O que vou dizer hoje é que você não deve prestar tanta
atenção nas coisas que lhe acontecem. Ao invés disso, perceba o que você sente
quando algo lhe acontece. Muitos acontecimentos são influenciados por fatores
que, em princípio, não podem ser controlados. Mas o que você sente quando algo
acontece, esse sim é um fenômeno que cabe unicamente a você. É a história da
menina que ficava triste, pois um menino que ela idolatrava viva lhe
debochando. Até que a menina deixou de idolatrá-lo e, no mesmo instante, ela
parou de se entristecer com os deboches. O menino, quando percebeu que ela não
mais se entristecia, parou de debochar, pois a implicância perdera o sentido. E
a menina, agora livre, interessou-se por outra pessoa, que lhe correspondeu de
coração.ser livre
Tuesday, May 30, 2017
Monday, May 15, 2017
o amor é a pedra fundamental do universo
Hoje um ladrão furtou o
celular de uma senhora. O ladrão estava acompanhado de um pivetinho, de, no
máximo, 5 anos. O ladrão fugiu e a população pegou apenas o pivetinho. A
notícia boa é que a maior parte do grupo que pegou a criança viu que se tratava
apenas de uma criança. Seguraram ele e esperaram a policia chegar. A notícia
triste é que havia pessoas querendo espancar o menino. Adultos de 40, 50 anos,
querendo machucar um criança de cinco anos, que sequer fora autor principal do
roubo. Então percebo o que a violência faz ao brasileiro: estamos perdendo a
essência humana. A face silenciosa da violência é que ela recruta nossas almas.
Compaixão vira ódio, e o mundo passa a girar em torno da necessidade imediata por
segurança. Precisamos de segurança, e quem ameaçá-la é considerado inimigo passível
da pena de morte. As vezes, o ódio me alcança também, e temo por minha
individualidade: tenho medo de virar mais um desalmado nesse mar de zumbis,
pregando a mesma ideia intransigente de combater a violência através da
violência. Como se picada de cobra se curasse com picada de cobra. O amor é a pedra fundamental do universo.
Friday, May 12, 2017
somos seres passageiros
A certeza de hoje é a dúvida do amanhã. O azul, que hoje
fascina, amanhã é rosa. A música preferida cai no esquecimento, e outra melodia
invade a mente. Alguns amigos de ontem agora já não o são mais. Amores vão,
amores vem, inverno, primavera. Ídolos evaporam, outros se firmam, invertemos a
opinião. Trocamos os quadros nas paredes, trocamos de paredes, corremos na
imensidão. Somos seres passageiros; em vida.
Tuesday, May 09, 2017
coragem
La longe vi o sol brilhar. As montanhas distantes se
agigantaram. A luz das nuvens trouxe cheiros de ventos espalhados. Pássaros
cantarolavam poemas de navegantes eufóricos. A grama alta dançava. Abelhas. Vi-lhes
as asas douradas, e o sabor de mel encheu de favas meu coração. A esperança é
uma melodia sussurrada de trás para frente. Deixei meus lábios sonharem. Fiz um
ramo de flores imaginário e o entreguei à saudade. A vida me sorriu numa paz há
muito esquecida. Felicidade é assunto da coragem: você se pertence.
Tuesday, May 02, 2017
estrelas na imensidão do céu
Amor, ódio, amizade, desprezo, admiração, intolerância, raiva. Nossas emoções são essencialmente ligadas a outros seres humanos. Quando sentimos, na regra, sentimos algo por alguém. Amor pelo filho, raiva do vizinho, desprezo pelo marginal, admiração pelo ídolo. Mas o que sentimos por alguém nos diz absolutamente nada sobre esse alguém; diz-nos apenas algo sobre nós mesmos. Quando temos raiva do amigo, essa raiva não pertence ao amigo, ela é nossa. Essa raiva não nos conta uma história sobre o amigo, mas uma história sobre nós. Assim, as emoções são o espelho da própria alma. Nossos sentimentos por outros são a revelação de quem somos. Tolerar o próximo é viver em paz consigo. Perdoar é compreender as próprias limitações. Estrelas na imensidão do céu; vasto é meu coração.
