Monday, June 06, 2016
Tunga
Tunga é um daqueles artistas que só será compreendido daqui para frente. impossível decifrá-lo enquanto vivo. a complexidade do conjunto da obra que produziu está hoje além das nossas palavras. analisar uma obra de Tunga é um exercício de constrangimento; é se dar conta de que existem objetos que enxergam a nossa imaturidade.
Sunday, June 05, 2016
Meu querido irmão
Meu querido irmão era diferente. Comia com os dedos, cantava em idioma desconhecido, brincava com besouros, tomava banho de confetes, falava com as fadas, vestia a roupa ao contrário e fazia chá de grama. Meu querido irmão era um encanto de pessoa. Sempre sorridente, consolava a tristeza.
Certo dia uma junta médica decidiu por sua internação. Encheram-no de remédios, disseram que era para combater a doença. Meu querido irmão passou a comer de talheres e parou de cantar. Deixou os besouros de lado, esqueceu-se dos confetes e das fadas. Passou a vestir-se como a gente, que gente é essa, e nunca mais bebeu do chá de grama. Perdeu o sorriso; do consolo fez-se o silêncio.
Não demorou muito e meu querido irmão morreu. Disseram que foi da doença, mas eu sei, que os doentes somos nós.
Certo dia uma junta médica decidiu por sua internação. Encheram-no de remédios, disseram que era para combater a doença. Meu querido irmão passou a comer de talheres e parou de cantar. Deixou os besouros de lado, esqueceu-se dos confetes e das fadas. Passou a vestir-se como a gente, que gente é essa, e nunca mais bebeu do chá de grama. Perdeu o sorriso; do consolo fez-se o silêncio.
Não demorou muito e meu querido irmão morreu. Disseram que foi da doença, mas eu sei, que os doentes somos nós.
Friday, June 03, 2016
amor adolescente
O amor costuma ser assunto adulto. Na contramão, eu
penso: existe história mais linda de que um amor adolescente? Aquele frio na
barriga na espera pelo toque do telefone; a magia de uma simples conversa no
pátio escolar; a expectativa do primeiro beijo; se trancar no quarto e ouvir aquela
música que não sai da cabeça. O amor adulto constrói um futuro a dois; o amor
adolescente é a colorida essência do tudo: é imenso, infinito e atemporal.
Wednesday, June 01, 2016
a menina e o sapo
A menina solitária encontrou um livro colorido na rua. Era a história a Princesa e o Sapo. Depois de ler o livro, sonhou em encontrar um sapo para beijá-lo. Não que quisesse um príncipe, queria alguém especial. Alguém para dividir a vida. Não tinha amigos. A menina queria beijar um sapo, para que ele se transformasse num amigo. Alguém para fazer bolinhos de terra; alguém para rir e para abraçar. Onde a menina morava, não havia lagos nem riachos. Somente bueiros e valas. Durante algumas horas, procurou inutilmente por um sapo, desistiu. Já de noite na cama, abraçou o travesseiro e perguntou ao papai do céu porque era preciso beijar um sapo para conhecer alguém especial.
Saturday, May 28, 2016
Idade dos Anjos
Uma vez, quando muito jovem, quis me apaixonar. Foi numa tarde de primavera na colônia de férias. Os demais garotos participavam animados de uma partida de futebol, quando, na beira do campo, vi uma borboleta azul e quis me apaixonar. Fui a procura das meninas que brincavam de fazer louças de barro e não achei quem merecesse minha paixão. Desiludido, caminhei até um riacho próximo, para refletir sobre a vida. Foi quando encontrei uma linda princesa, sentada à beira d’água, chorando. Perguntei pela razão das lágrimas, e ela não soube explicar. Disse apenas que estava muito triste. Então, levantou-se e saiu correndo. No dia seguinte, retornei para casa e nunca mais ouvi falar da menina da beira do rio. Mas me apaixonei. E durante quatro anos pensei nela todas as noites antes de dormir. Hoje ainda lembro dela, consciente de tamanha ilusão. Queria vê-la novamente, na idade dos anjos.
Wednesday, May 25, 2016
Arte e o Governo
aos poucos, a Arte está retomando o lugar que lhe é
destinado: o de questionar o sistema. a lua de mel entre Arte e Governo
havia-se tornado tediosa. remetia aos tempos medievais, em que os artistas eram
marionetes da Igreja e dos poderosos senhores.
a grandeza da Arte está em tirar a sociedade da inércia.
a Arte deve sugerir incoerências onde o senso comum enxerga a perfeição. no
Brasil dos últimos anos, a classe artística havia, paradoxalmente, escolhido o
caminho oposto: apontava perfeição onde o senso comum percebia erros. ao invés
de propor o movimento, a Arte estava propondo a estagnação.
assim, a gritaria de “é golpe” me agrada. mostra que os
artistas estão retornando ao lugar que nunca deveriam ter deixado, à margem do
sistema. espero que a atual angústia dos artistas se reflita em obras
intrigantes, que possam nos levar a enxergar o mudo além das nossas convicções.
Sunday, May 15, 2016
a polêmica em torno da extinção do MinC
em meio ao alvoroço em torno da extinção do MinC, surge a
importante pergunta sobre qual foi o rumo da cultura, no Brasil, na última
década. afinal, o MinC foi tão perfeito assim? vejo dois extremos na dinâmica
cultural brasileira: de um lado, os projetos e os eventos executados a
partir de leis de incentivo fiscal; do outro, a decadência do patrimônio
cultural, como o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista e a Escola de Artes do
Parque Lage. mesmo pertencendo o Parque Lage à administração estadual, não seria
mais importante destinar verba pública federal à manutenção do espaço, ao invés
de direcioná-la, através de leis de incentivo fiscal, a shows de cantores
consagrados?
não existe, no Brasil, um projeto cultural; a manutenção
do patrimônio histórico é esporádica. em todo Brasil, há construções coloniais
caindo aos pedaços, e uma igreja precisa de sorte e de muitos pedidos de “por
favor” para ser reformada. não se percebe uma agenda cultural. o MinC se tornou
um grande carimbador de projetos de captação.
há cerca de dois anos, uma renomeada artista brasileira
teve grande exposição cancelada no MAM. o motivo: embora ela constasse na
agenda oficial das exposições, ela não conseguiu captar um patrocinador para a
exposição. que política cultural é essa em que o espaço público obriga o
artista a conseguir o patrocinador que, por sua vez, patrocinará a exposição
com verba pública? não seria mais interessante o Governo recolher os impostos e
direcioná-los ao Museu, para que o Museu tivesse total independência para
montar exposições?
no Brasil, o repasse de verbas para importantes espaços
culturais é abaixo do necessário. os museus federais, na maioria, sequer têm
verba para a manutenção do prédio e do acervo permanente. assim, curadores, artistas
e produtores culturais se estapeiam pelas verbas do incentivo fiscal, para a realização de exposições e de eventos. a disputa é grande, e quem vive das
artes tem uma difícil rotina financeira. quando defendem o MinC, não o defendem
por admiração. o defendem, pois temem que, sem o MinC, o cenário já difícil
possa se tornar insustentável.
a discussão apropriada, no momento, não seria
em torno da manutenção do MinC, mas em torno da reavaliação de toda a política
cultural brasileira. é inconcebível que a Escola de Artes do Parque Lage e o
Museu Nacional sofram com falta de verba, enquanto medalhões da música
brasileira recebem verba pública para realização de shows. é imoral que igrejas
coloniais caiam aos pedaços, enquanto livros e mais livros de importância
cultural questionável são financiados através de leis de incentivo fiscal.
por falar em livros, a Biblioteca Nacional é outra que vive a rotina da falta
de verba. de que adianta um país fomentar novos livros, se esse mesmo país não
disponibiliza verba para preservá-los na história? a gestão da cultura
brasileira é um grande contrassenso.
Wednesday, May 11, 2016
o peixe e a flor
escrever sem saber onde chegar. uma trilha de lugar algum
para o qualquerquês. palavras novas, pensamentos antigos. luz que ilumina os
tornozelos e deixa os pés nas sombras. o que é uma ideia? o que são cinco
peixinhos presos numa piscina natural? o fotógrafo quer registrá-los, o
pescador pescá-los. a criança primeiro se encanta, depois, torce pelo pescador.
perdem-se os peixes, fica o fundo de areia amarelada com cinco conchas vazias. alguém
avisa que os peixes não são comestíveis, o pescador responde que isso não
importa, o que importa é que pescou os peixes. que tal soltá-los, então? nem pensar,
vou levá-los prá turma do bar, sempre dizem que eu não sei pescar. no canteiro
brota uma florzinha desajeitada. torço para que nenhum rapaz enamorado a encontre,
pelo menos, por enquanto. desejo que antes possa perfumar o mundo.
Tuesday, April 26, 2016
Quadrilha*
Dilma amava Cunha que amava Jean Wyllys que amava Bolsonaro
que amava Maria do Rosário que não amava ninguém. Dilma foi para Cuba, Cunha
para o convento, Jean Wyllys morreu de vergonha, Bolsonaro ficou para tio
sukita, Maria do Rosário suicidou-se politicamente, e Temer, que não tinha
entrado na história, virou presidente do Brasil.
(*seguindo poema de Carlos Drummond de Andrade)
Wednesday, March 30, 2016
o tempo é atemporal
o tempo é atemporal. essa aparente contradição é a razão da inverdade que impregna as relações humanas.
Tuesday, March 29, 2016
Thursday, January 07, 2016
mova o seu mundo
ainda há quem mova o mundo para devolver uma carteira
perdida. há carros que dão a preferência aos pedestres. as vezes a lua brilha
de dia. há mendigos que são apenas mendigos e ricos que são somente ricos. há
quem faça um elogio sincero e há quem segure a crítica. existem praias
despoluídas. há flores nas calçadas. há casais de idosos que andam de mãos
dadas, e pessoas que dedicam a vida a ajudar animais desamparados. no youtube, ouço
uma música que emociona; qual a música? tanto faz. encontre a sua. mova o seu
mundo.
Wednesday, December 30, 2015
fotografia e o Museu do Amanhã
sempre que surge uma nova atração numa cidade turística, estabelece-se um tipo de estudo coletivo que definirá qual será o ângulo fotográfico padrão daquela atração. esse ângulo, então, será exaustivamente repetido em guias e em livros sobre a cidade, sites de turismo e em cartões postais. antigamente, tal processo era lento, mas, agora, que tudo é instantâneo, promete-se um resultado a curto prazo.
um exemplo de ângulo padrão é o Pão de Açúcar visto a partir do Mirante Dona Marta. agora, acompanho, com curiosidade, as milhares de fotos que são postadas por profissionais e amadores apaixonados do Museu do Amanhã. qual será o ângulo padrão do museu?
um exemplo de ângulo padrão é o Pão de Açúcar visto a partir do Mirante Dona Marta. agora, acompanho, com curiosidade, as milhares de fotos que são postadas por profissionais e amadores apaixonados do Museu do Amanhã. qual será o ângulo padrão do museu?
Sunday, December 20, 2015
aborto
o que é contraditório na proibição do aborto é que as mulheres ricas vão fazê-lo em países onde o aborto é legalizado, enquanto as pobres morrem na mão de um açougue. e mais contraditório ainda é que a mulher rica, muitas vezes, faz o aborto por simples opção, enquanto a pobre é obrigada, devido à precária situação financeira.
