Friday, April 30, 2010

a colher de pau

As vezes, quando me dou conta, estou fotografando algo improvável, como uma colher de pau na cozinha. Então me pergunto o por quê daquela foto, mas não faço idéia. Meses depois, quando tiro uma foto importante, me dou conta de que aquela foto começou a compor-se na colher de pau.

Wednesday, April 21, 2010

amor à arte

Artista tornou-se uma singela palavra negativa, pois traz a falsa conotação de fama, glamour e outras futilidades, enquanto é, somente, sinônimo de expressão. Artista é quem vive para expressar-se. Artista é quem considera sua criação acima do retorno; seu pensamento ignora a crítica; sua liberdade impede compromissos financeiros.

Thursday, April 15, 2010

arte contemporânea

Sou da velha guarda e acredito que a arte, antes de mais nada, precisa ter genialidade. Aquele toque impossível de ser copiado (a não ser que seja por outro gênio). A arte contemporânea deve sim abraçar qualquer liberdade de criação e suporte, mas não se pode abrir mão da genialidade. Conceito todo mundo tem: transformar o conceito em arte, são outros quinhentos – só os gênios sabem.

Saturday, April 10, 2010

tempos difíceis

A fotografia está começando a ficar chata no meio das artes! Ninguém mais a aguenta, e com toda razão: afinal, nos últimos 10 anos, surgiram mais fotógrafos-artistas que advogados no mundo. Virou febre; qualquer um que um dia sonhou em ser artista, viu, na fotografia, a possibilidade de compensar a ausência de profundidade, qualidade e talento. Afinal, apertar um botão, todo mundo sabe. Alguns arquitetos, curadores, colecionadores e marchands desinformados ajudaram a inflar essa bolha, pois sugeriram a seus clientes que comprassem fotos de fotógrafos “com um discurso interessante” (dos puxa sacos, com outras palavras). Assim, a fotografia, por ser incompreendida, permitiu que milhares de clientes fossem iludidos. Vi fotos serem vendidas a R$ 10.000,00, embora nada valessem, outras, de grande complexidade, sem qualquer valor de mercado. A fotografia virou a arte do achismo: uns acham, outros compram. Aos poucos, as pessoas acordaram, e vejo anos difíceis para os fotógrafos. A tendência será pausar tudo para avaliar, refletir e filtrar as poucas fotos de valor do montante de abobrinhas.

Sunday, March 21, 2010

a fotografia me acalma

A fotografia me acalma. Não se trata somente do ato de fotografar, mas também do processo de ver e rever minhas imagens. É só isso que importa: mesmo nas piores tormentas, sou capaz de produzir instantes de absoluta paz. E não se trata de uma virtude minha – mas de uma dádiva, um presente do criador. É como se, por um momento, toda confusão no mundo se resumisse a pedalinhos e ao pôr-do-sol na lagoa.

Saturday, March 06, 2010

felicidade

A frase “ele merece ser feliz” ou “eu mereço ser feliz” não poderia ser mais equivocada. A felicidade não é uma recompensa por uma conduta ou por traços de personalidade supostamente benevolentes. O merecimento tem em si o estigma do esforço, e o esforço traz, com toda certeza, recompensas que variam desde a satisfação física ao dinheiro. A felicidade é algo muito além da satisfação – é um estado de graça. A felicidade, geralmente, nos pega desprevenida, transformando um instante despretensioso no melhor momento da vida. Ela é de curta duração, gosta de surpreender e deixa o gostinho de “eu quero mais”.

Monday, March 01, 2010

liberdade

Sugestão de livros

Alguns de meus livros preferidos:

- O conto da ilha desconhecida (Saramago)
- O feitiço da ilha do pavão (João Ubaldo Ribeiro)
- Helena (Machado de Assis)
- Meu pé de laranja lima (José Vasconcelos)
- Os tambores de São Luís (Josué Montello)

Monday, February 08, 2010

trecho do livro "Tem um louco solto na Amazônia"

trecho de meu romance que fala sobre a relação do homem com a fé:

"Naquela noite, Roma refletiu sobre a fé em Deus e sobre as pessoas, ditas religiosas, da cidade. Rezavam diariamente, frequentavam igrejas, sinagogas e outros templos, pediam ajuda nas tormentas. É fácil ter fé em Deus nas sociedades organizadas. O velho de coração defeituoso faz uma delicada cirurgia e, ao receber alta, credita a cura a Deus. A casa pega fogo, chamam-se os bombeiros, todos sobrevivem, e Deus recebe os agradecimentos. A família faminta recebe doação de alimentos, e novamente Deus é louvado na missa. Nas cidades, o homem pede a Deus, mas recorre ao homem. Riu com ironia, o primeiro riso há dias. Queria ver as pessoas rezando na Amazônia. Se Roma fosse picado por uma cobra venenosa, não havia fé capaz de salvá-lo. Caso a onça resolvesse atacá-lo, a melhor das rezas seria também a mais inútil. A sobrevida dependia somente dele. Precisava estar atento aos perigos da mata, encontrar alimento, coletar água e, dentro do possível, manter o rumo em linha reta. Nada de específico para pedir a Deus, somente força, destreza e coragem. Concluiu que, nas sociedades organizadas, os pedidos a Deus eram diversos e variados, enquanto, na selva, resumiam-se basicamente ao reforço às qualidades do homem. Na cidade, Deus transformara-se em uma espécie de amuleto da sorte. Na selva, Deus era o reencontro de Roma com a essência humana."