Monday, March 06, 2017
o amor e as lágrimas
Ouço a palavra amor, e a imagem que vem a mente é de um
rosto coberto por lágrimas. Não sei relacionar o amor a um casal feliz correndo
pela grama verdejante. O amor, na minha concepção, é tão absoluto que a
felicidade não o alcança. É um pássaro no invisível. É o beijo prisioneiro dos
próprios lábios. É a luz da caixa de som no quarto escuro. É o vento que se
espreme pela fresta da janela. É o barulho da chuva no vidro. É a árvore que
suporta a tempestade. É o senhor com dificuldade de se erguer do banco da praça.
É a chamada perdida no telefone. O amor é a corrida contra todos, inclusive
contra nós mesmos. É a grandeza do impossível. É a lembrança daquilo que não
aconteceu. É o abismo da razão. Na solidão da alma, as lágrimas são verdadeiras,
e o sorriso engana. Ouço o galope dum cavalo numa estrada de terra batida. Abro
os olhos, está escuro: à noite, eu me pertenço.
Saturday, February 18, 2017
apenas ser e nada mais
Ser feliz, ser persistente, ser independente, ser
diferente, ser amável, ser gentil, ser forte, ser tolerante. Há tantas regras,
conselhos e ditados de como se deve ser, que esse “ter de ser” esgota a alma.
Que tal apenas e simplesmente ser? Sem adjetivo: ser. E nada mais.
Saturday, February 11, 2017
quero me perder de novo
Hoje eu me perdi e não me reencontrei. Para ser sincero, não
quis me reencontrar. Desejei somente vagar por meu mundo paralelo em que o dia
a dia não sabe me importunar. Onde as flores nascem de cabeça para baixo e os
pássaros se calam curiosos. Aqui a noite é eterna, desde que eu não vá dormir.
Fecho os olhos e sinto que não sinto. Abro a geladeira e nada retiro. Releio
alguns trechos de textos que me agradam e finjo que as palavras são minhas.
Imagino o sol nascendo e o despertador quebrado. Imagino alguém entrando no meu
quarto e encontrando a cama vazia. O sono se aproxima, eu reluto, mesmo sabendo
que terei de acordar cedo. Penso em algo que me foge. Por fim, adormeço.
Desperto de manhã no reencontro com o compromisso. Estou com muito sono, mas
sem arrependimentos. À noite, quero me perder de novo.
Thursday, February 02, 2017
o milagre e a eternidade
As
vezes enxergo o milagre por um fugaz instante. De repente, reconheço a
impossibilidade lógica de tudo que existe. Como assim, uma carta de amor? Como
explicar que da poeira do universo evoluiu um sistema de vida que acabou por
permitir a existência de uma carta de amor? Quando percebo a grandeza desse
processo de criação, tudo de negativo perde o significado e só o que permanece
é o milagre: singelo, delicado e absoluto. É um palácio de cristal brilhando na
imensidão de uma planície azul. Tão improvável como o ato de eu estar
escrevendo essas linhas. Tão fascinante como o fato de você estar se
identificando com as minhas palavras. Pense nisso: da poeira do universo
evoluiu essa comunicação que gera um instante de verdade entre nós. Nuvens que
se transformam. Caminhos; eternidade.
Tuesday, January 24, 2017
o cercadinho verde-enferrujado
No limite da cidade havia um parquinho para as crianças. Era
um cercadinho verde-enferrujado, que ocupava o centro de um terreno baldio de
terra batida. Dentro do cercadinho, o escorrega, o balanço e o trepa-trepa. Um
grupo de crianças se alternava nos brinquedos, enquanto os adultos responsáveis
se ocupavam com smartphones. Tempo nublado. Uma das crianças andou às grades do
cercadinho para observar uma poça de água que se formara durante a última chuva,
no terreno baldio. A poça parecia tão mais divertida que o parquinho. Percebeu
a porta do cercadinho destrancada e os adultos distraídos. Escapuliu. Tirou os
sapatos e pisou no iniciozinho da poça. Sentiu a lama se espremer por entre os
dedos dos pés. Riu alto. Curiosas, uma por uma as demais crianças fugiram do
cercadinho e foram se lambuzar na poça d’água, sem que os adultos notassem.