Sunday, December 06, 2015
a menina que roubava livros
estive pensando no romance “A menina que roubava livros”.
com tanta corrupção, a história de uma menina que rouba livros faz pensar. algum
brasileiro consideraria a menina uma ladra? dificilmente. mas ela roubava,
roubava livros.
roubar um livro é um movimento oposto à tudo que se vive
no Brasil: no Brasil, o conhecimento não tem valor. um livro representa o conhecimento,
e roubar algo sem valor carrega um ar de
romântica inocência.
escolas sucateadas, pesquisas sem verba, universidades
desmoronando e professores com salários humilhantes são alguns dos indicadores
de como o Brasil trata o conhecimento. na verdade não o trata, mas o destrata
de todas as maneiras possíveis e imagináveis.
o que isso tem a ver com o impeachment da Dilma? nada.
também não tem a ver com a figura de Cunha, com o lamaçal da Samarco ou com a
operação Lava Jato. uma menina que rouba um livro cai num terreno indefinido,
longe da fúria que nos divide, nem preto nem branco, nem Deus nem o diabo. é impossível
condená-la, e não se pode absolvê-la. é dessa neutralidade que transluz o imensurável
valor do conhecimento: ele é de todos, por isso, não pode ser roubado.
o conhecimento é o elemento objetivo que mais se aproxima
do amor. assim como o amor, o conhecimento dobra quando dividido. assim como o
amor, o conhecimento traz bem-estar por onde passa. assim como o amor, o
conhecimento (e agora parafraseio Gandhi) cura, nutre, une, entusiasma, faz nascer, alivia, materializa, motiva...
possibilita a vida.
Friday, December 04, 2015
precisamos, finalmente, ser realistas
ontem, oito viciados em crack brigavam frente à portaria de
meu prédio. liguei para a Guarda Municipal, disseram que eu precisava registrar
uma ocorrência pelo 1746, desisti. começou a chover, eles se foram,
provavelmente, para incomodar outra pessoa num local mais protegido. os viciados
em crack me incomodam, pois não vejo qualquer possibilidade de solução. estão
condenados.
lembro dos tempos em que o crack era proibido pelos
traficantes cariocas. dizia-se que protegiam os viciados duma droga absurdamente
destruidora. foi um tempo em que os traficantes, donos dos morros, carregavam o
título de protetor. a sociedade do asfalto via-lhes um benefício, pois,
supostamente, impediam assaltos nas redondezas. já nas comunidades, o benefício
era a manutenção da ordem, através de punições a estupradores e a ladrões de
galinha.
a lua de mel entre a sociedade e os traficantes terminou com o
filme Tropa de Elite. evidente que não foi o filme o responsável pela mudança
do paradigma, mas tratou-se de um catalizador, para que se enxergasse um problema
óbvio. o filme expôs a realidade dos morros dominados pelo tráfico: a relação
corrupta com parte da polícia e com algumas ONG’s, a exposição dos moradores a humilhações e a
tiroteios, o aliciamento de menores e a guerra sangrenta entre diversas facções.
oito anos se passaram desde o lançamento de Tropa de Elite,
e muita coisa mudou nos morros cariocas. criou-se as UPP’s, que afugentaram os
traficantes e, durante alguns anos, reduziram a criminalidade nos morros e nas
adjacências. a figura do menino de oito anos ostentando um fuzil
foi banida para os subúrbios distantes. muita coisa mudou, mas tudo está igual.
em 2007, viciados em crack também ocupavam a calçada da
minha rua. sumiram com a chegada das UPP’s, mas reapareceram. os tiroteios ocasionais
também retornaram, antes entre traficantes, agora, entre policias das UPP'S e traficantes
que voltaram ou tentam voltar. o comércio das drogas retornou de forma oculta. os
moradores, que antes se queixavam de abusos por parte dos traficantes, hoje, queixam-se de violência praticada por alguns policiais. a presença do estado continua
frágil nas comunidades carentes; embora houvesse alguns avanços iniciais, a
sonhada integração entre asfalto e morro jamais ocorreu.
2007, ano do lançamento do filme Tropa de Elite, foi um ano
de promessas otimistas. o Brasil foi selecionado para sediar a Copa do Mundo. o
Rio de Janeiro oficializou a candidatura para sediar as Olimpíadas. os índices
econômicos decolavam, a taxa de juros recuava a patamares recordes, o valor dos
imóveis se aproximou ao dos países do primeiro mundo, o crédito era farto, o
bolsa família operava milagres, a Petrobrás se transformava em símbolo da
competência nacional e o PAC prometia um futuro dourado – dourado como o Urso
de Ouro conquistado pelo próprio filme Tropa de Elite em Berlim.
hoje, quando olho para trás, percebo que nada piorou nos
últimos anos, pois nada havia melhorado. somente havíamos aplicado uma maquiagem na
maneira como enxergamos o Brasil, e a maquiagem derreteu. a Copa
do Mundo foi uma grande ilusão, os índices econômicos refletiam apenas o
otimismo da época, o alto valor dos imóveis era especulativo, o PAC uma
promessa, o bolsa família um tapa-buraco, a Petrobrás um devaneio e o cinema
brasileiro não conquistou o mundo. ninguém mais espera absolutamente nada das
Olimpíadas, pelo contrário, o evento é visto como um compromisso incômodo que
precisará ser cumprido. em 2007, víamos um futuro azul, agora acreditamos num
futuro barrento como o lamaçal da Barragem de Mariana.
éramos otimistas, agora somos pessimistas;
precisamos, finalmente, ser realistas.
Tuesday, November 24, 2015
noite de lua cheia
de repente sobressalta-me a vontade de escrever algo
positivo. é tanta queixa de todos os lados que temo pela existência do universo.
hoje é véspera de lua cheia. dá pra acreditar que há uma lua girando sobre o
mundo? certa vez, no Pantanal, eu dirigia sozinho por estradas de terra, por
campos e por areais, quando me perdi. tentei, a todo custo, encontrar o caminho
de volta para a fazenda que me hospedava, mas apenas me perdia mais e mais.
então encontrei um lago escondidinho, envolto pela mata densa, tomado por todas
as aves possíveis e imagináveis, de todas as cores e de diversos tamanhos. observei
aquele berço de absoluta beleza por alguns segundos e parti, com receio de que
minha simples presença pudesse violá-lo. há uma senhora abandonada num asilo
qualquer e para ela o milagre do universo se resumiria em ter companhia na hora
da novela. no calçadão de Copacabana, a garota de programa encerra o expediente
e joga conversa fora com o garçom do quiosque. ele lhe serve uma água de coco por
conta da casa, ela sorri e retoma a fé na humanidade. trago um poema de Carlos
Drummond de Andrade desde sempre no meu peito, como se fosse do próprio ar que
respiro. confesso que nunca lhe desvendei o significado. a beleza tem
dessas coisas; ao contrário das tragédias que nos atropelam com a insignificante
transitoriedade de tudo que julgamos importante, a verdadeira beleza não traz
qualquer impacto prático no cotidiano. é apenas um moleque descalço de sorriso
branco. certa vez, também no Pantanal, eu encontrei a onça-pintada na beira do
rio. a moça humilde está feliz, pois foi bem tratada no posto de saúde. duas
meninas dividem um bombom e batem par ou impar para ver quem fica com a parte
maior. e amanhã é noite de lua cheia.
Wednesday, November 11, 2015
no bar da esquina, pede-se outra rodada de chope
20hs. do outro lado da rua, um hotel. na altura dos meus
olhos, oitavo andar, um quarto se acende, e adentra um homem de terno azul
escuro. ele deita o paletó com zelo sobre a primeira das duas camas gigantes.
perde-se por alguns segundos num detalhe qualquer do quarto, caminha à janela. cerra
os olhos, respira, afrouxa a gravata. está exausto. retorna de um longo dia de
reuniões que, de repente, perdem sentido. os olhos buscam a rua e encontram a
vida do bar da esquina. o pensamento ameaça voltar a assuntos de trabalho, o
homem se recusa, desabotoa a camisa e massageia a própria nuca. ele fecha a
persiana, mas eu sei o que ele faz longe de meu olhar. ele retorna para o meio
do quarto, liga a televisão, senta-se sobre a cama próxima à janela, tira os
sapatos, escorrega o corpo até a cabeceira, ajeita uma almofada, encosta-se na
parede, agarra o controle remoto e pula de canal em canal até se perder no
absoluto nada.
eu sinto inveja daquele homem. queria estar nesse vazio que
segue a exaustão, cansado ao ponto de que nada mais tem relevância. meu cansaço
não sabe me esgotar por completo. no bar da esquina, pede-se outra rodada de
chope.
Wednesday, November 04, 2015
imensa pátria dos desenganados
eu gostaria de criar alguns países novos.
num deles, colocaria o Lula como presidente e Genuínios,
Dirceus e Delúbios como ministros. nesse país, poderiam morar todos aqueles que
ainda confiam nos caciques do PT e acham que tudo é mentira da oposição. seria
uma país do estado total, com nenhuma empresa privada. haveria bolsas de tudo
para todos, intercâmbios culturais com Cuba e um bloco econômico formado com os
vizinhos Venezuela e Bolívia. o dinheiro sem fim viria não se sabe donde. investigar
políticos por corrupção seria proibido.
no outro país, Cunha seria presidente e a bancada BBB (bala,
boi, bíblia) lhe auxiliaria. seria um país para todos aqueles que são contra a
liberdade excessiva das mulheres e os direitos civis dos homossexuais. nas
escolas, o ensinamento seguiria o conhecimento da bíblia. o porte de armas
seria liberado, e qualquer desavença se resolveria pessoalmente. não haveria
florestas, toda terra seria destinada à agropecuária, e os transgênicos
reinariam absolutos. políticos teriam direito a gratificações sobre a
rentabilidade de estatais, depositadas em contas na Suíça.
no terceiro país, Jean Wyllys seria o presidente e Gregório
Duvivier o pai da constituição. seria o país da liberdade dos oprimidos. policiais ficariam
presos e os ladrões policiariam as ruas, para compensar o fato de que são
vítimas duma sociedade hierárquica desigual com pressupostos humanitários
invertidos pela ganância do capital inescrupuloso. a maioridade penal passaria
dos 18 para os 81 anos. a profissão de babá seria extinta por decreto.
no quarto país, voltaríamos à ditadura. seria a pátria alegre
daqueles que tanto pedem o retorno dos militares. pronto, uma ditadura só para chamar
de sua. bandido bom seria bandido morto, e, talvez, o desenho do Bob Esponja fosse
banido da televisão, pois o personagem do Lula Molusco poderia ser um risco à
soberania nacional. nas escolas, nada de alunos desobedientes, solitária neles.
baderna, nunca mais. o termo maioridade penal inexistira. um recém-nascido poderia
ser responsabilizado por seus atos.
é claro, não me esqueci, haveria ainda o país governado por
Aécio. seria o paraíso das empresas privadas, tudo padrão Fifa, a prova viva de
que empresas privadas são de transparência exemplar. bicicletas seriam banidas
das ruas, e os carros recuperariam os espaços que as ciclovias usurparam. um
pool de cervejarias administraria escolas, universidades e empresas
de jornalismo. ao contrário do país governado por Lula, investigar políticos
seria sim permitido, desde que da oposição, é claro.
por fim, haveria um último país para todos aqueles que não
se enquadrassem nos outros. seria o país das sobras. um país em que ninguém
acreditasse que esse ou aquele discurso radical faz a mínima diferença. um país
em que as pessoas se dessem conta de que a educação, a honestidade e o respeito
ao próximo são os únicos pilares necessários a uma grande nação. acredito que esse
último país já exista há muito tempo: é a nossa imensa pátria dos desenganados.
Saturday, October 31, 2015
a solidão é o verdadeiro espelho
pensei na importância de se passar um tempo sozinho. a física provou que todo observador interfere no objeto observado. assim, quando em grupo, sofremos a projeção das outras pessoas e deixamos de ser apenas nós mesmos. é um fenômeno do qual é impossível fugir, pois trata-se duma lei da física. somente quando sozinhos é que percebemos quem nós realmente somos. a solidão é o verdadeiro espelho.
