Sunday, August 23, 2015
o medo e a pressa
corre quem tem medo, e corre quem tem pressa. seria a pressa o medo camuflado? ou seria o medo apenas uma simples pressa.
Thursday, August 20, 2015
Big Bang e o grande mistério
penso que o grande mistério do Big Bang é relativo àquilo que o antecedeu. qual foi o movimento que desencadeou a trajetória das partículas que iniciaram o Big Bang? quais eram as leis da física que regiam essas partículas? a atual experiência do acelerador de partículas feita pelo Cern parte, inevitavelmente, da condição de universo regido pelas regras pós Big Bang. por mais que se tente neutralizar o ambiente do experimento, nós, a humanidade, que fazemos o experimento, carregamos as leis pós Big Bang em cada átomo do corpo.
Tuesday, August 18, 2015
árvore na sombra
Na sombra dum morro havia um coqueiro que não crescia. Certo
dia o coqueiro, ressentido, perguntou à mãe terra o motivo de não crescer. A
mãe terra respondeu “o destino da árvore é prover o mundo de sombra, assim, uma
árvore na sombra não faz qualquer sentido.”
Monday, August 10, 2015
tropeço
lendo outro post que ridiculariza erros de português no
facebook,
concluo:
só tropeça quem anda
só tropessa quem escreve
Monday, July 27, 2015
certezas
hoje, o que mais me desalenta são pessoas com certeza absoluta. certeza do PT, do PSDB, do Uber, dos táxis, da religião, da não religião, do regime, do vegetarianismo, da carne, das drogas, das proibições, dos menores, dos maiores, da política econômica, do consumo, do aquecimento global, do desmatamento, da poluição, da gravidade, da inimportância, das bicicletas, dos carros, da distância e do horizonte. há pessoas com certezas que ultrapassam a possibilidade da verdade, pois mesmo a verdade tem limites. o vento espalha sementes e chamas. a água nutre e afoga, afaga e congela. a noite é luz da coruja. crianças são crianças, algumas são adultos, adultos são crianças. e as certezas a quem pertencem, aos adultos ou às crianças?
Thursday, July 23, 2015
seu segredo
há algo que você nunca contou para ninguém. um segredo que você aperta, que você abraça, que você segura em cada suspiro, em cada palavra, gesto e mesmo em cada pensamento. um segredo tão secreto que você mesmo só o conhece pela metade. preste atenção, este segredo é quem você é. deixe-o ir pelo mundo e vá junto. descubra-se.
Thursday, July 09, 2015
maioridade penal: quem se beneficia?
o que as pessoas não conseguem entender, que, ao berrarem contra a redução da maioridade penal, de fato, levam milhares de adolescentes ao crime. é fato comprovado que organizações criminosas se aproveitam da imputabilidade dos jovens para atribuí-lhes funções bem renumeradas, em que há grande risco de prisão. então, antes de assumir posição contrária, a pessoa deveria refletir se está realmente defendendo a juventude ou se está apenas agarrada a uma ideologia de aparência nobre, mas de consequências graves para aqueles que o ideal supostamente favorece. a pergunta é: a luta é pelos jovens ou pela defesa de um ponto de vista, de uma verdade própria baseada num sistema de crenças?
Tuesday, July 07, 2015
ter coragem
tive pensando: os verdadeiros valentes não são os corajosos, mas os medrosos. é fácil superar obstáculos com coragem, difícil é fazê-lo com medo. assim, concluo, que o verdadeiro corajoso, por essência, precisa ser medroso, pois viver com medo requer um coragem que o corajoso destemido nunca experimentará.
Sunday, July 05, 2015
ler é escalar montanhas
Ler um livro é escalar uma montanha. Toda leitura é motivo
de satisfação efetuada. Assim como no cimo do monte a alma encontra grandeza
redonda, o livro que se finaliza abra a porta não letrada para um novo
horizonte. Algumas escaladas são fáceis, mesmo quando a distância é muita,
outros livros, fininhos, conduzem a uma inesperada exaustão. Trago nas memórias
da infância o mesmo valor de orgulho dos primeiros livros que completei e das
primeiras montanhas que subi. Há algo num livro que remete a alturas esticadas,
olhar alongado de quem alcançou o cume do mundo.
