “pergunte ao artista.” fiquei perplexo; pelo que eu sabia Goeldi estava morto fazia algumas décadas, mas, pego de surpresa e com champanhe na cabeça, resolvi tirar a história a limpo, virei-me para o artista e perguntei: “você é o Goeldi?” a resposta foi um fulminante olhar de desprezo. sem nada dizer, o artista deu me as costas e abandonou-me com minha dúvida ignorante. mais tarde descobri que se tratava de uma intervenção no trabalho de Goeldi e que o artista que me fora apresentado era o interventor, Nuno Ramos.

o que Narcisa e eu temos em comum nesses dois momentos é que quebramos a rígida norma de como se comportar no meio das artes. cometemos o pecado capital de fazer perguntas tolas num meio que se proclama aristocrático. o curioso é que a arte, como expressão da liberdade, tem como principal objetivo, justamente, a quebra de hierarquias engessadas. muitos se perguntam de que maneira a arte poderá evoluir daqui para frente, uma vez que todas as barreiras criativas já foram superadas. talvez o caminho seja a queda da torre de valetes, e o futuro da arte esteja na simples reconstrução horizontal. talvez também não. mas certo é que episódios como o protagonizado por Narcisa devem nos levar à reflexão; afinal, pode um ambiente com rígidos protocolos promover a livre expressão?

Sunday, July 27, 2014

palavras e fotos

queria poder fotografar as palavras. registrar o instante preciso que uma palavra representa em determinado momento. palavras são camaleões emocionais, nunca, jamais, repetem o mesmo significado. o frio de hoje é diverso do frio de ontem. o amor de João é diferente do amor de Maria. gostaria de fotografar as palavras para poder congelar exatamente o que se quis dizer em certo instante. depois que ditas, ninguém sabe repetir o que significam.

Sunday, July 20, 2014

conflito Israel x Palestina

o assunto mais ingrato para se comentar é o conflito Palestina x Israel. quão maior o esforço de abordar a questão de forma neutra, maior a certeza de que aquele conflito é um espelho de milhares de conflitos em todo mundo. aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, vivemos situação bem parecida; milhares de pobres residem praticamente trancafiados nas favelas e têm como principal apoio organizações humanitárias e organizações criminosas locais. aqui não existe uma fronteira física separando os dois lados, mas a fronteira invisível existe, e o lado de cá não aprecia quando o lado de lá se aventura pelos shoppings e cinemas da área nobre. a invasão militar, como resposta a crimes, também é um método que nós usamos. quando um bandido de uma favela assassina uma mocinha da área nobre, o Bope invade aquela favela e a ação também traz como efeito colateral a morte de alguns civis. nossa sociedade, assim como Israel faz em relação à Palestina, acostumou-se a tolerar a morte de civis nas favelas, quando o pretexto é manter a ordem e reprimir criminosos que lá se escondem. por isso, não me sinto em posição de opinar no conflito Israel x Palestina. creio ser preciso, antes de opinar em conflitos alheios, arrumar a própria casa. desafio qualquer um a comparar o número de civis mortos pela polícia brasileira ao de civis palestinos mortos pelo exército de Israel. a nossa guerra causa mais mortes.

Saturday, July 19, 2014

a estranha moda das doações em festas infantis

a tradição de presentear o aniversariante originou-se nos ritos religiosos: da mesma maneira que se acendia velas nos templos e se fazia oferendas aos deuses, presentear o aniversariante (e acender velas no dia do aniversário) era um gesto de desejar boa sorte e pedir proteção para o ano que se iniciava. aos poucos, a tradição religiosa transformou-se num ato de carinho com o aniversariante. finalmente, virou obrigação – ir num aniversário sem presente é falta de educação. essa obrigação transformou o antigo rito num festival capitalista. hoje, quando vamos num aniversário de criança, é preciso passar antes numa loja de brinquedos. o resultado é, na regra, um monte de presentes de plástico que são deixados de lado pela criança aniversariante após poucos dias.

algumas mães, cientes desse consumo que perdeu o  sentido e ecologicamente incorreto, resolveram mudar o rito: pedem que os convidados façam doações a uma instituição que cuida de crianças carentes. a iniciativa é em si muito nobre, mas distorce tanto a origem do presente como o gesto carinhoso que o presente representa. pelo ponto de vista da origem, deixamos de desejar sorte ao aniversariante; pelo ponto de vista do carinho, ficamos impedidos de dar algo pessoal para o filho dum amigo numa data especial.