Wednesday, October 14, 2015
Deus reside na ausência de Deus
tive pensando na natureza do milagre e percebi que o
divino traz essa contradição; quanto mais nos afastamos do divino, mais nos
aproximamos do milagre; a natureza do milagre reside no impossível. água no
deserto é milagre, água na floresta não. o milagre exige, portanto, a
existência da imperfeição, da tormenta, do sofrimento. o aleijado só volta a
andar por ser aleijado. o doente precisa do milagre, o saudável não. é justamente
aqui que resida a contradição; o milagre é a mais forte manifestação do divino,
o que significada dizer que o divino se manifesta, com força absoluta, somente na
falta do divino. com outras palavras, a grandeza de Deus reside na ausência de
Deus. é um pensamento assustador e encorajador ao mesmo tempo; pois quanto mais
o pensamento assusta, mais ele aproxima de Deus.
Thursday, October 08, 2015
um perigo chamado Uber
fazia tempo que eu não bebia leite. estava com sede. alcancei um pacote na geladeira e tomei um copo. havia-me esquecido de como nosso leite é ruim. quantos não foram os escândalos, nos últimos anos, de leite adulterado? meu celular tocou. atendi a ligação, que imediatamente caiu. o meu celular está fora da área de cobertura, nenhum sinal, nada. não deveria, estou na cozinha, no mesmo lugar em que já telefonei tantas vezes antes.
penso no meu carro, que custa o triplo dos carros de tantos outros países e tem a metade da qualidade. lembro que tenho um compromisso. desço para a rua e pego um táxi. dou azar; é um daqueles em que tudo está errado. penso no serviço Uber, que, aos poucos, está sendo proibido em todo Brasil. tivemos um serviço de qualidade durante alguns meses e agora teremos que abrir mão da qualidade, para voltar aos velhos problemas de sempre.
e, de repente, dou-me conta de que o problema não é o Uber. nunca foi. a questão central é a qualidade. as instituições brasileiras repudiam a qualidade. se o Uber fosse um serviço made in China, com todos os problemas possíveis e imagináveis, seria autorizado. afinal, por um acaso o governo se importa com a concorrência desleal que o mercado brasileiro sofre quando é inundado com falsificações? em toda esquina vendem-se produtos chineses. garanto que tiram mais empregos que supostamente o Uber tiraria dos taxistas.
as filas nas agências bancárias são intermináveis, nos correios nem se fala. nos ônibus é aquele desespero que todos nós conhecemos bem. as companhias áreas são um caos, e os aeroportos lembram rodoviárias do interior. as estradas são fábricas de acidentes. os hospitais são desumanos. o futebol virou chacota mundial. a segurança pública é um projeto sem projeto, resume-se a estatísticas de criminalidade.
então, imaginem o problema que é um serviço como o Uber para o Brasil. de repente, existe algo que funciona, algo impecável, moderno e respeitoso. um serviço assim faz o cidadão acostumar-se à qualidade, faz o sujeito pensar, torna-o exigente. comparações da ordem – se o Uber funciona, por que as operadoras de celular não funcionam? – serão inevitáveis. é uma bomba relógio esse Uber. hoje o cidadão quer um táxi perfeito, amanhã ele quer um hospital perfeito, finalmente ele exigirá políticos perfeitos... não, isso não, tudo menos isso, que perigo! melhor cortar o mal pela raiz. melhor proibir o Uber de uma vez por todas.
penso no meu carro, que custa o triplo dos carros de tantos outros países e tem a metade da qualidade. lembro que tenho um compromisso. desço para a rua e pego um táxi. dou azar; é um daqueles em que tudo está errado. penso no serviço Uber, que, aos poucos, está sendo proibido em todo Brasil. tivemos um serviço de qualidade durante alguns meses e agora teremos que abrir mão da qualidade, para voltar aos velhos problemas de sempre.
e, de repente, dou-me conta de que o problema não é o Uber. nunca foi. a questão central é a qualidade. as instituições brasileiras repudiam a qualidade. se o Uber fosse um serviço made in China, com todos os problemas possíveis e imagináveis, seria autorizado. afinal, por um acaso o governo se importa com a concorrência desleal que o mercado brasileiro sofre quando é inundado com falsificações? em toda esquina vendem-se produtos chineses. garanto que tiram mais empregos que supostamente o Uber tiraria dos taxistas.
as filas nas agências bancárias são intermináveis, nos correios nem se fala. nos ônibus é aquele desespero que todos nós conhecemos bem. as companhias áreas são um caos, e os aeroportos lembram rodoviárias do interior. as estradas são fábricas de acidentes. os hospitais são desumanos. o futebol virou chacota mundial. a segurança pública é um projeto sem projeto, resume-se a estatísticas de criminalidade.
então, imaginem o problema que é um serviço como o Uber para o Brasil. de repente, existe algo que funciona, algo impecável, moderno e respeitoso. um serviço assim faz o cidadão acostumar-se à qualidade, faz o sujeito pensar, torna-o exigente. comparações da ordem – se o Uber funciona, por que as operadoras de celular não funcionam? – serão inevitáveis. é uma bomba relógio esse Uber. hoje o cidadão quer um táxi perfeito, amanhã ele quer um hospital perfeito, finalmente ele exigirá políticos perfeitos... não, isso não, tudo menos isso, que perigo! melhor cortar o mal pela raiz. melhor proibir o Uber de uma vez por todas.
Tuesday, October 06, 2015
chuva em Copacabana
a chuva é um paradoxo, é ruído que traz silêncio. o sossego da chuva me fascina. ela rompe e a cidade respira, buzinas se calam, obras paralisam, o burburinho se abriga no boteco. aqui em Copacabana a chuva é única capaz de impor silêncio. sem autoritarismo; é o abraço da mãe que serena a histeria do bebê.
Friday, October 02, 2015
o PM e Harry Potter
Minha primeira reação ao ler sobre o policial militar e dublador de Harry Potter, morto quando patrulhava uma comunidade, foi: que raios o dublador de Harry Potter estava fazendo de PM num tiroteio com bandidos. Por que ele era policial? Por que ele não se dedicava à profissão de dublador integralmente? Que louco, pensei.
Então, aos poucos, dei-me conta de como os policiais militares são desumanizados. A sociedade esquece que, por trás de cada PM, existe uma alma que sonha e deseja, que faz planos, que se aventura por outros territórios, que gosta de cantar, cozinhar, jogar futebol e de pescar, que leva os filhos ao cinema, que se irrita com os rumos políticos do país e que tem paixão por bichos de estimação. Alguns são vegetarianos, outros militantes dos direitos da mulher, outros ainda praticam yoga e meditação. Há os chatos que discutem todo assunto com exagerada veemência e há os que aprenderam a valorizar o silêncio. Muitos têm problema de colesterol, muitos outros se gabam de excelente saúde. E aqueles que fazem regime e querem convencer os outros a emagrecer também? E quantos já sonharam em ser ator e receber um Oscar? O soldado Caio Cesar Ignácio Cardoso de Melo, dublador de Harry Potter, deve tê-lo sonhado, enquanto assistia no cinema, cercado de familiares, à estreia do famoso bruxinho. Fechou os olhos por um instante e se viu na famosa premiação, recebendo o Oscar fictício de melhor dublador. Imaginem qual foi sua emoção; imaginem o orgulho dos parentes. Qualquer um de nós teria se emocionado, de maneira igual, numa estreia tão importante.
Esse texto não fala da violência que os policias sofrem no dia a dia. Esse texto fala da violência que eles sofrem por ninguém lhes enxergar a alma humana. A opinião pública os isolou numa categoria de estatística, em que um certo número de uma sigla impessoal (PM) morre anualmente em confronto. É preciso entender que, por trás da sigla PM, existe um ser humano. E, quando morre um ser humano, morre um sonho e morre uma esperança.
Espero que, um dia, possamos olhar para nossos policias militares e entender que são somente pessoas perseguindo objetivos, assim como todos nós; que ser policial seja uma escolha como tantas outras, entre médicos, advogados, professores, garis e jornalistas; que possamos entender, sem estranhamento, que o dublador de Harry Potter tenha escolhido ser um PM.
Alguns vão dizer que meu texto faz uma abordagem poética dos policiais. Eu respondo que o soldado Caio Cesar Ignácio Cardoso de Melo me mostrou que há poesia na polícia. Que somos todos apenas seres humanos, inseridos nos mais variados contextos, que convergem para uma só realidade, essa insana loucura social chamada Brasil. (fotos: internet)
Então, aos poucos, dei-me conta de como os policiais militares são desumanizados. A sociedade esquece que, por trás de cada PM, existe uma alma que sonha e deseja, que faz planos, que se aventura por outros territórios, que gosta de cantar, cozinhar, jogar futebol e de pescar, que leva os filhos ao cinema, que se irrita com os rumos políticos do país e que tem paixão por bichos de estimação. Alguns são vegetarianos, outros militantes dos direitos da mulher, outros ainda praticam yoga e meditação. Há os chatos que discutem todo assunto com exagerada veemência e há os que aprenderam a valorizar o silêncio. Muitos têm problema de colesterol, muitos outros se gabam de excelente saúde. E aqueles que fazem regime e querem convencer os outros a emagrecer também? E quantos já sonharam em ser ator e receber um Oscar? O soldado Caio Cesar Ignácio Cardoso de Melo, dublador de Harry Potter, deve tê-lo sonhado, enquanto assistia no cinema, cercado de familiares, à estreia do famoso bruxinho. Fechou os olhos por um instante e se viu na famosa premiação, recebendo o Oscar fictício de melhor dublador. Imaginem qual foi sua emoção; imaginem o orgulho dos parentes. Qualquer um de nós teria se emocionado, de maneira igual, numa estreia tão importante.
Esse texto não fala da violência que os policias sofrem no dia a dia. Esse texto fala da violência que eles sofrem por ninguém lhes enxergar a alma humana. A opinião pública os isolou numa categoria de estatística, em que um certo número de uma sigla impessoal (PM) morre anualmente em confronto. É preciso entender que, por trás da sigla PM, existe um ser humano. E, quando morre um ser humano, morre um sonho e morre uma esperança.
Espero que, um dia, possamos olhar para nossos policias militares e entender que são somente pessoas perseguindo objetivos, assim como todos nós; que ser policial seja uma escolha como tantas outras, entre médicos, advogados, professores, garis e jornalistas; que possamos entender, sem estranhamento, que o dublador de Harry Potter tenha escolhido ser um PM.
Alguns vão dizer que meu texto faz uma abordagem poética dos policiais. Eu respondo que o soldado Caio Cesar Ignácio Cardoso de Melo me mostrou que há poesia na polícia. Que somos todos apenas seres humanos, inseridos nos mais variados contextos, que convergem para uma só realidade, essa insana loucura social chamada Brasil. (fotos: internet)
Tuesday, September 22, 2015
como pôr fim aos arrastões no Rio de Janeiro
em alguns países, como na Nova Zelândia, a participação de civis no combate ao crime é comum. são as “Community Patrols” – patrulhas comunitárias. ao contrário de justiceiros desvairados, elas atuam com o objetivo de auxiliar a polícia no combate ao crime. há diversas maneiras da sociedade civil agir contra os arrastões sem partir para a ignorância: fazer filmagens que identifiquem os infratores e convencer as vítimas a registrar ocorrência; estabelecer um canal direto de comunicação com a PM; observar os ônibus e chamar a PM em casos suspeitos. no pior dos cenários, caso seja preciso intervir fisicamente e um delinquente seja pego, a solução seria somente imobilizá-lo até a chegada da polícia.
além disso, é preciso investir pesado em cultura e em lazer nas áreas de origem dos jovens que cometem os arrastões. o que leva um jovem a cruzar a cidade de ônibus, numa longa viagem, para tocar o terror na Zona Sul? na minha opinião é, entre outros, a total falta do que fazer. praticamente todo domingo, há grandes eventos em Copacabana, que atraem, além dos frequentadores habituais, ainda mais pessoas à orla. por que não fazer esses eventos na Zona Norte? por que não promover shows musicais gratuitos no Engenhão nos finas de semana? Estado e Prefeitura deveriam investir em quadras esportivas nas regiões carentes, com espaços para churrasqueiras e com direito a chuveirões para espantar o calor.
há soluções pacificas possíveis para pôr fim à onda de arrastões, mas é preciso se mobilizar. sinto que muita coisa básica foi deixada de lado para que se realizasse primeiro a Copa do Mundo e depois o Projeto Olímpico. agora, é preciso recuperar o tempo perdido, com urgência.