Friday, April 24, 2015
eterno
chego a conclusão de que tudo é o oposto do que sempre
acreditei, tudo é eterno. cresci ouvindo que tudo era passageiro, mas de
repente me deparo com a eternidade na essência de cada gesto, de cada movimento
e de cada conduta. minhas relações, experiências, expectativas, frustrações e
verdades são frutos da eternidade. sou eterno e na eternidade encontro a paz.
Tuesday, March 24, 2015
o polêmico caso de Anglina Jolie
o polêmico caso de Angelina Jolie
Primeiro foram os seios, agora os ovários e as trompas. Numa suposta medida para evitar o câncer, Angelina retira seios e órgãos reprodutivos. Tudo respaldado em moderníssimos exames, que comprovariam que ela tinha 87% de chances de desenvolver câncer.
É curioso que esses exames existem para promover uma cirurgia. Pensem bem: se esse exame existisse para câncer de pulmão, qual seria a solução? Retirar o pulmão? E para o fígado, os ossos, a medula e o cérebro? O que se faria? Não é possível desossar uma pessoa por causa de uma probabilidade de câncer nos ossos. Não é possível retirar cérebro nem fígado. Aliás, se esse exame fosse realizado em homens, para detectar a possibilidade de câncer nos testículos ou na próstata, algum homem retiraria esses órgãos na certeza (ou no risco) de ficar impotente? Acho que mesmo se um exame desse 99% de probabilidade, um homem não retiraria os testículos em função de uma probabilidade. Então, por que a mulher deve retirar os seios e os ovários em função de uma suposta probabilidade?
É fundamental que a indústria da medicina tenha liberdade para pesquisar e para desenvolver metodologias, mas é tão fundamental quanto que se discuta os desdobramentos éticos das metodologias. Desenvolver um exame que induz à retirada de seios e de órgãos reprodutivos das mulheres me parece no mínimo polêmico. O câncer é, até hoje, um dos mistérios da medicina. Existem probabilidades e há estudos que ligam genes a essas probabilidades, mas também há estudos, de importância igual, que ligam o modo de vida ao surgimento de câncer. Quem mora numa cidade poluída, quem fuma, quem se alimenta com fast-food, quem come muito açúcar, quem usa drogas inibidoras do sistema imunológico, quem dorme pouco, quem se estressa no trabalho, quem tem muitos problemas pessoais, quem usa muitos cosméticos, cremes e outros produtos químicos, quem vai pouco ao sol e quem faz pouco exercício físico tem uma probabilidade absurdamente maior de desenvolver câncer que uma pessoa com hábitos considerados saudáveis. Não seria mais interessante usar as pesquisas genéticas nesse sentido? Dizer à mulher: olha, você tem, teoricamente, uma probabilidade maior de contrair câncer, assim, é muito importante que você tenha uma rotina saudável e faça exames de rotina.
O que mais me incomoda nessa questão específica é que se trata duma intervenção violenta, aplicada à mulher e justamente à sexualidade da mulher. Ataca-se a reprodução feminina. Vejo vestígios duma sociedade casta e moralista nesse procedimento, a crença de que a sexualidade feminina leva à degradação. Ninguém corta o saco dum homem por probabilidade de câncer, mas arranca-se os seios da mulher na maior naturalidade. A virilidade do homem é tão importante quanto o pulmão, porque a reprodução feminina não o seria? Conheço mulheres que tiveram câncer e retiraram os seios. A grande maioria está super bem e se livrou 100% do problema. O importante é que fizeram exames preventivos. Agora, antecipar-se ao câncer retirando seios, ovários e trompas, porque a indústria desenvolveu um suposto teste de probabilidade é insano. É um desrespeito à mulher. É dizer que os órgãos reprodutores e os seios são dispensáveis. É reduzir à mulher. É um desenvolvimento covarde da medicina.
observação (25/3/2015): respeito 100% a opção de Angelina. é um direito dela decidir sobre o próprio corpo. preocupa-me apenas que outras mulheres possam ser induzidas, por esses exames e pela divulgação na mídia, a tomar a mesma decisão extrema, quando existem outros caminhos e quando se trata apenas de probabilidade. probabilidade não é fato, e cálculo de probabilidade, quando se trata de doenças e de curas, é um dos campos mais polêmicos que existem na medicina. mas repito: cada mulher faz o que quer.
Primeiro foram os seios, agora os ovários e as trompas. Numa suposta medida para evitar o câncer, Angelina retira seios e órgãos reprodutivos. Tudo respaldado em moderníssimos exames, que comprovariam que ela tinha 87% de chances de desenvolver câncer.