sou 100% a favor de filantropia e penso que, num país desigual como o Brasil, temos todos o dever moral de contribuir de alguma forma (seja com dinheiro, com ajuda braçal, com doação de roupas ou até mesmo com aconselhamentos) para ajudar pessoas carentes ou ignorantes, mas penso também que é preciso tomar cuidado, para não distorcer o sentido dos gestos. quem quer fazer filantropia, faz por livre vontade, não porque os pais dum aniversariante pediram. e quem quer dar um presente para o filho dum amigo, tem o direito de dar o presente.

quero deixar claro, porém, que entendo a iniciativa; também sempre me questiono sobre o sentido de meu filho receber um monte de brinquedos impessoais de plástico, mas, por outro lado, é inegável que sempre há um o outro presente pessoal no meio, escolhido com muito carinho. não tenho, portanto uma conclusão definitiva. apenas uma reflexão.

Friday, May 30, 2014

raízes

penso que hoje o grande problema do Brasil é a complexidade emocional que o país demanda dos brasileiros. não é a toa que vivemos uma onde de violência sem precedentes, seja nas manifestações enfurecidas, nos atos exaltados de grevistas, no roubo na esquina ou na banalização de desentendimentos entre vizinhos. o constante bombardeio por injustiças e corrupção, a decadência do sistema político, a inércia operacional do aparato público e a falência de setores primordiais, como educação e saúde, levam os brasileiros a uma exaustão emocional diária, que, não é a toa, transformaram-nos no maior consumidor de Rivotril do mundo.


qual a solução? mudar-se para fora do país não seria, também, uma forma de rivotrilar-se? ficar e estressar-se à exaustão não seria um desgaste desnecessário? creio que, quando tudo parece estar errado, a transformação está em curso. o desequilíbrio do meio é, talvez, a maior escola da alma humana. por isso, chega dessa conversa de sair do Brasil. aqui é o nosso lar. aqui é nossa escola da vida. árvore que cresce durante a tempestade cresce apta a enfrentar qualquer turbulência futura. o segredo é não descuidar das raízes. 

Friday, May 23, 2014

massa humana

quem conseguir por um instante quebrar qualquer vínculo prático ou emocional com o mundo perceberá que, apesar de tantos males, não há nada mais apaixonante que a massa humana. é na absoluta contradição que somos fascinantes. como fagulhas dum imenso fogo, na tentativa de preservar a madeira que as chamas consomem.

Sunday, May 18, 2014

porta para o novo

e de repente surge uma porta. vaga-se por semanas, meses, anos, sem encontrar saída, então, de forma aparentemente inexplicável, surge uma passagem. espia-se pela fechadura, e o novo arranca as entranhas da zona de conforto. o impulso é trancar a porta e apegar-se ao antigo, que, até então, não trazia atrativo algum, mas o antigo se dissolve e deixa somente duas opções: atravessar a porta e viver o novo ou permanecer e dissolver-se também.

Monday, May 12, 2014

tempo de retração (greve de ônibus e de professores)

voltemos, então, aos tempos do homem da caverna; sem ônibus, só nos resta ficar em casa, e, sem professores, às crianças também. da televisão se faça a nova alegoria da caverna, imagens do mundo nas paredes dos lares. existe solução? dentro do sistema, definitivamente não. quando o caos se consolida ao ponto de nos jogar de volta às opções primitivas dos primórdios, só nos resta descartar o universo que julgávamos compreender. é tempo de retração.

Thursday, December 12, 2013

projeto Porto Maravilha e o caos provocado pelas chuvas

grande parte dos investimentos feitos no Rio de Janeiro estão indo para o projeto Porto Maravilha. a pergunta inevitável, após o caos das chuvas: o Porto Maravilha é prioridade? discordo das comparações com Buenos Aires, pois são duas realidades distintas. Buenos Aires não tinha áreas de lazer em contato com a água, por isso revitalizaram o porto. uma vez que a capital da Argentina beira o famoso Rio da Prata, era fundamental, para o turismo da cidade, que a região portuária, em contato com o Rio da Prata, fosse revitalizada. No Rio de Janeiro, o grande atrativo turístico e de lazer são Ipanema, Copacabana e todas as outras praias (além de museus, Corcovado etc). Muito mais importante, para o turista e o carioca, do que revitalizar o porto, seria despoluir, de uma vez por todas, as praias. também seria infinitamente mais barato. e o com o restante da verba, seria possível resolver questões que se alastram por décadas, como o alagamento da Av. Brasil em dias de forte chuva e o estado precário do  Museu da Quinta da Boa Vista. não sou contra a revitalização do porto; apenas considero que há centenas de outras prioridades.