Thursday, September 17, 2015
a arte e o artista
até pouco tempo, o artista era o meio para se criar uma obra de arte. hoje, cada vez mais, é a obra de arte que serve de meio para se criar um artista
Sunday, August 23, 2015
o medo e a pressa
corre quem tem medo, e corre quem tem pressa. seria a pressa o medo camuflado? ou seria o medo apenas uma simples pressa.
Thursday, August 20, 2015
Big Bang e o grande mistério
penso que o grande mistério do Big Bang é relativo àquilo que o antecedeu. qual foi o movimento que desencadeou a trajetória das partículas que iniciaram o Big Bang? quais eram as leis da física que regiam essas partículas? a atual experiência do acelerador de partículas feita pelo Cern parte, inevitavelmente, da condição de universo regido pelas regras pós Big Bang. por mais que se tente neutralizar o ambiente do experimento, nós, a humanidade, que fazemos o experimento, carregamos as leis pós Big Bang em cada átomo do corpo.
Tuesday, August 18, 2015
árvore na sombra
Na sombra dum morro havia um coqueiro que não crescia. Certo
dia o coqueiro, ressentido, perguntou à mãe terra o motivo de não crescer. A
mãe terra respondeu “o destino da árvore é prover o mundo de sombra, assim, uma
árvore na sombra não faz qualquer sentido.”
Monday, August 10, 2015
tropeço
lendo outro post que ridiculariza erros de português no
facebook,
concluo:
só tropeça quem anda
só tropessa quem escreve
Monday, July 27, 2015
certezas
hoje, o que mais me desalenta são pessoas com certeza absoluta. certeza do PT, do PSDB, do Uber, dos táxis, da religião, da não religião, do regime, do vegetarianismo, da carne, das drogas, das proibições, dos menores, dos maiores, da política econômica, do consumo, do aquecimento global, do desmatamento, da poluição, da gravidade, da inimportância, das bicicletas, dos carros, da distância e do horizonte. há pessoas com certezas que ultrapassam a possibilidade da verdade, pois mesmo a verdade tem limites. o vento espalha sementes e chamas. a água nutre e afoga, afaga e congela. a noite é luz da coruja. crianças são crianças, algumas são adultos, adultos são crianças. e as certezas a quem pertencem, aos adultos ou às crianças?
Thursday, July 23, 2015
seu segredo
há algo que você nunca contou para ninguém. um segredo que você aperta, que você abraça, que você segura em cada suspiro, em cada palavra, gesto e mesmo em cada pensamento. um segredo tão secreto que você mesmo só o conhece pela metade. preste atenção, este segredo é quem você é. deixe-o ir pelo mundo e vá junto. descubra-se.
Thursday, July 09, 2015
maioridade penal: quem se beneficia?
o que as pessoas não conseguem entender, que, ao berrarem contra a redução da maioridade penal, de fato, levam milhares de adolescentes ao crime. é fato comprovado que organizações criminosas se aproveitam da imputabilidade dos jovens para atribuí-lhes funções bem renumeradas, em que há grande risco de prisão. então, antes de assumir posição contrária, a pessoa deveria refletir se está realmente defendendo a juventude ou se está apenas agarrada a uma ideologia de aparência nobre, mas de consequências graves para aqueles que o ideal supostamente favorece. a pergunta é: a luta é pelos jovens ou pela defesa de um ponto de vista, de uma verdade própria baseada num sistema de crenças?
Tuesday, July 07, 2015
ter coragem
tive pensando: os verdadeiros valentes não são os corajosos, mas os medrosos. é fácil superar obstáculos com coragem, difícil é fazê-lo com medo. assim, concluo, que o verdadeiro corajoso, por essência, precisa ser medroso, pois viver com medo requer um coragem que o corajoso destemido nunca experimentará.
Sunday, July 05, 2015
ler é escalar montanhas
Ler um livro é escalar uma montanha. Toda leitura é motivo
de satisfação efetuada. Assim como no cimo do monte a alma encontra grandeza
redonda, o livro que se finaliza abra a porta não letrada para um novo
horizonte. Algumas escaladas são fáceis, mesmo quando a distância é muita,
outros livros, fininhos, conduzem a uma inesperada exaustão. Trago nas memórias
da infância o mesmo valor de orgulho dos primeiros livros que completei e das
primeiras montanhas que subi. Há algo num livro que remete a alturas esticadas,
olhar alongado de quem alcançou o cume do mundo.
Friday, April 24, 2015
eterno
chego a conclusão de que tudo é o oposto do que sempre
acreditei, tudo é eterno. cresci ouvindo que tudo era passageiro, mas de
repente me deparo com a eternidade na essência de cada gesto, de cada movimento
e de cada conduta. minhas relações, experiências, expectativas, frustrações e
verdades são frutos da eternidade. sou eterno e na eternidade encontro a paz.
Tuesday, March 24, 2015
o polêmico caso de Anglina Jolie
o polêmico caso de Angelina Jolie
Primeiro foram os seios, agora os ovários e as trompas. Numa suposta medida para evitar o câncer, Angelina retira seios e órgãos reprodutivos. Tudo respaldado em moderníssimos exames, que comprovariam que ela tinha 87% de chances de desenvolver câncer.
É curioso que esses exames existem para promover uma cirurgia. Pensem bem: se esse exame existisse para câncer de pulmão, qual seria a solução? Retirar o pulmão? E para o fígado, os ossos, a medula e o cérebro? O que se faria? Não é possível desossar uma pessoa por causa de uma probabilidade de câncer nos ossos. Não é possível retirar cérebro nem fígado. Aliás, se esse exame fosse realizado em homens, para detectar a possibilidade de câncer nos testículos ou na próstata, algum homem retiraria esses órgãos na certeza (ou no risco) de ficar impotente? Acho que mesmo se um exame desse 99% de probabilidade, um homem não retiraria os testículos em função de uma probabilidade. Então, por que a mulher deve retirar os seios e os ovários em função de uma suposta probabilidade?
É fundamental que a indústria da medicina tenha liberdade para pesquisar e para desenvolver metodologias, mas é tão fundamental quanto que se discuta os desdobramentos éticos das metodologias. Desenvolver um exame que induz à retirada de seios e de órgãos reprodutivos das mulheres me parece no mínimo polêmico. O câncer é, até hoje, um dos mistérios da medicina. Existem probabilidades e há estudos que ligam genes a essas probabilidades, mas também há estudos, de importância igual, que ligam o modo de vida ao surgimento de câncer. Quem mora numa cidade poluída, quem fuma, quem se alimenta com fast-food, quem come muito açúcar, quem usa drogas inibidoras do sistema imunológico, quem dorme pouco, quem se estressa no trabalho, quem tem muitos problemas pessoais, quem usa muitos cosméticos, cremes e outros produtos químicos, quem vai pouco ao sol e quem faz pouco exercício físico tem uma probabilidade absurdamente maior de desenvolver câncer que uma pessoa com hábitos considerados saudáveis. Não seria mais interessante usar as pesquisas genéticas nesse sentido? Dizer à mulher: olha, você tem, teoricamente, uma probabilidade maior de contrair câncer, assim, é muito importante que você tenha uma rotina saudável e faça exames de rotina.
O que mais me incomoda nessa questão específica é que se trata duma intervenção violenta, aplicada à mulher e justamente à sexualidade da mulher. Ataca-se a reprodução feminina. Vejo vestígios duma sociedade casta e moralista nesse procedimento, a crença de que a sexualidade feminina leva à degradação. Ninguém corta o saco dum homem por probabilidade de câncer, mas arranca-se os seios da mulher na maior naturalidade. A virilidade do homem é tão importante quanto o pulmão, porque a reprodução feminina não o seria? Conheço mulheres que tiveram câncer e retiraram os seios. A grande maioria está super bem e se livrou 100% do problema. O importante é que fizeram exames preventivos. Agora, antecipar-se ao câncer retirando seios, ovários e trompas, porque a indústria desenvolveu um suposto teste de probabilidade é insano. É um desrespeito à mulher. É dizer que os órgãos reprodutores e os seios são dispensáveis. É reduzir à mulher. É um desenvolvimento covarde da medicina.
observação (25/3/2015): respeito 100% a opção de Angelina. é um direito dela decidir sobre o próprio corpo. preocupa-me apenas que outras mulheres possam ser induzidas, por esses exames e pela divulgação na mídia, a tomar a mesma decisão extrema, quando existem outros caminhos e quando se trata apenas de probabilidade. probabilidade não é fato, e cálculo de probabilidade, quando se trata de doenças e de curas, é um dos campos mais polêmicos que existem na medicina. mas repito: cada mulher faz o que quer.
Primeiro foram os seios, agora os ovários e as trompas. Numa suposta medida para evitar o câncer, Angelina retira seios e órgãos reprodutivos. Tudo respaldado em moderníssimos exames, que comprovariam que ela tinha 87% de chances de desenvolver câncer.
É curioso que esses exames existem para promover uma cirurgia. Pensem bem: se esse exame existisse para câncer de pulmão, qual seria a solução? Retirar o pulmão? E para o fígado, os ossos, a medula e o cérebro? O que se faria? Não é possível desossar uma pessoa por causa de uma probabilidade de câncer nos ossos. Não é possível retirar cérebro nem fígado. Aliás, se esse exame fosse realizado em homens, para detectar a possibilidade de câncer nos testículos ou na próstata, algum homem retiraria esses órgãos na certeza (ou no risco) de ficar impotente? Acho que mesmo se um exame desse 99% de probabilidade, um homem não retiraria os testículos em função de uma probabilidade. Então, por que a mulher deve retirar os seios e os ovários em função de uma suposta probabilidade?
É fundamental que a indústria da medicina tenha liberdade para pesquisar e para desenvolver metodologias, mas é tão fundamental quanto que se discuta os desdobramentos éticos das metodologias. Desenvolver um exame que induz à retirada de seios e de órgãos reprodutivos das mulheres me parece no mínimo polêmico. O câncer é, até hoje, um dos mistérios da medicina. Existem probabilidades e há estudos que ligam genes a essas probabilidades, mas também há estudos, de importância igual, que ligam o modo de vida ao surgimento de câncer. Quem mora numa cidade poluída, quem fuma, quem se alimenta com fast-food, quem come muito açúcar, quem usa drogas inibidoras do sistema imunológico, quem dorme pouco, quem se estressa no trabalho, quem tem muitos problemas pessoais, quem usa muitos cosméticos, cremes e outros produtos químicos, quem vai pouco ao sol e quem faz pouco exercício físico tem uma probabilidade absurdamente maior de desenvolver câncer que uma pessoa com hábitos considerados saudáveis. Não seria mais interessante usar as pesquisas genéticas nesse sentido? Dizer à mulher: olha, você tem, teoricamente, uma probabilidade maior de contrair câncer, assim, é muito importante que você tenha uma rotina saudável e faça exames de rotina.