É curioso que esses exames existem para promover uma cirurgia. Pensem bem: se esse exame existisse para câncer de pulmão, qual seria a solução? Retirar o pulmão? E para o fígado, os ossos, a medula e o cérebro? O que se faria? Não é possível desossar uma pessoa por causa de uma probabilidade de câncer nos ossos. Não é possível retirar cérebro nem fígado. Aliás, se esse exame fosse realizado em homens, para detectar a possibilidade de câncer nos testículos ou na próstata, algum homem retiraria esses órgãos na certeza (ou no risco) de ficar impotente? Acho que mesmo se um exame desse 99% de probabilidade, um homem não retiraria os testículos em função de uma probabilidade. Então, por que a mulher deve retirar os seios e os ovários em função de uma suposta probabilidade?
É fundamental que a indústria da medicina tenha liberdade para pesquisar e para desenvolver metodologias, mas é tão fundamental quanto que se discuta os desdobramentos éticos das metodologias. Desenvolver um exame que induz à retirada de seios e de órgãos reprodutivos das mulheres me parece no mínimo polêmico. O câncer é, até hoje, um dos mistérios da medicina. Existem probabilidades e há estudos que ligam genes a essas probabilidades, mas também há estudos, de importância igual, que ligam o modo de vida ao surgimento de câncer. Quem mora numa cidade poluída, quem fuma, quem se alimenta com fast-food, quem come muito açúcar, quem usa drogas inibidoras do sistema imunológico, quem dorme pouco, quem se estressa no trabalho, quem tem muitos problemas pessoais, quem usa muitos cosméticos, cremes e outros produtos químicos, quem vai pouco ao sol e quem faz pouco exercício físico tem uma probabilidade absurdamente maior de desenvolver câncer que uma pessoa com hábitos considerados saudáveis. Não seria mais interessante usar as pesquisas genéticas nesse sentido? Dizer à mulher: olha, você tem, teoricamente, uma probabilidade maior de contrair câncer, assim, é muito importante que você tenha uma rotina saudável e faça exames de rotina.
O que mais me incomoda nessa questão específica é que se trata duma intervenção violenta, aplicada à mulher e justamente à sexualidade da mulher. Ataca-se a reprodução feminina. Vejo vestígios duma sociedade casta e moralista nesse procedimento, a crença de que a sexualidade feminina leva à degradação. Ninguém corta o saco dum homem por probabilidade de câncer, mas arranca-se os seios da mulher na maior naturalidade. A virilidade do homem é tão importante quanto o pulmão, porque a reprodução feminina não o seria? Conheço mulheres que tiveram câncer e retiraram os seios. A grande maioria está super bem e se livrou 100% do problema. O importante é que fizeram exames preventivos. Agora, antecipar-se ao câncer retirando seios, ovários e trompas, porque a indústria desenvolveu um suposto teste de probabilidade é insano. É um desrespeito à mulher. É dizer que os órgãos reprodutores e os seios são dispensáveis. É reduzir à mulher. É um desenvolvimento covarde da medicina.
observação (25/3/2015): respeito 100% a opção de Angelina. é um direito dela decidir sobre o próprio corpo. preocupa-me apenas que outras mulheres possam ser induzidas, por esses exames e pela divulgação na mídia, a tomar a mesma decisão extrema, quando existem outros caminhos e quando se trata apenas de probabilidade. probabilidade não é fato, e cálculo de probabilidade, quando se trata de doenças e de curas, é um dos campos mais polêmicos que existem na medicina. mas repito: cada mulher faz o que quer.
Sunday, March 15, 2015
manifestações de 15 de Março de 2015
o que não se pode, de maneira alguma, é reprimir as pessoas que hoje foram as ruas para protestar. a manifestação é um direito legítimo, absoluto e intocável numa democracia. negar esse direito, ao afirmar que os manifestantes incentivam um golpe, é viver a realidade do golpe, que se caracteriza, justamente, pela proibição da livre manifestação.
Friday, December 12, 2014
mentira e verdade
Penso que há dois opostos que nos dificultam o dia a dia: um
é a mentira, o outro é a verdade.
Friday, November 28, 2014
arte e cachaça
cheguei a conclusão de que a arte é a cachaça dos fracos. a cachaça dos fortes é cachaça mesmo.