Brincaram por divertidos minutos até que retornaram despercebidos. Mais tarde,
ao chegar em suas respectivas casas, os adultos notaram, com estranhamento, que
os pés das crianças estavam sujos de lama. Não notaram, porém, que as crianças
sorriam como nunca antes. Não perceberam o brilho da aventura nos olhos dos
pequeninos. Deixaram de ver a magia, apenas a lama nos pés. Um dos adultos
pensou que o parquinho deveria ser reformado com urgência, talvez precisasse de
grama sintética. Outro decidiu comprar sapatos melhores, para manter os pés de
seu filho limpos. Outro ainda pensou em perguntar ao filho como foi que sujara
os pés, mas havia cinco novas notificações no smartphone, e esqueceu o assunto.
Sunday, December 11, 2016
o tempo e a idade
Então vem aquela sensação de que o mundo escapole pelas
mãos. De que tudo acontece para todo mundo, menos para mim. Nas redes sociais,
há sorrisos e viagens deslumbrantes para todos os lados. E eu, preso a minha
tentativa frustrada de seguir adiante, batendo todos os dias à mesma porta
trancada. Começo a apavorar-me de que o tempo possa ser mais rápido que o meu
esforço. De que meus objetivos, quando conquistados, sejam incompatíveis com minha
idade que avança. Algo como um adulto que recebe um brinquedo que desejou por
toda infância, mas que não faz mas qualquer sentido, agora, na vida adulta.
Thursday, December 08, 2016
cores no cinza
Então, o que fazer? Qual será a solução para o turbilhão que
se passa na sua cabeça? Correr? Parar? Correr e parar? A vida permite uma pausa? Você tem certeza de
que não. Você tem certeza, ou ao menos acredita ter certeza, de que continuar é
a única possibilidade. De noite, na cama, você respira pausado, fica de olhos
abertos no quarto escuro, e algo indefinido parece indicar uma solução. O tempo
passa e os dias voam como as folhas de outono, sem que o inverno chegue e sem
que o verão se afaste. A solução não se apresenta, tudo parece estagnado e
está. A estagnação é parte da natureza humana. A mudança é exceção. O segredo,
acredito, é encontrar novos horizontes dentro da estagnação; é olhar a rua com
novos olhos; é ver cores no cinza.
Tuesday, November 29, 2016
solidão - a moça que chora na janela
Na penumbra da janela, uma moça chora. Desfocados, os olhos
molhados buscam algum conforto na rua e só encontram espaços cinzentos. Ela
está só, e a solidão causa uma crescente angústia vazia. Mas o que realmente
incomoda a moça não é a solidão em si; o que entristece é que ela não consegue
pensar em ninguém com quem ela gostaria de dividir aquele vazio. É como se toda
alma do mundo vibrasse numa frequência diferente. Por mais doloroso que seja o
vazio no peito, a moça o considera demais precioso para dividi-lo com qualquer
um. E assim o vazio só aumenta. É um ciclo sem fim aparente: quanto mais o vazio
cresce, mais precioso se torna. A boa notícia é que chegará o dia em que o
vazio se tornará tão precioso que deixará de ser um vazio, para ser um forte
abraço quente no corpo e na alma. E, nesse dia, flores vão brotar nos canteiros
das esquinas. A solidão será uma lembrança terna, dum tempo em que a moça não
compreendia a própria essência. E haverá espaços para novos mundos, novas
conquistas e novos amores.
Friday, November 18, 2016
você sabe a verdade
Você sabe a verdade, mas chama o mundo de injusto. Você diz
que a causa das suas angústias é um mistério que devora suas forças. As vezes
você chora algumas lágrimas azedas. Quando a chuva escorre pelo vidro da janela
tarde à noite, você se entrega ao vazio imenso que persegue a sua alma. Então,
de repente, por um breve instante, você encontra a verdade. Ela é cristalina e
absoluta, sem margem para qualquer dúvida: a verdade é um grande desafio. Você
sabe que precisa escalar a montanha e você sabe que, depois de trilhar esse
caminho, nada será como antes. Um calafrio corre todo seu corpo e você se
assusta. A verdade quer lhe escapar, e você permite. Você apaga as luzes,
deita-se na cama e dorme uma noite mal dormida. Na manhã seguinte, você finge
que nada aconteceu. Você retorna para a sua rotina vazia e se convence de que
há graça na monotonia. Mas, lá no fundo, você sabe a verdade e sempre soube: a
montanha está a sua espera; o universo lhe reserva uma caminhada inesquecível.