O que mais me incomoda nessa questão específica é que se trata duma intervenção violenta, aplicada à mulher e justamente à sexualidade da mulher. Ataca-se a reprodução feminina. Vejo vestígios duma sociedade casta e moralista nesse procedimento, a crença de que a sexualidade feminina leva à degradação. Ninguém corta o saco dum homem por probabilidade de câncer, mas arranca-se os seios da mulher na maior naturalidade. A virilidade do homem é tão importante quanto o pulmão, porque a reprodução feminina não o seria? Conheço mulheres que tiveram câncer e retiraram os seios. A grande maioria está super bem e se livrou 100% do problema. O importante é que fizeram exames preventivos. Agora, antecipar-se ao câncer retirando seios, ovários e trompas, porque a indústria desenvolveu um suposto teste de probabilidade é insano. É um desrespeito à mulher. É dizer que os órgãos reprodutores e os seios são dispensáveis. É reduzir à mulher. É um desenvolvimento covarde da medicina.
observação (25/3/2015): respeito 100% a opção de Angelina. é um direito dela decidir sobre o próprio corpo. preocupa-me apenas que outras mulheres possam ser induzidas, por esses exames e pela divulgação na mídia, a tomar a mesma decisão extrema, quando existem outros caminhos e quando se trata apenas de probabilidade. probabilidade não é fato, e cálculo de probabilidade, quando se trata de doenças e de curas, é um dos campos mais polêmicos que existem na medicina. mas repito: cada mulher faz o que quer.
Sunday, March 15, 2015
manifestações de 15 de Março de 2015
o que não se pode, de maneira alguma, é reprimir as pessoas que hoje foram as ruas para protestar. a manifestação é um direito legítimo, absoluto e intocável numa democracia. negar esse direito, ao afirmar que os manifestantes incentivam um golpe, é viver a realidade do golpe, que se caracteriza, justamente, pela proibição da livre manifestação.
Friday, December 12, 2014
mentira e verdade
Penso que há dois opostos que nos dificultam o dia a dia: um
é a mentira, o outro é a verdade.
Friday, November 28, 2014
arte e cachaça
cheguei a conclusão de que a arte é a cachaça dos fracos. a cachaça dos fortes é cachaça mesmo.
Tuesday, October 07, 2014
legalizar o aborto?
discussão polêmica: a defesa do aborto virou um must entre
as pessoas supostamente instruídas. em defesa do aborto, pesa o direito de
opção da mulher para encerrar uma gravidez e a preocupação com a saúde das mulheres
(uma vez que abortos clandestinos causam muitas vítimas). na discussão, oculta-se,
porém, uma bandeira importante: o direito à vida das crianças na barriga. evidentemente,
as crianças não nascidas não dispõem de mecanismos para garantir a própria vida.
deveria o estado abandoná-las à sorte? é preciso lembrar que os abortos, ao
contrário de 30 anos atrás, tornam-se cada vez mais rotineiros. se entre as
décadas de 1950 a 1990 o aborto fosse tão comum como é hoje, talvez 10% de nós,
que estamos aqui discutindo, não teria nascido. é pra se pensar. hoje existem
exames genéticos cada vez mais precisos, que adiantam a cor dos olhos, a provável
altura e eventuais doenças genéticas da criança que está para nascer.
conhecendo a loucura humana, é certo que haverá mães que optarão por fazer um
aborto, pelo fato da futura criança ter olhos escuros e um pé torto. o caso da
mulher que morreu recentemente em Niterói, após fazer um aborto clandestino, é
um bom exemplo: ela tinha três filhos saudáveis e o marido queria ter o quarto
filho, mas, mesmo assim, ela interrompeu uma gravidez no quinto mês, pois
acreditava que um novo filho iria atrapalhar a vida profissional. quem já viu
exames de ultrassom sabe que no quinto mês de gravidez a criança está formada. o estado não deveria proteger essa criança?
Thursday, September 18, 2014
momento Narcisa
após o vídeo hilário de Narcisa Tamborindeguy na ARTRIO,
confesso que já tive um momento Narcisa. foi no início da década passada. eu passeava
pelo Shopping Cassino Atlântico, quando me deparei com um vernissage na hoje
extinta Galeria 21, dos queridos Afonso Costa e Valéria Braga. receberam-me com
uma taça de champanhe, e quando dei por mim estava de pileque e admirava obras
de arte que eu não fazia ideia de quem eram. a certa hora, deparei-me com uma
gravura que imediatamente reconheci ser de Oswaldo Goeldi. perguntei à Valéria
Braga pelo preço da gravura. ela, para minha surpresa, puxou um homem na casa
dos quarenta pelo braço e disse: “pergunte ao artista.” fiquei perplexo; pelo
que eu sabia Goeldi estava morto fazia algumas décadas, mas, pego de surpresa e
com champanhe na cabeça, resolvi tirar a história a limpo, virei-me para o
artista e perguntei: “você é o Goeldi?” a resposta foi um fulminante olhar de
desprezo. sem nada dizer, o artista deu me as costas e abandonou-me com minha
dúvida ignorante. mais tarde descobri que se tratava de uma intervenção no
trabalho de Goeldi e que o artista que me fora apresentado era o interventor,
Nuno Ramos.
o que Narcisa e eu temos em comum nesses dois momentos é
que quebramos a rígida norma de como se comportar no meio das artes. cometemos
o pecado capital de fazer perguntas tolas num meio que se proclama aristocrático.
o curioso é que a arte, como expressão da liberdade, tem como principal
objetivo, justamente, a quebra de hierarquias engessadas. muitos se perguntam
de que maneira a arte poderá evoluir daqui para frente, uma vez que todas as
barreiras criativas já foram superadas. talvez o caminho seja a queda da torre
de valetes, e o futuro da arte esteja na simples reconstrução horizontal. talvez
também não. mas certo é que episódios como o protagonizado por Narcisa devem nos
levar à reflexão; afinal, pode um ambiente com rígidos protocolos promover a livre
expressão?
Sunday, July 27, 2014
palavras e fotos
queria
poder fotografar as palavras. registrar o instante preciso que uma palavra
representa em determinado momento. palavras são camaleões emocionais, nunca,
jamais, repetem o mesmo significado. o frio de hoje é diverso do frio de ontem.
o amor de João é diferente do amor de Maria. gostaria de fotografar as palavras
para poder congelar exatamente o que se quis dizer em certo instante. depois que ditas, ninguém sabe repetir o que significam.
Sunday, July 20, 2014
conflito Israel x Palestina
o assunto mais ingrato para se comentar é o conflito
Palestina x Israel. quão maior o esforço de abordar a questão de forma neutra, maior
a certeza de que aquele conflito é um espelho de milhares de conflitos em todo mundo.
aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, vivemos situação bem parecida; milhares de pobres residem
praticamente trancafiados nas favelas e têm como principal apoio organizações
humanitárias e organizações criminosas locais. aqui não existe uma fronteira
física separando os dois lados, mas a fronteira invisível existe, e o lado de
cá não aprecia quando o lado de lá se aventura pelos shoppings e cinemas da área
nobre. a invasão militar, como resposta a crimes, também é um método que nós
usamos. quando um bandido de uma favela assassina uma mocinha da área nobre, o
Bope invade aquela favela e a ação também traz como efeito colateral a morte de
alguns civis. nossa sociedade, assim como Israel faz em relação à Palestina,
acostumou-se a tolerar a morte de civis nas favelas, quando o pretexto é manter
a ordem e reprimir criminosos que lá se escondem. por isso, não me sinto em
posição de opinar no conflito Israel x Palestina. creio ser preciso, antes de opinar
em conflitos alheios, arrumar a própria casa. desafio qualquer um a comparar o
número de civis mortos pela polícia brasileira ao de civis palestinos mortos
pelo exército de Israel. a nossa guerra causa mais mortes.
Saturday, July 19, 2014
a estranha moda das doações em festas infantis
a tradição de presentear o aniversariante originou-se nos
ritos religiosos: da mesma maneira que se acendia velas nos templos e se fazia
oferendas aos deuses, presentear o aniversariante (e acender velas no dia do
aniversário) era um gesto de desejar boa sorte e pedir proteção para o ano que
se iniciava. aos poucos, a tradição religiosa transformou-se num ato de carinho
com o aniversariante. finalmente, virou obrigação – ir num aniversário sem
presente é falta de educação. essa obrigação transformou o antigo rito num
festival capitalista. hoje, quando vamos num aniversário de criança, é preciso
passar antes numa loja de brinquedos. o resultado é, na regra, um monte de
presentes de plástico que são deixados de lado pela criança aniversariante após
poucos dias.
algumas mães, cientes desse consumo que perdeu o sentido e ecologicamente incorreto, resolveram
mudar o rito: pedem que os convidados façam doações a uma instituição que cuida
de crianças carentes. a iniciativa é em si muito nobre, mas distorce tanto a
origem do presente como o gesto carinhoso que o presente representa. pelo ponto
de vista da origem, deixamos de desejar sorte ao aniversariante; pelo ponto de
vista do carinho, ficamos impedidos de dar algo pessoal para o filho dum amigo
numa data especial.
sou 100% a favor de filantropia e penso que, num país desigual
como o Brasil, temos todos o dever moral de contribuir de alguma forma (seja
com dinheiro, com ajuda braçal, com doação de roupas ou até mesmo com
aconselhamentos) para ajudar pessoas carentes ou ignorantes, mas penso também que
é preciso tomar cuidado, para não distorcer o sentido dos gestos. quem quer
fazer filantropia, faz por livre vontade, não porque os pais dum aniversariante
pediram. e quem quer dar um presente para o filho dum amigo, tem o direito de
dar o presente.
Friday, May 30, 2014
raízes
penso que hoje o grande problema do Brasil é a
complexidade emocional que o país demanda dos brasileiros. não é a toa que
vivemos uma onde de violência sem precedentes, seja nas manifestações
enfurecidas, nos atos exaltados de grevistas, no roubo na esquina ou na
banalização de desentendimentos entre vizinhos. o constante bombardeio por
injustiças e corrupção, a decadência do sistema político, a inércia operacional
do aparato público e a falência de setores primordiais, como educação e saúde, levam
os brasileiros a uma exaustão emocional diária, que, não é a toa,
transformaram-nos no maior consumidor de Rivotril do mundo.
qual a solução? mudar-se para fora do país não seria, também,
uma forma de rivotrilar-se? ficar e estressar-se à exaustão não seria um desgaste
desnecessário? creio que, quando tudo parece estar errado, a transformação está
em curso. o desequilíbrio do meio é, talvez, a maior escola da alma humana. por
isso, chega dessa conversa de sair do Brasil. aqui é o nosso lar. aqui é nossa
escola da vida. árvore que cresce durante a tempestade cresce apta a enfrentar qualquer
turbulência futura. o segredo é não descuidar das raízes.
Friday, May 23, 2014
massa humana
quem conseguir por um instante quebrar qualquer vínculo prático
ou emocional com o mundo perceberá que, apesar de tantos males, não há nada
mais apaixonante que a massa humana. é na absoluta contradição que somos
fascinantes. como fagulhas dum imenso fogo, na tentativa de preservar a madeira
que as chamas consomem.
Sunday, May 18, 2014
porta para o novo
e de repente surge uma porta. vaga-se por semanas, meses, anos,
sem encontrar saída, então, de forma aparentemente inexplicável, surge uma passagem.
espia-se pela fechadura, e o novo arranca as entranhas da zona de conforto. o impulso
é trancar a porta e apegar-se ao antigo, que, até então, não trazia atrativo
algum, mas o antigo se dissolve e deixa somente duas opções: atravessar a porta
e viver o novo ou permanecer e dissolver-se também.
