Friday, March 29, 2013

a dama de copacabana


as vezes me dou conta que moro num dos bairros mais intensos, de uma cidade fervorosa, de um país veemente - como só é o Brasil. então, deixo de me irritar por alguns minutos com toda desorganização que compõe esse caos reinante; percebo que, de certa forma, a alma de minha realidade é um pulso frenético e descontrolado, que dá vida às mais inimagináveis e imprevisíveis manifestações urbanas. e, neste singular momento, entendo, que, com todos os problemas que possamos ter, é um privilégio imenso viver em toda e qualquer cidade brasileira. trata-se de uma experiência única. imagino-me chegando certo dia no pós-morte, com um espírito qualquer me perguntando: você veio da onde? e eu respondo: do brasil! e o outro diz: caramba, que inveja, minha experiência de vida foi num povoado pacato nos alpes suíços.

Friday, February 08, 2013

A arte nas fotos de Massimo Vitali


Por qual razão o registro de uma praia de Massimo Vitali (veja imagem deste post) é considerado Arte, enquanto um registro de uma praia intocada não o é? O registro da praia intocada aborda uma ideia simples e já finalizada, assim como, na regra, toda foto de natureza. Tirando-se a beleza das formas, há, somente, sensações como paz e plenitude, mas não um aprofundamento emocional. Se houvesse, na mesma praia intocada, um objeto capaz de quebrar a harmonia óbvia da natureza, por exemplo, um homem pescando de terno rosa, as sensações transmitidas pela natureza seriam somente o início de uma mensagem, que se estenderia através do pescador de terno, levando, assim, à transformação do observador. É o que ocorre nas fotos de Massimo Vitali: o posicionamento dos frequentadores das praias traz sensações complexas.
                Ainda sobre o valor artístico das fotos de Massimo Vitali, a arte é um processo em constante evolução. Obras novas desenvolvem-se a partir de obras antigas, as ideias de ontem formam os conceitos de hoje. Retratar uma praia deserta não traz inovação alguma em relação as fotos de Edward Weston e Ansel Adams. As fotos de Massimo Vitali, por sua vez, partem dos registros clássicos do início do século XX, para apresentar uma nova postura, de um mundo explorado, ao contrário dos registros clássicos, que, na época, apresentavam um mundo a ser explorado.

Wednesday, January 09, 2013

qualquer um poderia ter feito isso


Recentemente, um amigo disse não entender certas obras das artes Moderna e Contemporânea. Ele referia-se a obras de fácil execução, como, por exemplo, um quadro branco com listras pretas. O argumento foi aquela velha história de que “qualquer um poderia ter feito aquela obra”. Para entender-se por que obras de fácil execução são, sim, obras de arte, é preciso conhecer uma linha de pensamento que iniciou-se no século XX e teve, como o mais ilustre representante, Duchamp. Um grupo de artistas chegou a conclusão que a técnica é inimiga do processo criativo, por interferir no fluxo do criador (o artista) para a obra. Diziam que a obra de arte precisa ser o mais independente possível, e, para isso, não deve trazer os traços pessoais do criador. Assim, começaram a desenhar com réguas e utilizar-se de diversas outras artimanhas que anulassem o aprendizado técnico do artista. O acaso, também, era considerado de grande valor na criação, e era preciso dar espaço para que o acaso pudesse se manifestar. Anos mais tarde, Jackson Pollock revolucionou este conceito, ao criar o action painting, no qual a pintura se libertou, de vez, do domínio da mão do artista.

Com outras palavras, na obra de arte de fácil execução, a ideia e a inspiração predominam. O importante, para o observador, não é pensar se ele, também, poderia ter feito aquela obra. É preciso deixar que aquela obra de fácil execução exerça o papel de transformar as emoções do observador. É interessante perceber que, como eu disse no meu post anterior, a arte se constrói de liberdade e de criatividade. Quando se diz “qualquer um poderia fazer essa obra de arte” está se induzindo a cópia, porque, na verdade, está-se propondo que alguém repita o processo de fácil execução feito pelo artista.

Para quem ainda não concorda com esse pensamento, proponho o exercício inverso. Na prática, qualquer um pode cursar as melhores academias de arte e aperfeiçoar-se nas técnicas mais complexas que existem. É algo como se tornar um engenheiro: a arte de difícil execução requer técnica apurada e nada mais. Ou seja, quando se valoriza um quadro de difícil execução, está-se, valorizando, na realidade, a técnica do artista, e não a emoção que o artista transpôs para aquela obra.