Tuesday, October 07, 2014
legalizar o aborto?
discussão polêmica: a defesa do aborto virou um must entre
as pessoas supostamente instruídas. em defesa do aborto, pesa o direito de
opção da mulher para encerrar uma gravidez e a preocupação com a saúde das mulheres
(uma vez que abortos clandestinos causam muitas vítimas). na discussão, oculta-se,
porém, uma bandeira importante: o direito à vida das crianças na barriga. evidentemente,
as crianças não nascidas não dispõem de mecanismos para garantir a própria vida.
deveria o estado abandoná-las à sorte? é preciso lembrar que os abortos, ao
contrário de 30 anos atrás, tornam-se cada vez mais rotineiros. se entre as
décadas de 1950 a 1990 o aborto fosse tão comum como é hoje, talvez 10% de nós,
que estamos aqui discutindo, não teria nascido. é pra se pensar. hoje existem
exames genéticos cada vez mais precisos, que adiantam a cor dos olhos, a provável
altura e eventuais doenças genéticas da criança que está para nascer.
conhecendo a loucura humana, é certo que haverá mães que optarão por fazer um
aborto, pelo fato da futura criança ter olhos escuros e um pé torto. o caso da
mulher que morreu recentemente em Niterói, após fazer um aborto clandestino, é
um bom exemplo: ela tinha três filhos saudáveis e o marido queria ter o quarto
filho, mas, mesmo assim, ela interrompeu uma gravidez no quinto mês, pois
acreditava que um novo filho iria atrapalhar a vida profissional. quem já viu
exames de ultrassom sabe que no quinto mês de gravidez a criança está formada. o estado não deveria proteger essa criança?
Thursday, September 18, 2014
momento Narcisa
após o vídeo hilário de Narcisa Tamborindeguy na ARTRIO,
confesso que já tive um momento Narcisa. foi no início da década passada. eu passeava
pelo Shopping Cassino Atlântico, quando me deparei com um vernissage na hoje
extinta Galeria 21, dos queridos Afonso Costa e Valéria Braga. receberam-me com
uma taça de champanhe, e quando dei por mim estava de pileque e admirava obras
de arte que eu não fazia ideia de quem eram. a certa hora, deparei-me com uma
gravura que imediatamente reconheci ser de Oswaldo Goeldi. perguntei à Valéria
Braga pelo preço da gravura. ela, para minha surpresa, puxou um homem na casa
dos quarenta pelo braço e disse: “pergunte ao artista.” fiquei perplexo; pelo
que eu sabia Goeldi estava morto fazia algumas décadas, mas, pego de surpresa e
com champanhe na cabeça, resolvi tirar a história a limpo, virei-me para o
artista e perguntei: “você é o Goeldi?” a resposta foi um fulminante olhar de
desprezo. sem nada dizer, o artista deu me as costas e abandonou-me com minha
dúvida ignorante. mais tarde descobri que se tratava de uma intervenção no
trabalho de Goeldi e que o artista que me fora apresentado era o interventor,
Nuno Ramos.
o que Narcisa e eu temos em comum nesses dois momentos é
que quebramos a rígida norma de como se comportar no meio das artes. cometemos
o pecado capital de fazer perguntas tolas num meio que se proclama aristocrático.
o curioso é que a arte, como expressão da liberdade, tem como principal
objetivo, justamente, a quebra de hierarquias engessadas. muitos se perguntam
de que maneira a arte poderá evoluir daqui para frente, uma vez que todas as
barreiras criativas já foram superadas. talvez o caminho seja a queda da torre
de valetes, e o futuro da arte esteja na simples reconstrução horizontal. talvez
também não. mas certo é que episódios como o protagonizado por Narcisa devem nos
levar à reflexão; afinal, pode um ambiente com rígidos protocolos promover a livre
expressão?
Sunday, July 27, 2014
palavras e fotos
queria
poder fotografar as palavras. registrar o instante preciso que uma palavra
representa em determinado momento. palavras são camaleões emocionais, nunca,
jamais, repetem o mesmo significado. o frio de hoje é diverso do frio de ontem.
o amor de João é diferente do amor de Maria. gostaria de fotografar as palavras
para poder congelar exatamente o que se quis dizer em certo instante. depois que ditas, ninguém sabe repetir o que significam.