Tuesday, November 01, 2016
cavalinhos imaginários
Você deseja ser considerado, mas ninguém se importa. O mundo
gira rápido de mais para compreender seus pensamentos longos. Você se percebe
só e sem amparo. Veja bem: o motivo da sua angústia é que a humanidade gira num
imenso carrossel. Tenha determinação, solte do cavalinho e observe o carrossel
de fora. Você verá pessoas rindo, outras chorando, todas completamente
anestesiadas pelo girar da roda. Então você entenderá por que ninguém se importa;
as pessoas estão apenas preocupadas em não cair dos cavalinhos imaginários.
Sunday, October 23, 2016
dois patos selvagens
Dois patos selvagens, macho e fêmea, pousam na mesma
lagoa. É um final de tarde ensolarado na imensidão da Amazônia. A luz quente
deixa as cores fortes e faz o verde intenso contrastar com o azul do céu. Imensidão.
A pata olha o pato com encanto. Admira-lhe o peito empinado e sente um calor em
torno do coração. O pato a ignora; pesca alguns peixinhos e parte voando,
deixando-a sozinha na lagoa. A pata se entristece, sem saber ao certo o que é
tristeza. Observa o horizonte e, pela primeira vez, percebe que há beleza na selva. O pato, a essa hora, voa longe, e continua sendo
o mesmo pato selvagem do início desse relato; a pata deixou de ser selvagem. Assim são os sentimentos; quando amamos
alguém, expandimos o ser, mesmo que o outro não nos ame de volta.
Tuesday, August 30, 2016
menina no topo da montanha
O cenário é uma menina sentada no topo de uma montanha, à
noite. A imagem se assemelha aos desenhos de livros infantis. No céu preto azul
escuro, a meia lua brilha amarela ao lado de cinco estrelas exageradas. Os
olhos grandes da menina lutam para se encaixar no rosto ligeiramente
desproporcional. Ela expressa tristeza. Não uma tristeza adulta certa
qualificada, como a perda de um emprego. A tristeza da menina é maior que as
certezas fatos. É um beliscar na alma que ninguém compreenderia. É um vento
dentro da tempestade. É um segredo que a menina gostaria de contar ao mundo,
mas não há como, pois sua tristeza não existe nas palavras.
Thursday, August 18, 2016
O que você sabe da noite?
O que você sabe da noite? Ela é escura, as vezes triste. Que ela abraça as lágrimas com carinho confidente. Que ela é honesta com a dor. Você percebe que, quando as luzes da casa se apagam, seu quarto finalmente é verdadeiro? Que o espelho reflete, não a pessoa que você quer mostrar pro mundo, mas a pessoa que o mundo não sabe encontrar? A cama macia, a escrivaninha bagunçada, um cheiro de eternidade, a mochila entreaberta e um abraço que só você mesmo sabe se dar.
Tuesday, August 09, 2016
arte x sociedade
concluo que o artista tem uma importância muito menor para a sociedade que ele imagina ter, e muito maior que a sociedade imagina que ele tenha.
Thursday, July 28, 2016
viver no agora
Por que há tanto desrespeito pelos idosos? Porque ninguém
mais respeita o passado. Por que há tanta violência contra crianças? Porque se perdeu
o encanto pelo futuro. O ser humano está preso num imediatismo doente, em que
só o agora importa. A humanidade caiu numa armadilha. Fomos bombardeados com
dizeres de filosofias orientais que pregam o viver no agora, sem entender que
por trás dessas filosofias existem culturas e tradições milenares, incompatíveis
com a nossa interpretação do agora. O nosso agora não é o mesmo agora do sábio
da montanha. O nosso agora é somente um descompromisso leviano e nada a mais.
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