Monday, May 12, 2014
tempo de retração (greve de ônibus e de professores)
voltemos, então, aos tempos do homem da caverna; sem ônibus, só nos resta ficar em casa, e, sem professores, às crianças também. da televisão se faça a nova alegoria da caverna, imagens do mundo nas paredes dos lares. existe solução? dentro do sistema, definitivamente não. quando o caos se consolida ao ponto de nos jogar de volta às opções primitivas dos primórdios, só nos resta descartar o universo que julgávamos compreender. é tempo de retração.
Thursday, December 12, 2013
projeto Porto Maravilha e o caos provocado pelas chuvas
grande parte dos investimentos feitos no Rio de Janeiro estão indo para o projeto Porto Maravilha. a pergunta inevitável, após o caos das chuvas: o Porto Maravilha é prioridade? discordo das comparações com Buenos Aires, pois são duas realidades distintas. Buenos Aires não tinha áreas de lazer em contato com a água, por isso revitalizaram o porto. uma vez que a capital da Argentina beira o famoso Rio da Prata, era fundamental, para o turismo da cidade, que a região portuária, em contato com o Rio da Prata, fosse revitalizada. No Rio de Janeiro, o grande atrativo turístico e de lazer são Ipanema, Copacabana e todas as outras praias (além de museus, Corcovado etc). Muito mais importante, para o turista e o carioca, do que revitalizar o porto, seria despoluir, de uma vez por todas, as praias. também seria infinitamente mais barato. e o com o restante da verba, seria possível resolver questões que se alastram por décadas, como o alagamento da Av. Brasil em dias de forte chuva e o estado precário do Museu da Quinta da Boa Vista. não sou contra a revitalização do porto; apenas considero que há centenas de outras prioridades.
Saturday, November 30, 2013
doce vida insana
doce vida: estava sozinho no escritório, os olhos fixos na
tela do computador. desvio o olhar e vejo um passarinho amarelo pousado no
parapeito da janela, olhando para dentro da sala. parei o que fazia e observei o
pássaro que lá ficou por um minuto. eu trabalho naquele mesmo escritório há
quatro anos, e nunca antes um pássaro admirou minha sala. quanto mais eu penso
sobre esse momento singular, mais tenho a certeza de que não há qualquer lição
ou ensinamento no episódio. tratou-se, somente, dum pássaro observando minha
sala. o encanto daquele momento está justamente nessa ausência de qualquer propósito,
como o sorriso das crianças ou a estrela cadente. são as sutilezas sem objetivos
que fazem doçura da vida insana.
Saturday, November 23, 2013
arte low cost
tenho minhas dúvidas a respeito dos tantos projetos
(sites, lojas, galerias etc.) de slogan “arte barata”. o chamariz é sempre o
mesmo: arte acessível, arte para todos os bolsos. incomoda que o critério
principal é o preço baixo das obras, fazendo uma suposta oposição ao mercado capitalista
da arte, que estaria promovendo preços exorbitantes. bem, no momento em que o
critério de seleção é o preço (mesmo que baixo), cai-se numa tremenda armadilha
contraditória: o critério primordial de qualquer mercado é justamente o
preço. ou seja, no final das contas, tudo gira em torno do preço, e a venda de
arte low cost é igualmente alinhada com o mercado. explora-se apenas um
público diverso das grandes galerias. algo como as lojinhas que vendem tudo
por 99 centavos.
Monday, October 21, 2013
instituto Royal e os testes em animais
há dois fatos que se misturam na questão do instituto
Royal: uma é a invasão do instituto; a outra é o uso de cães e gatos em
experimentos. vou me limitar apenas aos experimentos.
poucos séculos atrás, havia escravos no mundo, e dizia-se
que, sem escravos, não haveria a possibilidade de se promover o progresso da
humanidade. foi preciso muita pressão e ativismo, para derrubar as verdades
enraizadas nas sociedades daqueles tempos. hoje, a humanidade quer que se encontre
métodos alternativos para experimentos com animais.
é uma posição extremamente confortável dizer que não há
outro caminho. não há, porque não há pressão para que haja. se deixássemos, os
laboratórios testariam remédios em crianças, aliás, há milhares de relatos de
experimentos ilegais com pessoas na África. se hoje ainda não existem caminhas
alternativos, os ativistas querem, ao menos, limites. cães e gatos são animais
de estimação, que nos são muito próximos. da mesma forma que é proibido comer
cães, pessoas querem o fim dos experimentos com cães. querem que se limite os
experimentos, enquanto não haja outra alternativa, aos ratos de laboratório; e
que, a curto, médio ou longo prazo, também os ratos sejam poupados desses
testes cruéis.
Thursday, October 17, 2013
a polêmica em torno de chico buarque
sempre achei exagerado o culto em torno de chico buarque, um exemplo clássico em que o público confunde criação com criador. a verdade é que chico canta bem, chico escreve bem, chico tem olhos verdes e ponto. tudo além é imaginação. por isso, agora, esse ódio exagerado, como se a máscara de chico tivesse caído. é preciso perceber que chico nunca vestiu máscara alguma, sua imensa legião de fãs é que o mascarou de homem perfeito. agora, faz-se um falso demônio do falso santo. o chico pessoa é apenas um sujeito igual a nós, com opiniões controversas e talvez equivocadas, como todos nós as temos. o mesmo vale para caetano e roberto carlos. é preciso parar de dar tanta importância às opiniões dos artistas; o que conta é o que criaram. afinal, um rouxinol também canta como poucas aves, mas nem por isso é formador de opinião no reino animal.
Tuesday, September 03, 2013
velas ao vento, navegante
existe algo maior que o brilho nos olhos dum jovem, aquele
luzir arrogante que atropela pessimismo e desesperança, desafiando-nos a ver um
futuro renovado, em que sonhos e certezas se fundem num aconchego, num abraço
de esperança incontida, revelando que nossas verdades não passam de tolas cicatrizes,
traumas de um mundo que parece punir os sonhadores, enquanto, na verdade, apenas
pune os que desistem? velas ao vento, navegante.
Sunday, August 18, 2013
sonhadores x céticos
até entendo que há quem não acredite em mudanças. mesmo que
ao longo de, sei lá, talvez uns 200 anos, a Europa passou de reinados e impérios
autoritários a democracias consolidadas, há pessoas que acham que nada muda,
convictas de que se expressar contra o sistema é uma pura perda de tempo. até
aí, tudo bem, cada um com suas convicções. agora, o que eu não consigo entender
é por que esses céticos tanto se incomodam com quem sonha com um Brasil melhor.
parece-me que a simples esperança dos sonhadores ameaça a inerte zona de
conforto em que os descrentes se instalaram. o que os incrédulos não percebem é
que aqueles que sonham com um país melhor desejam melhorias que beneficiarão todos,
inclusive os céticos, e só por isso já merecem ter sua causa legitimada. em
comparação, a inércia de um descrido favorece somente o conforto próprio, a
manutenção de hábitos automatizados, que, de alguma forma, tornam aceitáveis
ser refém de um sistema injusto e doente.
Thursday, August 01, 2013
Thursday, July 25, 2013
o papa no Rio de Janeiro
nada tenho contra o papa ou qualquer outro líder religioso.
o que me enlouquece é essa sequência de eventos que prejudicam o ritmo de
trabalho no Rio de Janeiro. para-se pro Ano novo, em seguida, pro Carnaval,
depois, pra Semana Santa e, quando finalmente o ano deveria começar, temos Copa
das Confederações e Feriados do Papa.
existe essa máxima de que os eventos são benéficos para a cidade,
mas mesmo eu, que dependo diretamente do turista no meu negócio, tenho prejuízo
com eventos. contradição? não. o turista de evento é conhecido por consumir
pouco. o fã de futebol tem os centavos contados para comprar entradas pros
jogos e cerveja. o folião de rua vem para desfilar nos blocos e, também,
consumir cerveja. o peregrino nem cerveja consome. existem estudos mostrando
que a economia gerada em torno de eventos fica, na regra, bem abaixo do
esperado. telefonei para uma loja dum dos maiores pontos de turismo do rio e
perguntei se estavam vendendo bem, a reposta: muitos turistas, eles entram nas
lojas, olham tudo e levam, no máximo, um chaveirinho de recordação. o peregrino
vem para visitar um evento e não a cidade, assim, existe uma relação menor de
consumo. o grande interesse é o evento, caso o mesmo evento fosse do outro lado
do mundo, ele iria pro outro lado do mundo. ou seja, visitar a cidade, no caso,
o Rio de Janeiro, é somente consequência e não prioridade.
os turistas de eventos lotam os hotéis e acabam, assim,
afastando o turista comum, aquele que vem com a família, para visitar a cidade. o
turista comum compra nos shoppings, consome no ponto de turismo, vai nos bons
restaurantes e assim por diante. o turista comum, do dia-a-dia, está de férias,
e quer usufruir ao máximo do descanso na cidade que ele escolheu a dedo, entre
tantas outras possíveis. por isso, ele se dá o luxo de gastar um pouco a mais,
assim como nós, quando vamos ao exterior fazer turismo.
sediar um evento de grande porte, então, no período de
férias escolares, momento de maior fluxo de turismo comum, não faz qualquer
sentido para o Rio de Janeiro. se eu, que vivo diretamente do turismo, não tenho
vantagem econômica em eventos, imagine uma proprietária de lojas de tecido, o
florista, o corretor de imóveis, o oculista e tantos outros.
é claro que a questão não é sobre mim, o oculista ou o
florista. é sobre o conjunto de todos nós, nós cariocas, que somos o Rio de
Janeiro. a pergunta que é preciso se fazer daqui pra frente: vale a pena, para nós,
sediar esses megaeventos? não seria melhor investir no turismo comum,
explorando o enorme potencial turístico que o Rio de Janeiro tem? acredito que
eventos de grande porte sejam muito mais atraentes para cidades que, na norma,
não tem um grande fluxo de turismo. não é o caso do Rio.
Monday, July 22, 2013
a questão da alto dos aluguéis no Rio de Janeiro
de uns cinco anos pra cá, os preços dos imóveis na cidade do Rio de Janeiro dispararam, e não houve nem há iniciativa política para reverter esse cenário. é como se a alta dos imóveis fosse um realidade sem solução. fala-se muito nos fatores que levaram a elevação dos preços, mas não há qualquer movimento, por parte de nossos governantes e legisladores, para combater essa distorção que afeta, de forma negativa, a economia da cidade.
o custo dos imóveis tem impacto em inúmeros serviços, por exemplo, os prestados por escolas, restaurantes, consultórios médicos e oficinas, pois, com o aumento de aluguéis, os estabelecimentos são obrigados a repassar o alto custo fixo aos serviços ofertados.
acompanho o mercado de aluguéis no Rio de Janeiro há mais de 10 anos, pois vivo em imóvel alugado. o que mais chama a atenção é a diminuição de imóveis disponíveis para alugar. uma rápida busca nos classificados ZAP mostra que, para cada seis apartamentos a venda no Rio de Janeiro, existe somente um para ser alugado, ou seja, uma proporção venda/aluguel de 6/1, enquanto, num mercado equilibrado, essa proporção, na regra, gira em torno de 2/1. antigamente, quando eu queria alugar um imóvel, a decisão era minha. hoje, a decisão é do proprietário, pois, pra cada imóvel dentro de meu orçamento, existem outras 10 pessoas interessadas. sobra procura e falta demanda de apartamentos para alugar, o que faz o preço disparar.
a razão de existirem muitos apartamentos a venda e poucos para alugar já foi explicada, exaustivamente, por analistas de mercado: 1) os preços altos de venda impossibilitam a compra por grande parte da população, saturando o mercado de aluguéis. 2) com a alta do preço dos imóveis, quem tem um imóvel extra quer realizar o lucro (pôr os milhões no bolso), com receio de que a valorização seja temporária. 3) mesmo os alugueis estando muito altos, existe um limite do que a renda familiar média permite gastar com aluguel, fazendo com que vender um imóvel e aplicar esse dinheiro seja mais lucrativo do que pôr o imóvel para alugar.