Sunday, December 23, 2012

nem tudo que se admira é arte


Apolo, deus da luz e das artes, é filho de Zeus com Leto. Zeus representa a energia primordial criativa, enquanto Leto é a deusa da liberdade. Assim, seguindo-se o pensamento da mitologia grega, as artes nascem quando há liberdade criativa. As duas premissas básicas para uma obra de arte são, por tanto, criatividade e liberdade. Um ser livre, que copia, não cria arte. Um ser criativo, ordenado a fazer certa obra, tão pouco, produz arte. Seguindo-se este raciocínio, a maior parte das obras do renascimento não seriam obras de arte, pois foram encomendadas pela Igreja. As cenas religiosas de Rafael, Da Vinci e Michelangelo não seriam arte, pois são frutos do dogma religioso. É uma afirmação ousada, defendida por alguns estudiosos. Na prática, é difícil admirar um quadro de Michelangelo e afirmar que não é arte. Talvez, a chave da questão esteja na palavra admirar: nem tudo que se admira é arte.

Tuesday, December 18, 2012

leitura grátis

meu segundo romance - o último urso-polar, agora gratuito, na versão eletrônica, no site:www.colorfotos.com.br/urso-polar.htm


Monday, December 17, 2012

Afinal, o que é uma foto de arte?

Afinal, o que é uma foto de arte? Curiosamente, essa, que deveria ser mãe de todo questionamento na fotografia de arte, é uma pergunta rara. Diversos fotógrafos expõem suas fotos em galerias, em sites ou nas paredes de cafés e restaurantes, na certeza de que se trata de obras de arte. Na regra, são encantados por suas criações, sentimento comparável ao de crianças quando realizam os primeiros feitos na vida. Há um grande abismo entre pintores e fotógrafos, principalmente, no caso de iniciantes: enquanto pintores iniciantes costumam ser tímidos e com dúvidas relativas à qualidade de suas criações, fotógrafos carregam uma autoconfiança quase arrogante, uma certeza insana de que suas fotos são de grande valor artístico.

Thursday, November 01, 2012

O Conto Azul de Leonardo da Vinci

Chega às livrarias, em Novembro, meu novo livro de ficção, O Conto Azul de Leonardo da Vinci. O lançamento oficial é em Janeiro de 2013.

Friday, October 05, 2012

em quem votar?

o problema não é o fato que não me identifico com nenhum dos candidatos. muito pior, é que não me identifico com nenhum partido. o PV, que se diz o partido sustentável e correto, faz uma zona danada aqui em copacabana, chega a ser cômico. há uma sede de campanha do PV próxima a minha casa, onde cartazes obstruem a passagem de pedestres, carros estacionam irregularmente e, de noite, liga-se o som com música eletrônica ao máximo, como se fosse uma rave. e assim é com todos os partidos. nenhum é fiel à própria filosofia e se envolvem, dia sim dia também, nos mais diversos escândalos.

Wednesday, August 22, 2012

vivendo através das lentes


Esta foto espetacular, publicada nos principais jornais online do mundo, mostra a importância da fotografia no cotidiano das pessoas. Reparem que, de sete pessoas observando a baleia jubarte, cinco seguram uma máquina fotográfica na mão. Observar é fotografar. De nada parece valer o momento, quando não registrado em foto. A máquina serve, inclusive, de proteção: a moça do vestido preto, dificilmente, estaria tão próxima e calma, não fosse pelo fato de estar fotografando. Cada vez mais, experimenta-se os momentos através das lentes.

Tuesday, August 07, 2012

octamãe e o fracasso do governo dos EUA

nem nos EUA o serviço social funciona. todo mundo já deve ter lido que a mulher que teve óctuplos está tendo que, literalmente, dar o rabo para pagar as contas. o interessante é que o governo americano não ajuda. o governo apenas controla se as crianças estão sendo "bem criadas". caso não estejam, o governo retira a guarda e aí, sim, passa a custear as crianças em abrigos. não seria mais fácil, humano, correto e lógico ajudar a mãe enquanto ela estar com a guarda? considero esse episódio embaraçoso para os EUA. em tempo: se alguém quiser ajudar, pode fazer uma doação em gofundme.com

Tuesday, July 17, 2012

Livro Grátis sobre a Amazônia

Disponibilizei, de forma gratuita, a versão eletrônica de meu livro Tem um Louco Solto na Amazônia. Basta acessar o site http://www.colorfotos.com.br/louco-amazonia.htm e fazer o download.

Friday, June 22, 2012

Referência na fotografia


André Kertész foi uma dos fotógrafos de estilo mais marcante na história da fotografia. Entre suas principais criações está uma série de mulheres nuas e distorcidas A minha foto deste post é, assim, inspirada no trabalho dele. Distorci o carro e deixei  o seio da mulher sem distorção, colocando os dois elementos de Kertész na mesma imagem (distorção e nudez), invertendo, porém, o conceito: enquanto Kertész distorcia o objeto do desejo, eu faço com que o objeto do desejo distorça o mundo. Essa é a importância de se usar referências na fotografia de arte, pois sem a referência minha foto perderia em força. É um processo muito diferente da cópia: a cópia repete a mesma ideia a partir da mesma estética ou, até mesmo, a partir de uma estética diferenciada. A referência cria novas ideias a partir de uma estética que já carrega um conceito.