Saturday, November 30, 2013

doce vida insana

doce vida: estava sozinho no escritório, os olhos fixos na tela do computador. desvio o olhar e vejo um passarinho amarelo pousado no parapeito da janela, olhando para dentro da sala. parei o que fazia e observei o pássaro que lá ficou por um minuto. eu trabalho naquele mesmo escritório há quatro anos, e nunca antes um pássaro admirou minha sala. quanto mais eu penso sobre esse momento singular, mais tenho a certeza de que não há qualquer lição ou ensinamento no episódio. tratou-se, somente, dum pássaro observando minha sala. o encanto daquele momento está justamente nessa ausência de qualquer propósito, como o sorriso das crianças ou a estrela cadente. são as sutilezas sem objetivos que fazem doçura da vida insana.

Saturday, November 23, 2013

arte low cost

tenho minhas dúvidas a respeito dos tantos projetos (sites, lojas, galerias etc.) de slogan “arte barata”. o chamariz é sempre o mesmo: arte acessível, arte para todos os bolsos. incomoda que o critério principal é o preço baixo das obras, fazendo uma suposta oposição ao mercado capitalista da arte, que estaria promovendo preços exorbitantes. bem, no momento em que o critério de seleção é o preço (mesmo que baixo), cai-se numa tremenda armadilha contraditória: o critério primordial de qualquer mercado é justamente o preço. ou seja, no final das contas, tudo gira em torno do preço, e a venda de arte low cost é igualmente alinhada com o mercado. explora-se apenas um público diverso das grandes galerias. algo como as lojinhas que vendem tudo por 99 centavos.

Monday, October 21, 2013

instituto Royal e os testes em animais

há dois fatos que se misturam na questão do instituto Royal: uma é a invasão do instituto; a outra é o uso de cães e gatos em experimentos. vou me limitar apenas aos experimentos.

poucos séculos atrás, havia escravos no mundo, e dizia-se que, sem escravos, não haveria a possibilidade de se promover o progresso da humanidade. foi preciso muita pressão e ativismo, para derrubar as verdades enraizadas nas sociedades daqueles tempos. hoje, a humanidade quer que se encontre métodos alternativos para experimentos com animais.


é uma posição extremamente confortável dizer que não há outro caminho. não há, porque não há pressão para que haja. se deixássemos, os laboratórios testariam remédios em crianças, aliás, há milhares de relatos de experimentos ilegais com pessoas na África. se hoje ainda não existem caminhas alternativos, os ativistas querem, ao menos, limites. cães e gatos são animais de estimação, que nos são muito próximos. da mesma forma que é proibido comer cães, pessoas querem o fim dos experimentos com cães. querem que se limite os experimentos, enquanto não haja outra alternativa, aos ratos de laboratório; e que, a curto, médio ou longo prazo, também os ratos sejam poupados desses testes cruéis.

Thursday, October 17, 2013

a polêmica em torno de chico buarque

sempre achei exagerado o culto em torno de chico buarque, um exemplo clássico em que o público confunde criação com criador. a verdade é que chico canta bem, chico escreve bem, chico tem olhos verdes e ponto. tudo além é imaginação. por isso, agora, esse ódio exagerado, como se a máscara de chico tivesse caído. é preciso perceber que chico nunca vestiu máscara alguma, sua imensa legião de fãs é que o mascarou de homem perfeito. agora, faz-se um falso demônio do falso santo. o chico pessoa é apenas um sujeito igual a nós, com opiniões controversas e talvez equivocadas, como todos nós as temos. o mesmo vale para caetano e roberto carlos. é preciso parar de dar tanta importância às opiniões dos artistas; o que conta é o que criaram. afinal, um rouxinol também canta como poucas aves, mas nem por isso é formador de opinião no reino animal.

Tuesday, September 03, 2013

velas ao vento, navegante

existe algo maior que o brilho nos olhos dum jovem, aquele luzir arrogante que atropela pessimismo e desesperança, desafiando-nos a ver um futuro renovado, em que sonhos e certezas se fundem num aconchego, num abraço de esperança incontida, revelando que nossas verdades não passam de tolas cicatrizes, traumas de um mundo que parece punir os sonhadores, enquanto, na verdade, apenas pune os que desistem? velas ao vento, navegante.