é nesse ponto que se evidencia a ausência de inciativa de nossos governantes. não existe qualquer política para trazer os imóveis parados, no balcão de venda, de volta para o mercado de aluguel, forçando, assim, uma queda dos preços de aluguéis. há dois mecanismos simples que poderiam ser implantados:
- a prefeitura poderia isentar, temporariamente, imóveis alugados de IPTU. essa iniciativa baixaria também o preço de venda dos imóveis, pois seria mais interessante alugar e fugir do IPTU, do que financiar e pagar o IPTU, desestimulando a especulação imobiliária.
- o governo federal poderia diminuir, também temporariamente, o IR sobre o aluguel de imóveis (que chega a 27,5% do valor recebido) torando o aluguel mais interessante para os proprietários de imóveis. nesse caso, a diminuição só valeria para quem tivesse, no máximo, dois imóveis para alugar, evitando assim mais especulação imobiliária.
citei apenas duas ideias que me ocorreram, mas certamente existem outros mecanismos, inclusive, para diminuir o valor de compra e venda. a disparada dos preços de imóveis é vista com total inércia por nossos governantes, como se fosse uma variável impossível de ser influenciada, mas não é.
o custo dos imóveis tem impacto em inúmeros serviços, por exemplo, os prestados por escolas, restaurantes, consultórios médicos e oficinas, pois, com o aumento de aluguéis, os estabelecimentos são obrigados a repassar o alto custo fixo aos serviços ofertados.
acompanho o mercado de aluguéis no Rio de Janeiro há mais de 10 anos, pois vivo em imóvel alugado. o que mais chama a atenção é a diminuição de imóveis disponíveis para alugar. uma rápida busca nos classificados ZAP mostra que, para cada seis apartamentos a venda no Rio de Janeiro, existe somente um para ser alugado, ou seja, uma proporção venda/aluguel de 6/1, enquanto, num mercado equilibrado, essa proporção, na regra, gira em torno de 2/1. antigamente, quando eu queria alugar um imóvel, a decisão era minha. hoje, a decisão é do proprietário, pois, pra cada imóvel dentro de meu orçamento, existem outras 10 pessoas interessadas. sobra procura e falta demanda de apartamentos para alugar, o que faz o preço disparar.
a razão de existirem muitos apartamentos a venda e poucos para alugar já foi explicada, exaustivamente, por analistas de mercado: 1) os preços altos de venda impossibilitam a compra por grande parte da população, saturando o mercado de aluguéis. 2) com a alta do preço dos imóveis, quem tem um imóvel extra quer realizar o lucro (pôr os milhões no bolso), com receio de que a valorização seja temporária. 3) mesmo os alugueis estando muito altos, existe um limite do que a renda familiar média permite gastar com aluguel, fazendo com que vender um imóvel e aplicar esse dinheiro seja mais lucrativo do que pôr o imóvel para alugar.
é nesse ponto que se evidencia a ausência de inciativa de nossos governantes. não existe qualquer política para trazer os imóveis parados, no balcão de venda, de volta para o mercado de aluguel, forçando, assim, uma queda dos preços de aluguéis. há dois mecanismos simples que poderiam ser implantados:
- a prefeitura poderia isentar, temporariamente, imóveis alugados de IPTU. essa iniciativa baixaria também o preço de venda dos imóveis, pois seria mais interessante alugar e fugir do IPTU, do que financiar e pagar o IPTU, desestimulando a especulação imobiliária.
- o governo federal poderia diminuir, também temporariamente, o IR sobre o aluguel de imóveis (que chega a 27,5% do valor recebido) torando o aluguel mais interessante para os proprietários de imóveis. nesse caso, a diminuição só valeria para quem tivesse, no máximo, dois imóveis para alugar, evitando assim mais especulação imobiliária.
citei apenas duas ideias que me ocorreram, mas certamente existem outros mecanismos, inclusive, para diminuir o valor de compra e venda. a disparada dos preços de imóveis é vista com total inércia por nossos governantes, como se fosse uma variável impossível de ser influenciada, mas não é.
Thursday, July 18, 2013
construindo um Brasil novo
após ler alguns relatos de conhecidos e amigos, e ver a
cobertura na mídia dos protestos de ontem, chego a conclusão de que a culpa de
tudo é dos “baderneiros”. o grande mal que assola o Brasil está aí,
personificado, nessa meia-dúzia de gatos pingados que quebraram duas agências
bancárias, saquearam duas lojas e incendiaram algumas lixeiras no Leblon. vejo gente
se queixando que os baderneiros impedem o direito de ir e vir da população e
que, ao invés de fazer arruaça, deveriam enviar suas reivindicação aos
políticos. outros afirmam ser um absurdo que os baderneiros atrapalhem o
simpático jantar no restaurante do Leblon, e exigem que a polícia seja rigorosa
e impiedosa com essa laia de revoltos.
há algo no ar como: queremos voltar à normalidade. chega
de baderna! queremos as ruas sem vândalos, livres para os carros! queremos o
direito de ir a um restaurante na esquina de casa.
a questão, porém, é: o que é voltar à normalidade? retomar
o Brasil de dois meses atrás que deixa bilhões de reais evaporarem no ralo da
corrupção? retomar o Brasil do metrô fraudulento, do hospital em que morrem 20
bebês em dois dias, das escolas com goteiras, dos professores sem salários decentes, dos
médicos de Cuba, da cantora inaugurando obra pública com cachê milionário, dos deputados
condenados presidindo a comissão de constituição e justiça, dos homofóbicos presidindo
a comissão de direitos humanos, dos vereadores passando o dia concedendo
benefícios a parentes, dos presídios superlotados, da polícia com um dos menores índices de resolução de crimes do mundo, das estradas esburacadas, dos
aeroportos caindo aos pedaços? é esse Brasil que vocês querem de volta? vocês
juram que o problema está no grupo de manifestantes inconsequentes que ontem quebrou
algumas agências bancárias?
é cômodo viver entorpecido num sistema, seja lá qual for
o sistema. o confronto sempre incomoda, pois o novo traz incertezas e exige
posicionamentos. mudar de rotina incomoda. mas é essa a grande escolha que
todos nós precisamos fazer agora: queremos viver no Brasil de ontem, ou
construir o Brasil do amanhã. caso a opção seja pelo novo, é preciso entender
que não existe um caminho previsível, onde tudo ocorre na mais perfeita harmonia.
é claro que o desejo de todos é ver manifestações pacificas, sem quebra-quebra,
nas quais policiais recebem flores de manifestantes vestidos de branco. o novo,
porém, não se constrói com essa previsibilidade. o novo traz fatores
inimagináveis e exige posicionamentos que esgotam a nossa zona de conforto. o
novo é jovem, incerto, ousado, inexperiente, e, por isso mesmo, muitas vezes se
excede. cabe à sociedade transformar e moldar esse novo, assim como se educa um
filho por longos anos. o Brasil novo não cairá em nosso colo na perfeição utópica
que reúne nosso sonhos e desejos. precisamos aceitar, perdoar e corrigir os
excessos que são inerentes à natureza do novo. afinal, quantas vezes é preciso
perdoar uma criança por quebrar um vazo de flores?
Monday, July 15, 2013
apague as luzes
apague as luzes, baixe as persianas, cerre as cortinas,
para acender uma vela na mesa de jantar. esqueça-se da cidade, do faz de conta
urbano, e prenda a atenção na chama, que dança no vai e vem do seu pulmão. deixe
o tempo ser um fluxo constante e indivisível, antagônico a segundos, minutos e
horas, que, sabe-se lá quando, impuseram um ritmo à percepção humana. sinta seu
lar; a estante com estranhos objetos, o sofá surrado, a mesa de centro com alguns
livros que ninguém lembra se algum dia folheou. veja o reflexo da vela no
lustre apagado, e tente recordar quando ou por que escolheu-se aquele lustre.
repare na tevê desligada para concluir que sim, muitas vezes, ela é querida
companheira. todo esse conjunto é você. a paz de sua sala, iluminada por uma
simples vela, é a sua paz. lá fora, um carro buzina, já não incomoda.
Monday, July 01, 2013
primavera brasileira
aos poucos, os gritos viram burburinhos, e a frente fria
espanta os últimos dos exaltados das avenidas, as vozes do verão se calam, e um
longo inverno incógnito se anuncia às almas exauridas. foram semanas intensas
que vivemos. emoções caminharam do descrédito à euforia e, agora, acomodam-se
na incerteza que reside na esperança receosa. quais serão os frutos desta
primavera fora de estação? na minha rua, alguns meninos chutam bola, e me dou
conta de como tudo está entrelaçado. está lá, o nosso futuro, na descalça
algazarra, mostrando que, pelo menos na primavera da vida, o gol vem antes da
responsabilidade. alegro-me por eles.
Tuesday, June 25, 2013
Friday, June 21, 2013
o despertar
o momento de despertar é incrível. de repente, tudo de
insignificante perde a força. as publicidades coloridas, nas ruas e tevês, agora,
nada mais me dizem, parecem estranhas peças de museu, relatos de um tempo ao
qual não pertenço. o sorriso do famoso garoto propaganda, na porta da agência
bancária, é desprovido de qualquer significado, a mensagem não consegue
alcançar meus receptores. nos jornais, notícias da vida das celebridades são espaços
vazios que não atraem meus sentidos. o comentário do famoso jornalista da tevê
tem o mesmo valor do comentário do porteiro, ambos são somente pessoas opinando,
assim sou eu, assim somos nós. minha consciência parece ter dado um pulo milenar, e a sombra
do sistema que pairava sobre meus olhos, agora, não passa de purpurina
desfazendo-se na brisa de um novo tempo.
amigos, nada mais será como antes. o despertar desses dias
não se restringe ao desmandos de nossos políticos. o sistema está desmoronando.
o fim de uma era, anunciado no calendário maia, está concretizado. nasce um
novo milênio, um novo tempo, um despertar coletivo.
Wednesday, June 12, 2013
falando das manifestações em São Paulo
é evidente que sou contra a depredação do espaço público,
de ônibus e de agências bancárias. todos nós somos. se as manifestações
continuarem do jeito que estão, haverá feridos e, talvez, até mortos, o que
precisa ser evitado a todo custo. tanto a polícia como os manifestantes devem
conter os ânimos e buscar minimizar os prejuízos.
dito isso, é fato ser quase impossível conter a revolta
de uma multidão. assim, o bom senso deve partir dos governantes e comandantes
da polícia. o Governador de São Paulo deve parar de acusar os manifestantes de vândalos,
ter humildade e perceber que a população está descontente.
ninguém ali está protestando, realmente, contra o aumento
da passagem de ônibus. o aumento das tarifas é somente o estopim da revolta. a
população sentiu o custo de vida subir, gradativamente, nos últimos anos, sem
que os salários acompanhassem a alta dos preços. anualmente, vereadores, juízes
e outros funcionários públicos do alto escalão aumentam seus salários e se
concedem novos benefício, enquanto a população recebe aumentos irrisórios.
ao mesmo tempo, há sucessivos escândalos de corrupção,
sem que os culpados sejam responsabilizados. alguma hora, é óbvio, a corda da
tolerância se estica e arrebenta, resultando no que estamos vendo: pessoas
dispostas a enfrentar a força policial por uma diferença de 20 centavos na
passagem de ônibus.
o que os governantes, vereadores e altos funcionários públicos
podem fazer para conter os ânimos? descer do pedestal. cortar benefícios luxuosos
como carrões com motoristas, passagens áreas, auxílio moradia e,
principalmente, salários de marajás. não podemos viver num país onde, por
exemplo, o vereador ganha 10, 15, 20 vezes a mais do que um professor, um policial
ou um bombeiro. tenho um imenso respeito pela classe de vereadores e sei que
fazem um trabalho árduo, mas os professores também o fazem. o que é mais
importante para a sociedade? um vereador
ou um professor? no mínimo, têm importância igual, assim, devem receber
salários iguais.
o Brasil precisa encontrar uma maneira de trazer
igualdade para a sociedade. as discrepâncias salarias precisam terminar,
principalmente, dentro do aparato público. a qualidade dos serviços públicos carece
de eficiência. corruptos precisam ser retirados da carreira pública e punidos.