Tuesday, May 29, 2012

Fotosequências

Fotosequências são conjuntos de nove fotos cada, que representam um evento. A partir de uma estética em sequência, eu instigo o observador a refletir, num processo que se aproxima da vídeo-arte. No conjunto de fotos deste post, de título "O Eclipse das duas Luas", eu abordo questões relacionadas à união, a amarras, à interferência, à introspecção e à essência. Veja outras fotosequências no meu site.

Sunday, May 27, 2012

o caso do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos defendendo um contraventor

a OAB de São Paulo apoia um ex-ministro da justiça defender um contraventor no congresso nacional. prezados senhores da OAB: na teoria, o discurso de vocês é lindo! na prática, ele não convence. há milhares de bons advogados no Brasil, porque o Cachoeira escolheu justamente o ex-ministro? não é porque ele advoga melhor! é porque ele, como ex-ministro, é muito bem relacionado em Brasília, tanto no Congresso, como no STJ e no STF. e é isso que está incomodando a nós brasileiros. só isso. deu pra entender? ou vocês vão ter que consultar uma cartilha de ética?

luxo x conforto


                É fato que vivemos numa época de luxos. Sempre houve luxo, é claro, mas, antigamente, o luxo restringia-se a elite da elite financeira. Hoje, o luxo existe em escala industrial. Pode ser comprado em promoções de shopping centers, na forma de sedosos roupões de banho, de maçanetas douradas, de camas extravagantes e de muitos outros itens que transitam entre o conforto e o exagero. Pessoalmente, nada tenho contra o luxo, desde que ele me proporcione um significativo ganho de conforto. O que não me encanta é o luxo pelo luxo. Há pessoas que viajam para Dubai, somente para instalar-se numa das luxuosas suítes que os hotéis de lá oferecem. A cidade, em si, oferece pouco: em termos culturais, não é significante; as praias são monótonas; não se come melhor do que em São Paulo; as restrições comportamentais são muitas. Prefiro me instalar num hotel luxuoso em Bangkok e, além do conforto, conhecer os templos e outras preciosidades históricas.
                A questão central é: o luxo, por si só, nada acrescenta, é uma ilusão. Alguém senta-se num iate de cem milhões de dólares, impecável, mas... e dai? Pra onde vamos? Legal esse iate, mas qual o rumo da viagem, afinal, um iate existe para navegar. Para muitos, o destino perdeu significado: importam-se somente com o acabamento interno do iate, com as tevês de plasma, com o banheiro de mármore e com o mordomo servindo champanhe.
                O luxo é uma grande armadilha, pois ele seduz na promessa do bem estar, mas acaba eliminando vivências que, justamente, trazem o bem estar. Qual experiência é mais engrandecedora? Cruzar a savana africana de jipe ou hospedar-se num requintado hotel-safari com 20 mordomos, tapetes persas e com cercas elétricas que afastam os animais selvagens? É evidente que a viagem de jipe se torna mais agradável, quando o carro tem ar-condicionado, um excelente serviço e quando os pernoites são realizados em acampamentos requintados. O luxo não é condenável, mas ele não deve restringir a experiência.
                Eu costumo dizer que prefiro viajar na classe econômica, me hospedar numa pousada honesta e conhecer bem a cidade de meu destino, a viajar de primeira classe, hospedar-me no melhor hotel, mas ver pouco da cidade em si. Agora, se for possível viajar de primeira classe e conhecer bem a cidade, melhor ainda. O problema é que, na regra, isso não acontece. O luxo acaba por desnortear os sentidos, e, ao invés de conhecer cada canto de uma cidade, passa-se tempo na piscina do sofisticado hotel.
                Vale a pena pensar a respeito: qual o sentido do luxo na sua vida? Enquanto o luxo significar, somente, conforto na estrada, tudo está nos trilhos. Quando o luxo representa a vivência em si, há algo de errado acontecendo.

Tuesday, May 22, 2012

o nu artístico - falso pretexto

A maioria dos fotógrafos aborda o nu por uma questão de excitação pessoal, libertando instintos reprimidos sob o falso pretexto de estar se dedicando às Artes. É evidente que a criação artística pressupõe movimentos de libertação, assim, trabalhar a própria sexualidade através da fotografia é, sem dúvida, um caminho aceitável nas Artes. A falsidade está, porém, na abordagem à qual grande parte dos fotógrafos se propõe: ao invés de se libertarem, gradualmente, de bloqueios relativos à questão sexual, utilizam-se da fotografia, somente, para satisfazer desejos e necessidades reprimidas, sem que haja um movimento interno que se proponha a desatar amarras.