Ouço a palavra amor, e a imagem que vem a mente é de um
rosto coberto por lágrimas. Não sei relacionar o amor a um casal feliz correndo
pela grama verdejante. O amor, na minha concepção, é tão absoluto que a
felicidade não o alcança. É um pássaro no invisível. É o beijo prisioneiro dos
próprios lábios. É a luz da caixa de som no quarto escuro. É o vento que se
espreme pela fresta da janela. É o barulho da chuva no vidro. É a árvore que
suporta a tempestade. É o senhor com dificuldade de se erguer do banco da praça.
É a chamada perdida no telefone. O amor é a corrida contra todos, inclusive
contra nós mesmos. É a grandeza do impossível. É a lembrança daquilo que não
aconteceu. É o abismo da razão. Na solidão da alma, as lágrimas são verdadeiras,
e o sorriso engana. Ouço o galope dum cavalo numa estrada de terra batida. Abro
os olhos, está escuro: à noite, eu me pertenço.