é o único caminho. na história da humanidade, não há exemplo de uma sociedade
tolerando, para sempre, os desmandos e abusos de seus governantes. que a
revolução francesa, outra vez, sirva de aviso.
Friday, May 24, 2013
teoria da árvore
hoje tive a percepção de que somos como árvores, enraizados em nosso contexto emocional e de vida em geral. assim como uma árvore tem um espaço físico determinado, por exemplo, um lugar no pantanal, nós também o temos; o nosso espaço é, apenas, mais complexo. o fato de caminharmos, aparentemente livre, pelo planeta conduz à crença de uma mobilidade que não existe. somos atados a nossa história, tempo, origem e família, sistema de crenças, corpo físico, experiências, aprendizados e tudo mais que compõem o nosso lugar individual num complexo entranhado, que se assemelha a uma imensa floresta tropical. temos que nos nutrir com aquilo que encontramos a nosso redor, gostemos ou não. as dificuldades precisam ser contornadas, pois assim como uma árvore não pode fugir do solo árido, não podemos virar as costas pras adversidade que a vida nos apresenta. o único objetivo, assim, é o crescimento, como é o de qualquer árvores ou planta, em direção à luz, sem se esquecer que os nutrientes, tão necessários ao crescimento, vêm do espaço particular que cada um de nós ocupa.
Friday, May 03, 2013
Friday, March 29, 2013
as vezes me dou conta que moro num dos bairros mais intensos, de uma cidade fervorosa, de um país veemente - como só é o Brasil. então, deixo de me irritar por alguns minutos com toda desorganização que compõe esse caos reinante; percebo que, de certa forma, a alma de minha realidade é um pulso frenético e descontrolado, que dá vida às mais inimagináveis e imprevisíveis manifestações urbanas. e, neste singular momento, entendo, que, com todos os problemas que possamos ter, é um privilégio imenso viver em toda e qualquer cidade brasileira. trata-se de uma experiência única. imagino-me chegando certo dia no pós-morte, com um espírito qualquer me perguntando: você veio da onde? e eu respondo: do brasil! e o outro diz: caramba, que inveja, minha experiência de vida foi num povoado pacato nos alpes suíços.
Friday, February 08, 2013
A arte nas fotos de Massimo Vitali
Por qual razão o registro de
uma praia de Massimo Vitali (veja imagem deste post) é considerado Arte, enquanto um registro de uma praia intocada não o é? O
registro da praia intocada aborda uma ideia simples e já finalizada, assim
como, na regra, toda foto de natureza. Tirando-se a beleza das formas, há,
somente, sensações como paz e plenitude, mas não um aprofundamento emocional. Se
houvesse, na mesma praia intocada, um objeto capaz de quebrar a harmonia óbvia
da natureza, por exemplo, um homem pescando de terno rosa, as sensações
transmitidas pela natureza seriam somente o início de uma mensagem, que se
estenderia através do pescador de terno, levando, assim, à transformação do
observador. É o que ocorre nas fotos de Massimo Vitali: o posicionamento dos
frequentadores das praias traz sensações complexas.
Ainda sobre o valor artístico das fotos de Massimo
Vitali, a arte é um processo em constante evolução. Obras novas desenvolvem-se
a partir de obras antigas, as ideias de ontem formam os conceitos de hoje.
Retratar uma praia deserta não traz inovação alguma em relação as fotos de
Edward Weston e Ansel Adams. As fotos de Massimo Vitali, por sua vez, partem
dos registros clássicos do início do século XX, para apresentar uma nova
postura, de um mundo explorado, ao contrário dos registros clássicos, que, na
época, apresentavam um mundo a ser explorado.Wednesday, January 09, 2013
qualquer um poderia ter feito isso
Recentemente, um amigo disse não entender certas obras das
artes Moderna e Contemporânea. Ele referia-se a obras de fácil execução, como,
por exemplo, um quadro branco com listras pretas. O argumento foi aquela velha
história de que “qualquer um poderia ter feito aquela obra”. Para entender-se
por que obras de fácil execução são, sim, obras de arte, é preciso conhecer uma
linha de pensamento que iniciou-se no século XX e teve, como o mais ilustre
representante, Duchamp. Um grupo de artistas chegou a conclusão que a técnica é
inimiga do processo criativo, por interferir no fluxo do criador (o artista)
para a obra. Diziam que a obra de arte precisa ser o mais independente
possível, e, para isso, não deve trazer os traços pessoais do criador. Assim,
começaram a desenhar com réguas e utilizar-se de diversas outras artimanhas que
anulassem o aprendizado técnico do artista. O acaso, também, era considerado de
grande valor na criação, e era preciso dar espaço para que o acaso pudesse se
manifestar. Anos mais tarde, Jackson Pollock revolucionou este conceito, ao
criar o action painting, no qual a pintura se libertou, de vez, do domínio da
mão do artista.
Com outras palavras, na obra de arte de fácil execução, a
ideia e a inspiração predominam. O importante, para o observador, não é pensar
se ele, também, poderia ter feito aquela obra. É preciso deixar que aquela obra
de fácil execução exerça o papel de transformar as emoções do observador. É
interessante perceber que, como eu disse no meu post anterior, a arte se
constrói de liberdade e de criatividade. Quando se diz “qualquer um poderia fazer
essa obra de arte” está se induzindo a cópia, porque, na verdade, está-se
propondo que alguém repita o processo de fácil execução feito pelo artista.
Para quem ainda não concorda com esse pensamento,
proponho o exercício inverso. Na prática, qualquer um pode cursar as melhores
academias de arte e aperfeiçoar-se nas técnicas mais complexas que existem. É
algo como se tornar um engenheiro: a arte de difícil execução requer técnica
apurada e nada mais. Ou seja, quando se valoriza um quadro de difícil execução,
está-se, valorizando, na realidade, a técnica do artista, e não a emoção que o
artista transpôs para aquela obra.
Sunday, December 23, 2012
nem tudo que se admira é arte
Apolo, deus da luz e das artes, é filho de Zeus com Leto.
Zeus representa a energia primordial criativa, enquanto Leto é a deusa da
liberdade. Assim, seguindo-se o pensamento da mitologia grega, as artes nascem
quando há liberdade criativa. As duas premissas básicas para uma obra de arte
são, por tanto, criatividade e liberdade. Um ser livre, que copia, não cria
arte. Um ser criativo, ordenado a fazer certa obra, tão pouco, produz arte.
Seguindo-se este raciocínio, a maior parte das obras do renascimento não seriam
obras de arte, pois foram encomendadas pela Igreja. As cenas religiosas de
Rafael, Da Vinci e Michelangelo não seriam arte, pois são frutos do dogma
religioso. É uma afirmação ousada,
defendida por alguns estudiosos. Na prática, é difícil admirar um quadro de
Michelangelo e afirmar que não é arte. Talvez, a chave da questão esteja na
palavra admirar: nem tudo que se admira é arte.
Tuesday, December 18, 2012
leitura grátis
meu segundo romance - o último urso-polar, agora gratuito, na versão eletrônica, no site:www.colorfotos.com.br/urso-polar.htmMonday, December 17, 2012
Afinal, o que é uma foto de arte?
Afinal, o
que é uma foto de arte? Curiosamente, essa, que deveria ser mãe de todo
questionamento na fotografia de arte, é uma pergunta rara. Diversos fotógrafos
expõem suas fotos em galerias, em sites ou nas paredes de cafés e restaurantes,
na certeza de que se trata de obras de arte. Na regra, são encantados por suas
criações, sentimento comparável ao de crianças quando realizam os primeiros
feitos na vida. Há um grande abismo entre pintores e fotógrafos,
principalmente, no caso de iniciantes: enquanto pintores iniciantes costumam
ser tímidos e com dúvidas relativas à qualidade de suas criações, fotógrafos
carregam uma autoconfiança quase arrogante, uma certeza insana de que suas
fotos são de grande valor artístico.
Thursday, November 01, 2012
O Conto Azul de Leonardo da Vinci
Friday, October 05, 2012
em quem votar?
o problema não é o fato que não me identifico com nenhum dos candidatos. muito pior, é que não me identifico com nenhum partido. o PV, que se diz o partido sustentável e correto, faz uma zona danada aqui em copacabana, chega a ser cômico. há uma sede de campanha do PV próxima a minha casa, onde cartazes obstruem a passagem de pedestres, carros estacionam irregularmente e, de noite, liga-se o som com música eletrônica ao máximo, como se fosse uma rave. e assim é com todos os partidos. nenhum é fiel à própria filosofia e se envolvem, dia sim dia também, nos mais diversos escândalos.
Wednesday, August 22, 2012
vivendo através das lentes
Esta foto espetacular, publicada nos principais jornais
online do mundo, mostra a importância da fotografia no cotidiano das pessoas.
Reparem que, de sete pessoas observando a baleia jubarte, cinco seguram uma
máquina fotográfica na mão. Observar é
fotografar. De nada parece valer o momento, quando não registrado em foto. A
máquina serve, inclusive, de proteção: a moça do vestido preto, dificilmente,
estaria tão próxima e calma, não fosse pelo fato de estar fotografando. Cada vez
mais, experimenta-se os momentos através das lentes.
Tuesday, August 07, 2012
octamãe e o fracasso do governo dos EUA
nem nos EUA o serviço social funciona. todo mundo já deve ter lido que a mulher que teve óctuplos está tendo que, literalmente, dar o rabo para pagar as contas. o interessante é que o governo americano não ajuda. o governo apenas controla se as crianças estão sendo "bem criadas". caso não estejam, o governo retira a guarda e aí, sim, passa a custear as crianças em abrigos. não seria mais fácil, humano, correto e lógico ajudar a mãe enquanto ela estar com a guarda? considero esse episódio embaraçoso para os EUA. em tempo: se alguém quiser ajudar, pode fazer uma doação em gofundme.com
Tuesday, July 17, 2012
Livro Grátis sobre a Amazônia
Disponibilizei, de forma gratuita, a versão eletrônica de meu livro Tem um Louco Solto na Amazônia. Basta acessar o site http://www.colorfotos.com.br/louco-amazonia.htm e fazer o download.
Friday, July 06, 2012
Friday, June 22, 2012
Referência na fotografia
André Kertész foi uma dos fotógrafos de estilo mais marcante
na história da fotografia. Entre suas principais criações está uma série de
mulheres nuas e distorcidas A minha foto deste post é, assim, inspirada no
trabalho dele. Distorci o carro e deixei
o seio da mulher sem distorção, colocando os dois elementos de Kertész
na mesma imagem (distorção e nudez), invertendo, porém, o conceito: enquanto Kertész
distorcia o objeto do desejo, eu faço com que o objeto do desejo distorça o
mundo. Essa é a importância de se usar referências na fotografia de arte, pois
sem a referência minha foto perderia em força. É um processo muito diferente da
cópia: a cópia repete a mesma ideia a partir da mesma estética ou, até mesmo,
a partir de uma estética diferenciada. A referência cria novas ideias a partir
de uma estética que já carrega um conceito.
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