Sunday, July 20, 2014
conflito Israel x Palestina
o assunto mais ingrato para se comentar é o conflito
Palestina x Israel. quão maior o esforço de abordar a questão de forma neutra, maior
a certeza de que aquele conflito é um espelho de milhares de conflitos em todo mundo.
aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, vivemos situação bem parecida; milhares de pobres residem
praticamente trancafiados nas favelas e têm como principal apoio organizações
humanitárias e organizações criminosas locais. aqui não existe uma fronteira
física separando os dois lados, mas a fronteira invisível existe, e o lado de
cá não aprecia quando o lado de lá se aventura pelos shoppings e cinemas da área
nobre. a invasão militar, como resposta a crimes, também é um método que nós
usamos. quando um bandido de uma favela assassina uma mocinha da área nobre, o
Bope invade aquela favela e a ação também traz como efeito colateral a morte de
alguns civis. nossa sociedade, assim como Israel faz em relação à Palestina,
acostumou-se a tolerar a morte de civis nas favelas, quando o pretexto é manter
a ordem e reprimir criminosos que lá se escondem. por isso, não me sinto em
posição de opinar no conflito Israel x Palestina. creio ser preciso, antes de opinar
em conflitos alheios, arrumar a própria casa. desafio qualquer um a comparar o
número de civis mortos pela polícia brasileira ao de civis palestinos mortos
pelo exército de Israel. a nossa guerra causa mais mortes.
Saturday, July 19, 2014
a estranha moda das doações em festas infantis
a tradição de presentear o aniversariante originou-se nos
ritos religiosos: da mesma maneira que se acendia velas nos templos e se fazia
oferendas aos deuses, presentear o aniversariante (e acender velas no dia do
aniversário) era um gesto de desejar boa sorte e pedir proteção para o ano que
se iniciava. aos poucos, a tradição religiosa transformou-se num ato de carinho
com o aniversariante. finalmente, virou obrigação – ir num aniversário sem
presente é falta de educação. essa obrigação transformou o antigo rito num
festival capitalista. hoje, quando vamos num aniversário de criança, é preciso
passar antes numa loja de brinquedos. o resultado é, na regra, um monte de
presentes de plástico que são deixados de lado pela criança aniversariante após
poucos dias.
algumas mães, cientes desse consumo que perdeu o sentido e ecologicamente incorreto, resolveram
mudar o rito: pedem que os convidados façam doações a uma instituição que cuida
de crianças carentes. a iniciativa é em si muito nobre, mas distorce tanto a
origem do presente como o gesto carinhoso que o presente representa. pelo ponto
de vista da origem, deixamos de desejar sorte ao aniversariante; pelo ponto de
vista do carinho, ficamos impedidos de dar algo pessoal para o filho dum amigo
numa data especial.
sou 100% a favor de filantropia e penso que, num país desigual
como o Brasil, temos todos o dever moral de contribuir de alguma forma (seja
com dinheiro, com ajuda braçal, com doação de roupas ou até mesmo com
aconselhamentos) para ajudar pessoas carentes ou ignorantes, mas penso também que
é preciso tomar cuidado, para não distorcer o sentido dos gestos. quem quer
fazer filantropia, faz por livre vontade, não porque os pais dum aniversariante
pediram. e quem quer dar um presente para o filho dum amigo, tem o direito de
dar o presente.
Friday, May 30, 2014
raízes
penso que hoje o grande problema do Brasil é a
complexidade emocional que o país demanda dos brasileiros. não é a toa que
vivemos uma onde de violência sem precedentes, seja nas manifestações
enfurecidas, nos atos exaltados de grevistas, no roubo na esquina ou na
banalização de desentendimentos entre vizinhos. o constante bombardeio por
injustiças e corrupção, a decadência do sistema político, a inércia operacional
do aparato público e a falência de setores primordiais, como educação e saúde, levam
os brasileiros a uma exaustão emocional diária, que, não é a toa,
transformaram-nos no maior consumidor de Rivotril do mundo.
qual a solução? mudar-se para fora do país não seria, também,
uma forma de rivotrilar-se? ficar e estressar-se à exaustão não seria um desgaste
desnecessário? creio que, quando tudo parece estar errado, a transformação está
em curso. o desequilíbrio do meio é, talvez, a maior escola da alma humana. por
isso, chega dessa conversa de sair do Brasil. aqui é o nosso lar. aqui é nossa
escola da vida. árvore que cresce durante a tempestade cresce apta a enfrentar qualquer
turbulência futura. o segredo é não descuidar das raízes.
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